Dias passados

Pontos astronómicos

Lugares visitados

Sons escutados

26. Sell fee? Selfie?

O capitão não descansou nas primeiras horas após a nossa largada, sempre a tentar manter a máxima velocidade junto à costa, com a intenção de encontrar um refúgio para as despistarmos. O vento soprava húmido e frio vindo do mar e uma névoa envolvia o convés como uma constante ameaça de cair sobre nós um véu espesso a qualquer momento. O capitão, de olhos semicerrados e mãos firmes no leme, lançava olhares rápidos ao horizonte, como se esperasse ver silhuetas a emergirem da bruma. «Aquilo é que são verdadeiras fãs.», ironizou o capitão. Handy Lol, encolhido num dos bancos da popa, puxava nervosamente a gola do casaco, como se quisesse esconder-se dentro dele. «Ela odeia-me.», repetiu várias vezes o novo tripulante, dividindo o olhar entre nós e o horizonte à popa do veleiro. O seu rosto, pálido e tenso, parecia lutar contra algo mais do que o enjoo. Os olhos, inquietos, procuravam na névoa uma ameaça invisível. «E ela tem razão para isso?» «Ela diz que só sente desprezo por mim, por...

25. A abordagem das feministas

Os últimos dias passados em Peggy Cove foram perfeitos para recarregar as baterias depois de uma travessia do Atlântico Norte. O capitão Slocum levou-nos a conhecer Mount Hanley, a sua terra natal, e fizemos o percurso ao longo de quase toda a costa marítima da Nova Escócia. Não queria sair daqui sem explorar ao máximo a beleza natural deste território, mas cá estou de trouxa ensacada e pronta para zarpar. Não é tanto por ter um certo sentimento de obrigação em acompanhar o capitão – até onde e durante quanto tempo, ainda não sei – mas sobretudo por sentir a morder o bichinho da curiosidade sobre o que é que ele anda a fazer nesta volta ao mundo. E se terei algum papel nisso tudo. Estava a matutar nisto a caminho do cais quando vi uma multidão no pontão em torno do nosso barco. Já estava na expetativa de encontrar mais um conselheiro político na tripulação, ou até mesmo um político popularucho, a julgar pela amalgama de gente, mas afinal era um “influencer”. Nunca tinha visto tanta...

24 – Rituais de Navegantes

Suponho que estejas familiarizado com certas práticas cerimoniais que ocorrem durante os solstícios de verão e de inverno. O mais badalado é Stonehenge, mas em vários países nórdicos os festivais de verão são o principal evento cultural do calendário e entre as nações indígenas do continente americano há celebrações nestes dias que evocam a sua ligação com a natureza. Pois, a noite passada testemunhei algo semelhante que trouxe algum sentido aos eventos das últimas semanas, embora tenha levantado novas questões que dificilmente serão respondidas, pelo menos por agora. Depois do pequeno-almoço com o capitão Slocum e o DeGarthe no dia da nossa chegada, ficámos a descansar o dia todo e ontem dormirmos até tarde. Precisávamos de recuperar energias depois de uma travessia do Atlântico Norte. Hoje de manhã, visitámos Peggy’s Cove, demorando-nos a admirar a arquitetura local e o efeito da maré na configuração deste pequeno lugarejo de cerca de 30 moradias. Depois do almoço, tivemos uma...

23. Chegada a Peggy Cove

Chegámos a Peggy’s Cove, na costa da Nova Escócia, no Canadá. O céu estava limpo, mas o ar trazia aquele frio cortante que só o Atlântico Norte sabe soprar. Sinto uma ligeira vertigem ao pensar nas milhas de oceano que nos separam, cada um de nós de um lado diferente do Atlântico. O mundo cresce à medida da nossa consciência, no reconhecimento de rotinas desfasadas em locais diferentes: uma enfermeira na Califórnia que sai de casa para o trabalho com os filhos que deixará na escola, um taxista na Nigéria que exaspera com as filas de trânsito do final da tarde em Lagos, um funcionário de uma bomba de gasolina em Alice Springs que termina o turno com o nascer do sol na Austrália… Recordo-me daquele filme de Jim Jarmush que vimos no Luísa Todi com o título “Uma noite na Terra” ou algo parecido. Diferentes culturas certamente, mas as dimensões básicas de espaço e tempo separam-nos: horas de acordar para ti quando ainda estou a meio do sono; pequeno-almoço aqui quando almoças aí. Falando...

22. Sextantes e Singularidades

Ao cair da noite, o Vachia Meli recolheu ao seu camarote, provavelmente ainda toldado pelo corretivo que lhe tinha dado no meio dos… arcos superciliares. Eu e o Capitão Jackdaw ficámos no convés, a exercitar a leitura da  nossa posição com o sextante. Eu sabia que ele sabia que eu estava a morrer por me lançar sobre o assunto que tinha ficado pendurado, como te contei, mas não queria pressionar a conversa. Foi então que o capitão disse como quem comenta a posição de uma estrela no firmamento que estávamos a observar. «O Vacchia Meli está a bordo porque isto já não é sobre pessoas, é sobre narrativas em trânsito.» O meu olhar deve ter tornado claro que não tinha apanhado a parte silenciosa do seu pensamento. «Estás a sentir, não estás?», disse. Surpreendi-me mais com o tom pessoal dado pela informalidade dos verbos do que pela questão em si. «O mundo começou a entortar-se há umas décadas. Ou, se quiseres, a ficar torcido muito subtilmente como uma fita magnética mal rebobinada. E...

21 – O ringue da virtude

Que desespero estar no mar alto e não ter Internet para poder comunicar contigo ou pelo menos para poder confirmar algumas informações! Acho que voltei a passar por um novo episódio de cruzamento com o passado ou pelo menos com personagens que vêm de outros séculos. Depois da experiência psicadélica do submarino amarelo, continuava a sentir-me um pouco tonta e, para evitar uma indisposição ainda maior, decidi recolher-me mais cedo sem jantar e descansar um pouco. Acordei com aquela estranha nitidez das manhãs em que o mundo parece já estar a acontecer há muito tempo sem mim, espantada por o capitão não me ter acordado para fazer um quarto à noite. Comecei a preparar-me para o dia e quando estava no salão a beber água ouvi um movimento atrás de mim e senti uma mão na anca, firme, casual, como se me conhecesse de qualquer lado. «Eh, bela!» Todos os alarmes dispararam no meu corpo e, confirmando num relance que não era o capitão quem me abordava, puxei a tábua de cortar do suporte por...

20. Submersão alucinada

Voltei a ter um episódio como aquele da tatuagem em Setúbal, sem conseguir distinguir sonho de realidade. Só que desta vez não se tratou de lapsos de memória e de saltos no tempo e no espaço. Toda a realidade estava alterada, como se tivesse sofrido um ataque de sinestesia total. Tinha recolhido ao meu compartimento, incapaz de acompanhar a discussão dos três tarolas devido ao excesso de grogue que tinha tomado. Não bebi muito, apenas dois pequenos copos, mas devo estar mais suscetível e o corpo anda exausto de tantos dias no mar. Acordei de madrugada com um estranho balanço, como se mudássemos de rumo e a retranca tivesse passado para o outro bordo.  Lembro-me de me levantar para ver o que se passava. Ao chegar ao convés, fiquei inundada com a cor de vinho tinto do mar dos clássicos gregos e ondas de música pop-rock a planar sobre as águas tranquilas como lençóis amarelos numa brisa gentil. Não estou a ser metafórica. Eu conseguia sentir o cheiro a vinho tinto do mar à nossa volta e...

19. Pedagogias

O encontro com o trimarã quebrou o nosso isolamento e apagou a sensação de estarmos sozinhos no mundo. Contudo, teve também o peculiar efeito de acender um desejo de estar em terra e de ver pessoas à volta, coisas a acontecerem em vez do marejar das ondas. «Ainda vai demorar um pouco mais até chegarmos a terra, mas vão poder ver caras diferentes amanhã.», revelou o capitão. Mais encontros no alto-mar? Aparentemente, o capitão tinha recebido uma comunicação via rádio a indicar que o capitão Nemo, um daqueles capitães que conheci nos Açores, estava à nossa espera com o seu submarino. Os nossos três tripulantes ficaram radiantes com a perspetiva de um encontro com um submarino no alto mar, mas eu fiquei em pânico imediato. «O capitão Nemo tem um submarino? Como o verdadeiro capitão Nemo?», pensei.  Não podia ser, era uma piada. Quando olhei para o capitão, vi que ele estava a medir a minha expressão e piscou-me o olho. «Claro, uma piada! Vamos encontrar-nos com um barco normal.»,...

18. A tradição não era o que é

Desde aquela estranha calmaria há uns dias, temos estado a navegar a um bom ritmo. Quando o vento voltou, voltou com intensidade. «Fomos à procura do sítio onde ele estava.» disse o capitão. E depois explicou-me tudo com a paciência irónica de quem sabe estar a falar com alguém que provavelmente não percebe metade do que está a ser dito: descemos um pouco para sul para fugir a uma alta pressão e evitar qualquer icebergue teimoso que tivesse decidido tornar-se mais setentrional; agora avançávamos para oeste e, mais tarde, subiríamos para noroeste rumo à Nova Escócia. «O caminho a direito raramente é o mais rápido», disse ele. «Especialmente quando o vento parece ter vontade própria.» Estávamos a andar bem, vento da alheta. Novo momento para mais uma Ted Talk de navegação: navegar com vento pela alheta é a mareação mais rápida e, provavelmente, em algum momento, alguém começou a usar sistematicamente a expressar “pôr-se na alheta” para indicar também “ir-se embora com eficiência”. Foi...

17. Marinheiro cósmico

Estamos bem longe do triângulo das Bermudas, mas tivemos um estranho encontro em alto-mar. Talvez esta zona do Atlântico Norte seja a porta das traseiras do triângulo. Tentei memorizar as coordenadas – 41.70 e qualquer coisa norte e 41.40 qualquer coisa oeste – quando o capitão as anotou no diário de bordo. Hás de ver o que há por estes sítios… Não sei ao certo quando aconteceu. Na verdade, ninguém deu por nada. Estávamos cada um nos seus pensamentos, talvez aborrecidos com a monotonia do mar aberto, e de repente demos conta de que o vento, que até então nos tinha acompanhado com a constância, desapareceu sem aviso. Mais do que isso, as ondas perderam a sua cadência e achataram-se numa superfície estranhamente imóvel. Até os sons pareciam diferentes. O ruídos das diferentes partes do barco e o bater da água contra o casco destacavam-se num silêncio anormal, demasiado nítidos acompanhados de um agressivo eco, como se o horizonte à volta fosse, na verdade, uma parede virtual que nos...

16. Nomes possessivos

A infeliz combinação de quantidades excessivas de grogue e o movimento de um veleiro revelou-se, afinal, uma excelente ferramenta pedagógica. Os nossos três filósofos abordam agora a garrafa com bastante mais prudência do que nos primeiros dias da viagem. Esta moderação recém-adquirida, contudo, não diminuiu em nada o entusiasmo pelas discussões. Pelo contrário. Os debates tornaram-se mais longos, mais articulados e, em certos momentos, ainda mais barulhentos. O capitão Jackdaw faz questão de incentivar esta tendência sempre que o estado do mar permite alguma descontração. Quando o silêncio ameaça instalar-se no cockpit, tem o hábito inquietante de lançar uma pergunta, uma observação ou uma história cuidadosamente escolhida para provocar desacordo. Depois recosta-se, observa os estragos e aprecia o espetáculo com a satisfação de quem descobriu uma forma particularmente económica de entretenimento em pleno Atlântico. «No ano passado, ao passar por Antuérpia no caminho de regresso a...

15. O Estado natural

Desta vez, a preparação da partida foi feita num ritmo tranquilo, sem a pressão da maré ou das horas de chegada a cumprir. Isso não significou, porém, que o Capitão ficasse a roncar até tarde. Levantou-se com o nascer do sol e começou a ultimar os preparativos para a viagem, que já tinham sido iniciados uns dias antes. Não era para menos: uma travessia do Atlântico Norte, possivelmente durante 15 dias ou mais, com 5 pessoas a bordo, tinha de ter tudo planeado ao mais ínfimo detalhe. Quando cheguei ao cais, boa parte do trabalho já tinha sido adiantado e ajudei só na conclusão das últimas tarefas. Depois, fomos aos Metralhas para o último almoço em terra das próximas semanas, e rever a lista dos preparativos, da palamenta e dos mantimentos. Passámos pelos nossos aposentos para um derradeiro duche sem balanços, uma troca de roupa e a recolha dos restantes artigos pessoais. Na caminhada de regresso ao cais, não resisti a inquirir sobre o perfil dos conselheiros políticos que teríamos de...

14. Corvo madrugador

Uma noite a deambular por esta ilha e sente-se o seu isolamento. Não se escuta o som de ninguém a regressar de lado nenhum ou a escapulir para um outro sítio, nenhum ressoar mecânico noturno a espalhar-se rente ao chão, nenhum eco distante de veículos em movimento. Apenas o bater inalterável, incessante e impiedoso das ondas num cerco apertado. Ainda estou no processo de ambientação à banda sonora marinha e, talvez por isso, não conseguia dormir. O som do mar que conhecia era aquele murmurar pueril da ondulação feito pelas aplicações de smartphones para relaxar, mas a noite passada o meu quarto estava inundado pelo ressonar vibrante de um velho e gordo oceano. Saí para reduzir a tensão, distrair a mente e ver a paisagem noturna, a pensar que, se calhar, até me cruzava com alguém ou encontrava um estaminé aberto. Estava tudo fechado, mas perto do aeródromo, junto ao muro do cemitério, fui surpreendida pelo som de vozes numa conversa abafada. Ansiosa por perceber quem conversava em...

13. Sic.. et Non

«Os corações dos homens e das mulheres são movidos mais por exemplos do que por meras palavras e encontram consolo no testemunho do sofrimento daqueles que, quando comparadas as misérias de uns e outros, merecem mais a nossa compaixão. É por isso que conto sempre o trilho que me trouxe até aqui, para que quem me procura descubra a leveza das suas penas face às minhas tribulações e, dessa forma, possa enfrentar os seus obstáculos com maior facilidade». Parece tirado de um épico bíblico em tecnicolor, não parece? Foi com este sermão que o ermita do Corvo nos recebeu, depois de umas breves saudações protocolares, mãos apertadas com a solenidade dos que não têm pressa e nomes trocados com aquele ar de quem não vai decorar nenhum. Chamam-lhe Abelardo. E tal como tinha anunciado, começou, sem que ninguém pedisse, a contar a história da sua queda, provavelmente relatada tantas vezes que se tornou prólogo para quem se junta ao retiro. «Não sou de cá. Nem do campo, nem do mar. Sou um filho da...

12. Bisca sem trunfos

Não sei que espécie de feitiço sofri ou se alguém a bordo me deitou algo na comida, o certo é que dormi profundamente logo a seguir à última garfada do jantar. Acordei quando já estávamos a fazer a aproximação à ilha, a pouco mais de três milhas de distância. E foi um despertar depressivo…  Mal tinha acabado de despregar as ramelas dos olhos com a ponta dos dedos, vi logo que tínhamos chegado a um enorme calhau batido pelas vagas do Atlântico no meio de nenhures… Ainda estava a despregar as ramelas dos olhos com as pontas dos dedos quando vi o sítio onde íamos acostar. Qualquer resquício de sono liquefez-se pernas abaixo ao nos aproximarmos do Porto da Casa, nome dado ao ancoradouro da ilha do Corvo, encaixado no recanto mais doméstico da ilha, aos pés da vila, mas insuficientemente resguardado para proteger uma atracagem. Aos nos aproximarmos, parecia que as vagas ignoravam o comprimento reduzido da muralha e tomavam conta de toda a costa. Imagino que em dias de maior vendaval, com...

11. O lado de fora das coisas

Esta foi uma semana de nervos para o Capitão Jackdaw. Notei-lhe o desconforto no andar e no olhar, ansioso por largar amarras, mas com o vento a fazer troça dos seus planos. Uma calmaria persistente manteve-nos em terra firme, quando o que ele mais queria era rumar ao Corvo. Pelo que fui percebendo, houve uma alteração no plano de viagem. Começo a suspeitar de que há outro mapa, invisível para mim, a traçar a rota do Nómada. Estava previsto seguirmos para as Caraíbas depois dos Açores, e agora vamos para a Nova Escócia. Eu sei... da frigideira para o frigorífico. O mais estranho é que essa mudança aconteceu depois do encontro no Farol dos Capelinhos. Ao longo da semana, ouvi o Capitão em várias chamadas telefónicas discretas. Não consegui apanhar grande coisa, mas anteontem dois dos outros capitães, o Nemo e o Corto Maltese, passaram pela casa e ficaram a conversar na rua, em voz baixa, quase sussurros. O que apanhei foi pouco, mas suficiente para deixar marca. ouvi o Capitão Nemo...

10. O encontro dos capitães

Lembras-te das aventuras dos Cinco? Os Cinco no Lago Negro e os Cinco e o Comboio Fantasma eram as minhas histórias favoritas por serem as mais noturnas. Pois, não vais acreditar, mas esta noite vivi uma aventura do mesmo tipo, daquelas em que alguém diz «Se aparecer alguém, faz um sinal com as luzes». Como te tinha dito, fomos para o encontro de capitães no Peter Café Sport. Trata-se de um lugar mítico para a comunidade mundial de velejadores. Começou por ser uma loja, mas depois mudou de instalações para junto do porto e um dos filhos do proprietário decidiu ampliar o espaço e criar um bar vocacionado para os homens do mar. O nome Peter era uma espécie de alcunha do filho do proprietário que explorava o bar; era assim chamado por um oficial da marinha inglesa que o achava parecido com o seu filho Peter e o nome ficou. «Aproveito para levantar o correio que tenho aqui à minha espera», disse o capitão. «O bar é um posto de correios também?» «Antes dos e-mails e das mensagens...

9. Viagens do horror

Acredito que ninguém no meu lugar deixaria de pensar sobre as misteriosas companhias do Capitão Jackdaw. Primeiro o misantropo faroleiro e o extravagante capitão Ed, depois o nosso companheiro de viagem até à Horta, o aventuroso jornalista das “Voyages Extraordinaires”, e agora um futuro passageiro, o excêntrico Mr. Peux, o sócio de Verlin na agência de viagens “Grotesco e Arabesco”. «Provavelmente, iremos encontrá-lo em Boston. Deverei ter a confirmação antes de atravessarmos o Atlântico», adiantou o Capitão, enquanto dobrávamos a ponta da ilha em direcção ao porto. «A companhia de Monsieur Peux vão adorar», garantiu Verlin, com um daqueles sorrisos oblíquos que nunca se sabe se anunciam uma revelação ou uma mentira estética. A agência de viagens dos dois parceiros está especializada em fornecer serviços àqueles que, sendo podres de ricos e estando enclausurados numa existência de tédio, procuram novas e cardíacas sensações para animar o corpo e o espírito. Pelo que Verlin explicou,...

8. Falar mareado

Uma semana de descanso em Santa Maria foi suficiente para recuperar as energias após a aventura transatlântica entre Sagres e Vila do Porto. De tal modo que a jornada até ao Faial parece um autêntico passeio de fim de semana, com vento calmo de cinco nós ao largo. As condições são as ideais para todos a bordo relaxarem e conversarem. Quando digo todos a bordo, refiro-me a mim própria, ao capitão e a mais um tripulante; mas é uma personagem que vale por muitas e cuja forma peculiar de organizar o discurso dá o mesmo trabalho que tentar entender duas ou três pessoas ao mesmo. O seu nome é Jules Verlin, “intrépido explorador e jornalista da revista Voyages Extraordinaires”. Só que para explorador, enjoa muito facilmente no mar e quanto aos seus dotes como jornalista espero que os seus artigos tenham uma ordem discursiva com uma coesão diferente e uma coerência mais fácil de apreender. É que não conseguiu produzir um único enunciado na ordem normal de constituintes frásicos. «San...

7. No farol do barbalhudo

Passámos o fim de semana a recuperar da ressaca do mar. No dia seguinte à chegada ainda estava com o corpo moído, mas saímos para esticar as pernas e visitar a vila. É uma localidade aninhada em comprimento ao longo de um estreito vale com três ou quatro ruas dispostas da zona habitacional cumeeira até ao pequeno porto acoitado numa apertada enseada sob a vigilância de um antigo forte. Se largasses um berlinde à porta da primeira casa do morro, iria descer direitinho para o mar sem se desviar mais do que uma dezena de metros. Do lado poente do porto sai uma estrada que liga ao aeroporto, alinhado com a costa oeste da ilha de Santa Maria. Para leste ficam meia dúzia de lugarejos, vinte ou trinta casas em cada um deles, e o farol de Gonçalo Velho, onde tínhamos encontro marcado para um jantar em casa do faroleiro, um antigo amigo do capitão Jackdaw. O farol fica isolado no topo do extremo da ponta sudeste da ilha, acessível apenas por uma estreita estrada com escadas ao centro. É um...

6. Abduções e conspirações

Prepara-te para mais uma voltinha no carrossel da fantasia… A chegada a Santa Maria não teve nada de convencional. Se estás a ler as mensagens pela ordem correta, sabes que o capitão decidiu que eu ficaria ao leme durante a aproximação ao porto. Era madrugada ainda, o céu limpo a perder rapidamente o tom azul-escuro, com as primeiras luzes do dia a tentarem passar por cima das escarpas, vindas do lado leste da ilha. O mar, depois da longa travessia, parecia estar resignado, deixado sozinho sem uma única brisa como companhia. Aproámos ao vento, recolhemos as velas sem pressas e seguimos a motor; eu ao leme guiada pelas instruções do capitão com a concentração de uma estudante aplicada no seu primeiro exame de navegação noturna. «Mais para bombordo… assim… isso, mantenha o rumo», dizia ele, com a voz seca e calma, enquanto eu sentia o casco deslizar. Imaginava o Nómada como um animal cansado a regressar a um refúgio. Quando nos aproximámos da entrada do porto, ele passou-me a mão pelo...

5. Heróis e heroínas

«A navegação marítima tem tanto de científica como de adivinhação». Este foi o meu desabafo ao avistarmos as luzes de Vila do Porto e, de imediato, fui repreendida. «Tudo o que fizemos no nosso percurso poderia ser previsto se tivéssemos todos os elementos necessários para o cálculo», argumentou o Carlos Sage. Já não posso ouvir tanta objetividade científica! Eu sei, é injusto porque ele até é um tipo impecável. Acho que este azedume é porque estou cansada e se estou a escrever a esta hora, ainda no mar, é porque sei que vou dormir muitas horas e não vou ter vontade de me sentar em frente de um computador tão cedo. Vou apenas ligar-me à internet e enviar-te as mensagens escritas a bordo nesta última semana. São quatro da manhã e finalmente estamos a chegar a Santa Maria. Passámos os dois últimos dias, mais de 120 milhas, a bolinar e a bolinar, com o vento a rondar e a trocar-nos as voltas. A temperatura não esteve desagradável, mas passámos boa parte do tempo sem sol e sem lua. Um...

4. Um kit para detetar balelas

Com tanta água à volta, parece estranho dizer que a viagem tem sido uma seca nos dois últimos dias. O problema é a falta de vento... Para tentar escapar à depressão, a mesma que, aparentemente, causou pequenos tornados aí em terra, o capitão fez rumo ao Bancos de Gorringe, a 120 milhas de Sagres. Até aí fomos a voar. Depois, apontámos à Madeira e chegámos a pensar que iríamos até parar lá um dia, mas fomos apanhados pela calmaria dos restos do reboliço deixado pela depressão… Dois dias de mar completamente liso, a imaginar a Madeira mesmo ali ao lado. «Não estamos mesmo ao pé da Madeira. Estamos a mais de 200 milhas, isso é mais do que a distância entre Lisboa e Porto.», clarificou o capitão, como se isso pudesse fazer-nos fizesse mais felizes. Felizmente, o vento voltou. Só que agora estamos a ir mais para norte para evitar outra baixa pressão que vai passar ao largo dos Açores em direção à Madeira e, nesta manobra, estamos a tentar escapar a outra calmaria! Enfim, isto é para dizer...

3. A jornada da heroína

Sinto que agora a aventura verdadeiramente começa. Como no folhear das primeiras páginas de um romance, em que a mente analítica sustenta a leitura de cada frase a medir o potencial de interesse dos parágrafos e parágrafos que vêm a seguir, assim passei estes primeiros dias a tentar avaliar o sentido deste peculiar projeto. É um cálculo emotivo, se tal coisa existe, que procura estabelecer uma empatia com algo que não é mais do que expetativas baseadas em sensações construídas sobre alicerces de justificações amalgamadas. Não é para menos, pensando nos riscos inerentes a uma viagem com esta dimensão, mas a minha resistência a lançar-me neste desafio provinha do receio de um eventual divórcio após uma frustrante descoberta do esmorecimento da novidade dos espaços e dos elementos que os habitam, transformados numa rotina de gestos e palavras em dias sucessivamente indistintos. Como te disse, sinto que agora a aventura verdadeiramente começa porque abandonei os estorvos que limitavam o...

2. No bar do Ricky

Estamos na primeira semana após a partida e o plano da viagem já está em risco de ser alterado. Tudo correu bem até chegarmos ao porto da Baleeira, junto ao cabo de Sagres, a meio da manhã. Foram 93 milhas tranquilas que até deram para dormir profundamente. Quando o Nómada se aproximou do porto, aproámos ao vento e baixámos as velas. Ligámos o motor e pusemo-nos a rumar lentamente em direção aos pontões, o capitão ao leme e eu a preparar as defensas e os cabos de amarração. Nisto, o motor engasgou-se e morreu. Tentámos pô-lo a trabalhar uma, duas, três vezes e nada. O vento, que ali sopra com obstinação, começou a empurrar-nos na direcção dos ilhotes do Martinhal. O capitão praguejou baixo e, com um movimento resoluto que não deixava perceber se era animado por raiva ou cálculo, correu para a proa para lançar o ferro na esperança de nos mantermos afastados das pedras. De súbito, surgiu uma moto de água a grande velocidade, vinda detrás dos ilhotes, como se alguém estivesse a filmar...

1. Reviravolta ao mundo

Há uma calma hesitante quando a noite desce sobre o mar. Sinto-a como o resquício de uma memória da infância quando as luzes do quarto eram apagadas pelos meus pais e eu ficava no escuro atenta às ténues sombras formadas pela luminosidade a marejar pelas frinchas da porta. O coração começava a bater mais acelerado com os sentidos aguçados a tentarem detetar ruídos e flutuações na penumbra, mas depois acalmava, segura de que a altura da cama e a espessura dos cobertores eram uma proteção suficiente para qualquer ameaça a vaguear no quarto. O mar noturno é um quarto escuro cuja assustadora imensidão revela o isolamento do indivíduo. Não te quero assustar com estas palavras, apenas expressar como é intenso estar sozinha ao leme do barco rodeada pelo vazio de referentes visuais. O constante movimento das ondas torna impossível situar-me no espaço e, apesar de estar rodeada de matéria, nunca senti deste modo a possibilidade do nada. O capitão entregou-me o primeiro turno de vigia até às...

Prólogo 5.c Perpendicularidades

«Ao contrário do que é comum pensar-se, as narrativas não são lineares. Assemelham-se mais a sequências geométricas com variadas configurações justapostas verticalmente. Explicando com maior detalhe, cada configuração geométrica corresponde a uma dada configuração da narrativa pessoal de um indivíduo, que se justapõe a outra configuração e a outra configuração, cada uma delas assentes em sucessivos planos narrativos que podem ocorrer, em potência, em qualquer ponto de sucessivas paralelidades, com uma alternância parecida à das luzes estroboscópicas. As paralelidades onde os planos narrativos se podem realizar estendem-se infinitamente, paralelas umas às outras, e correspondem, de certo modo, ao conceito de espaço, enquanto as luzes estroboscópicas marcam cadências que, se quiseres, traduzem o nosso conceito de tempo. Tem em mente que há uma ligeira diferença entre cadências e sequências. Na cadência, tens liberdade para ler narrativas verticalmente para cima e para baixo. É tão...

Prólogo 5.b Um diálogo peripatético (extra)

Deixou o dinheiro preso sob o prato vazio das bifanas, ajeitou o chapéu gasto na cabeça e, com um pequeno suspiro de velhos ossos, pegou na bengala e saímos da Adega dos Frades a sacudir algumas persistentes migalhas do peito. Segui-o rumo ao Terreiro de Santo António, naquele seu passo arrastado que eu conhecia desde sempre, até pararmos defronte da capela com o nome do mesmo santo. Era uma construção singela, de pedra clara, o frontispício marcado pela erosão dos anos, a porta de madeira escura, maciça. Apontou com o queixo para o templo. «A definição da identidade nas teologias dominantes parece ter passado sempre por uma persistente negação do “Eu”, do self, como quiseres chamar-lhe. Os cristãos, com as suas almas imortais criadas à imagem de um Deus, vivem a angústia do “Eu” que só depois de purificado é que será acolhido no seio divino. É uma folha manchada que se quer tornar branca outra vez. Para os muçulmanos, o self é plural e ambíguo. Há nafs inferior, que se perde nas...

Prólogo 5. Uma conversa peripatética

Cheguei agora a casa depois do encontro com o Silva. Ele estava à minha espera na Adega dos Frades, sentado na sua mesa habitual, junto à parede de azulejos gastos, com a bengala encostada ao tampo da mesa de madeira. Não te acontece sentires que estás a regressar a um sonho quando vais a certos sítios familiares? As memórias acumuladas confundem-se umas com as outras, frases e gestos sobrepostos não se distinguem bem e parecem pertencer a momentos diferentes e ficamos sem saber se o que pensamos ter acontecido é uma única memória ou uma combinação de várias. Foi esse estranhamento que senti quando me encontrei com o Silva, parecia estar a reviver um conjunto de memórias misturadas com algo novo, uma anacronia no presente, e não consegui ainda situar o quê. Suponho que tenha a ver com tudo o que tinha sucedido antes. Talvez tenha sido por nos termos encontrado na Adega. O facto de ser no andar térreo do edifício da pensão é motivo suficiente para me perturbar; além disso, mantém-se...

Prólogo 4. Regresso do passado

Tenho mais novidades, mas vou acabar a história antes que me escape qualquer detalhe. Já percebeste: foi uma noite que não pertence a este mundo. E o mais estranho ainda não tinha acontecido. Estava a tentar perceber como tinha ido parar ao meio da Rua dos Mareantes, afastada da entrada do “La Bohème”, quando ouvi uma voz atrás de mim, familiar, mas distorcida como numa gravação antiga. «Olha quem está aqui, estás boa?» Virei-me e dei de caras com um estranho quadro: a minha velha guarda, os meus amigos de infância, que já não via todos juntos há imenso tempo, desde a adolescência, talvez. O Manel dos Frades, com olheiras na pele fina do rosto, cavadas por longas horas de trabalho e muitas de borga também; o Mac, sempre perfumado para tentar mascarar da sua memória o cheiro gorduroso da fast-food; o Barão, magro e pálido na sua elegância de aristocrata falido; e o Mr. T “himself”, chegado de Cebolas de Cima, a exibir a caveira desbotada na t-shirt da última tourné da sua banda de...

Prólogo 3. Mareantes submergidos

Desculpa a nova interrupção, era o administrador do condomínio, veio deixar-me o regulamento do prédio, um texto denso e repleto de pequenos preceitos. Só mesmo o típico apreço das formalidades exibido pelos titulares de cargos menores explica a sua insistência em me entregar um exemplar em papel pessoalmente, acompanhado de longas platitudes. Estou a considerar deixar a cidade e precisarei de um inquilino responsável que tome conta do apartamento por uma longa temporada. Tudo isto parece muito súbito, talvez até maníaco, mas as razões para o meu desassossego estão ligadas à história que me esforço por narrar-te com fidelidade. Como deves suspeitar, acabei por ir com o casal francês à “La Bohème”. Não te sei explicar porquê. Por um lado, queria fugir dali antes que a Ms. Lortz ou alguém da biblioteca me detetasse. Por outro lado, senti aquela espécie de fascinação que os espíritos livres exercem sobre as almas cansadas da rotina. Ou ainda, a esperança de ver um concerto de jazz ao...

Prólogo 2. Contingências na esplanada

Desculpa a interrupção, era uma chamada da minha chefe. Diz que quer falar comigo pessoalmente, provavelmente para me despedir. É que ontem, depois de ela me mandar a mensagem, acabei mesmo por não lhe enviar o trabalho. Eu explico, deixa-me tentar retomar o fio à meada. Depois de me passar a multa, o fiscal foi-se embora e eu fiquei ali, especada defronte da biblioteca, com a multa na mão e a pensar no que se tinha passado. Aquela história dos pedidos de desculpa estava a incomodar-me, uma espécie de comichãozinha na cabeça. Que trio de personagens intolerantes eram aqueles para ficarem tão enxofrados? E quem era Ms. Lortz, a nova bibliotecária? «Será possível uma personagem ser transposta do papel e tornada carne e osso… e sabe-se lá que mais?», perguntei-me. Foi nessa altura que me apercebi, em puro terror, que tinha trazido ao ombro, na minha sacola de linho, os livros que tinha tirado das prateleiras para levar para casa como empréstimo. Se aqueles que danificam um livro sofrem...

Prólogo 1. O início já vai a meio

  Já te aconteceu quereres contar algo que te sucedeu e teres de voltar muito atrás para lhe conseguires dar sentido? É por isso que te peço paciência ao leres o meu e-mail, este longo testamento. As últimas 24 horas foram tão surreais que ainda me questiono se tudo não passou de um sonho. Lembras-te das aulas do Professor Ribeiro, daquelas em que ele nos servia mitologia às 8 da matina como se fossem torradas quentes? A história de Teseu, do Minotauro e do novelo que salvou a pele ao herói? Na altura rimo-nos quando o Calhotas comentou que tinha sido demasiado ingénuo ninguém levar um GPS – mais uma daquelas bocas anacrónicas com que ele escangalhava as aulas. Depois, o Professor Ribeiro explicou que seguir o novelo era, ao mesmo tempo, seguir a memória do trilho e o fio da narrativa que dá sentido à aventura do herói. Não sei porquê, mas isto ficou-me colado à memória, talvez porque explicava uma coisa tão simples que passa despercebida: contamos histórias para não nos...

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