Jun 19, 2026

22. Sextantes e Singularidades

Ao cair da noite, o Vachia Meli recolheu ao seu camarote, provavelmente ainda toldado pelo corretivo que lhe tinha dado no meio dos… arcos superciliares. Eu e o Capitão Jackdaw ficámos no convés, a exercitar a leitura da  nossa posição com o sextante. Eu sabia que ele sabia que eu estava a morrer por me lançar sobre o assunto que tinha ficado pendurado, como te contei, mas não queria pressionar a conversa.

Foi então que o capitão disse como quem comenta a posição de uma estrela no firmamento que estávamos a observar.

«O Vacchia Meli está a bordo porque isto já não é sobre pessoas, é sobre narrativas em trânsito.»

O meu olhar deve ter tornado claro que não tinha apanhado a parte silenciosa do seu pensamento.

«Estás a sentir, não estás?», disse.

Surpreendi-me mais com o tom pessoal dado pela informalidade dos verbos do que pela questão em si.

«O mundo começou a entortar-se há umas décadas. Ou, se quiseres, a ficar torcido muito subtilmente como uma fita magnética mal rebobinada. E agora as histórias estão a cruzar-se e as personagens a saltar de uma narrativa para outra. Há planos narrativos a colidir.»

«Como as narrativas dos outros com quem nos cruzámos?»

«Nem todos, mas sim. O Abelardo. O Johnny Lucky, o Jay Jay Russo, o Bad Tom… Cada um deles, uma configuração narrativa que se desprendeu da sua paralelidade de origem e veio parar à tua.»

«À minha?», repeti, sentindo aquele leve torpor que precede o pânico existencial.

«Ou melhor, à nossa, de todos nós», corrigiu. «Vieram parar a esta paralelidade onde estamos a navegar talvez porque é aquela que está em modo de transição. Como se estivéssemos a atravessar uma zona de sobreposição, um entroncamento onde as narrativas se dobram umas sobre as outras Se calhar, este é o ponto antes do ponto sem retorno, onde ainda é possível mudar o mundo»

«É essa razão para isto acontecer agora?», perguntei. «É por isso que estas narrativas começaram a deslocar-se?»

O capitão inspirou fundo e olhou-me com um ar confuso que contrastava com a sua habitual assertividade.

«Não sabemos. Talvez seja porque o eixo da narrativa coletiva cedeu.», respondeu, a olhar o horizonte e depois o céu. «Se me perguntas o que penso, acho que as novas tecnologias criaram um caos narrativo que, de algum modo, sobrecarregou o conjunto dos diferentes planos narrativos. O nosso mundo já não sabe que história quer contar. Já não há enredo hegemónico, não há género dominante. É tudo fragmento e remix, versão e paródia. As pessoas vivem como se fossem personagens de séries distintas, com formatos incompatíveis. Uns falam como se estivessem num reality show, outros comportam-se como num romance russo. O sistema está sobrecarregado.»

Sentou-se à popa, a arrumar o sextante e eu imitei-o, de pernas arqueadas a empurrar as costas contra o bordo do convés.

«O Abelardo, por exemplo, já não é só um pensador medieval. Agora é também o ex-famoso Bel, perdido num eremitério no Corvo. E os outros três, não sei se os reconheceste?»

Fiz sinal de que não.

«John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes. Três gigantes do pensamento filosófico que deslizaram para o mundo da política dos nossos dias.»

De repente, a luz que se fez iluminou algo que já estava a ver. Claro!

«O ponto fulcral é como é que estes cruzamentos podem afetar o mundo. O impacto que indivíduos como o Vacchia Meli , ou como quiseres chamar-lhe, podem ter no mundo.»

«E o que é que lhe fizeram no cargueiro? Ou é um submarino? »

O capitão suspirou.

«É um submarino.», admitiu em voz baixa. «Estamos a tentar suavizar a travessia destas figuras. Chamemos-lhe “realinhamento narrativo”.»

«E os outros capitães também são?…»

O capitão assentiu.

«Somos vários a fazê-lo. Há outros capitães em rota. Cada um com o seu papel.»

«O clube dos capitães. O Peter Café Sport. O encontro secreto…», murmurei.

Ele assentiu outra vez.

«Sim. No início, foi uma brincadeira de marinheiros quando nos demos conta dos cruzamentos nas linhas de enredo. Depois, começámos a ver as suas consequências e a perceber que algo maior do que nós estava a acontecer no mundo.»

Fixou o olhar em mim com gravidade.

«O nosso planeta está a gemer. A ganância humana é uma ameaça real à sua sustentabilidade. Estes cruzamentos de planos narrativos podem ser uma oportunidade única para tentar repor algum equilíbrio, mas podem ser catastróficos se deixarmos certas personagens tomarem as rédeas da narrativa global.»

«É isso que vocês estão a preparar? Uma revolução global?»

O capitão fez um sorriso trocista.

«Revolução global é um termo excessivo. Mas estamos a tentar unir pontos e a criar uma rede cada vez mais vasta. O Corto Maltese, o Nemo, o Kirk… cada um deles é guardião de uma passagem, vigiando zonas de cruzamento intertextual. Procuramos evitar colisões narrativas e assegurar que as configurações errantes se integrem ou se dissolvam pacificamente.»

Arrepiei-me com a ideia de uma narrativa a dissolver-se, mesmo que pacificamente. Nem quis perguntar o que é que ele queria dizer com isso.

Ficámos em silêncio por uns instantes, o som de fundo do mar a encher o vazio.

«E eu? Onde é que eu me encaixo nisso tudo?», perguntei, como se me tivesse lembrado subitamente da minha presença a bordo do Nómada.

«Aparentemente, poderás ser um dos epicentros da singularidade. Pelo menos, os cruzamentos são bastante frequentes à tua volta. Há muitos que, tal como tu, estão a tentar reconfigurar-se, e ao fazê-lo, puxam fios narrativos de outras paralelidades.»

«Então a minha crise de identidade… é uma espécie de imã interdimensional?»

«É mais uma torção narrativa. Uma “perpendicularidade” em pulsão que atrai configurações errantes. Sabes quando dás uma dentada num mil folhas e o creme escapa pelas laterais? O mesmo acontece com as outras narrativas quando a camada da tua paralelidade se desloca. Os outros recheios vêm ter contigo.»

Reconheci a metáfora usada pelo Silva.

«E se eu quisesse parar? Voltar ao “normal”?»

Ele sorriu com compaixão.

«Já não há um “normal”. Só há movimento. Ou melhor, só há narrativa. Podes tentar resistir, mas isso apenas criará mais tensão nos planos. O melhor que podes fazer é continuar a contar. A deixar que a tua voz encontre a coerência possível, entre as figuras que chegam, os traços que sobram, os enigmas por resolver.»

Fiquei calada a pensar na minha condição. Era uma prisioneira livre de percorrer o mundo paradoxalmente a tentar fechar-se numa rotina perdida.

«E qual é o papel dos capitães?»

O capitão ponderou por uns instantes.

«Somos condutores.», disse. «De personagens, de passagens, de significados… Às vezes, ajudamos uma narrativa a morrer com dignidade. Outras vezes, acolhemos uma nova.» O capitão deu conta do meu desconforto, mas prosseguiu no mesmo tom calmo de quem mostra o significado de uma desventura a uma criança. «Estamos sempre atentos à coerência e à coesão do bolo de mil folhas. E quando algum creme começa a escorrer com violência, fazemos o possível para evitar uma explosão catafórica.»

«Como terapeutas?»

«Como guardiões da ficção.»

O capitão soergueu-se para folgar a vela grande e voltou a sentar-se à popa. Apontou para o horizonte invisível com o queixo.

«Vai haver mais cruzamentos. Há muitos nomes a caminho. Alguns conhecidos, outros que nem imaginaste ainda. Há quem diga que uma velha figura bíblica anda a refazer o caminho de barco e que uma certa mulher da antiguidade tem aparecido em relatos de sonhos de várias crianças. Fala-se de uma fenda narrativa que se materializou no fundo do oceano; isso é algo que o Nemo procura nas suas viagens, que todos nós procuramos, na verdade. Mas tu… mantém os olhos e a mente abertos. E não te esqueças: conta tudo. Tudo o que puderes, enquanto conseguires.»

Olhei para a água. Por momentos, pareceu-me ver sombras a deslizar por baixo do casco. Abri o caderno e tomei notas da nossa conversa. Para juntar à narrativa.

 

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Ramble On é uma canção sobre a viagem, o desejo e a necessidade de continuar caminho apesar da perda. Com referências à aventura de Frodo e Sam em O Senhor dos Anéis, o narrador segue em frente não porque tenha encontrado respostas, mas porque permanecer parado deixou de ser uma possibilidade.

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Ao longo das torres

Escrita originalmente por Bob Dylan em 1967, a versão de Jimi Hendrix de All Along the Watchtower é aquela que toda a gente tem na memória e no ouvido.

O homem que vendeu o mundo

The Man Who Sold the World é uma canção construída em torno de um encontro inquietante entre o narrador e uma figura que parece ser, ao mesmo tempo, um estranho e um reflexo de o próprio David Bowie. A letra explora temas como identidade e alienação.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Jimmy Hendryx By Original photographer unknown – e24.se, attributed to Scanpixtrelleborgsallehanda.se, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=175123540

David Bowie Por Mercury Records – aqui, Conteúdo restrito, https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=3325310

Led Zeppelin Por Atlantic Records – Cash Box, September 11, 1971; cover pagehttps://www.ledzeppelin.com/photos/led-zeppelin/promo/1971-promo, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=151881780

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