Jun 6, 2026

16. Nomes possessivos

A infeliz combinação de quantidades excessivas de grogue e o movimento de um veleiro revelou-se, afinal, uma excelente ferramenta pedagógica. Os nossos três filósofos abordam agora a garrafa com bastante mais prudência do que nos primeiros dias da viagem. Esta moderação recém-adquirida, contudo, não diminuiu em nada o entusiasmo pelas discussões. Pelo contrário. Os debates tornaram-se mais longos, mais articulados e, em certos momentos, ainda mais barulhentos.

O capitão Jackdaw faz questão de incentivar esta tendência sempre que o estado do mar permite alguma descontração. Quando o silêncio ameaça instalar-se no cockpit, tem o hábito inquietante de lançar uma pergunta, uma observação ou uma história cuidadosamente escolhida para provocar desacordo. Depois recosta-se, observa os estragos e aprecia o espetáculo com a satisfação de quem descobriu uma forma particularmente económica de entretenimento em pleno Atlântico.

«No ano passado, ao passar por Antuérpia no caminho de regresso a Portugal, cruzei-me com um outro português chamado Rafael, que nos entreteve quase toda a noite com o relato de uma ilha onde não há propriedade privada e as sanitas são de ouro!»

«Sanitas de ouro!? Onde é que fica essa ilha?», perguntei com espanto.

«No Atlântico Sul, perto de», Lucky tossiu sonoramente sobre a voz do capitão, «fora das rotas marítimas. Mais extraordinário do que o material das suas casas de banho é toda a organização daquela sociedade. Fiquei a pensar que ou aquela gente passou por um processo social evolutivo diferente do nosso ou a sua forma de governo modificou a natureza humana que antes partilhávamos.»

Podia ver no semblante do capitão Jackdaw que o isco tinha sido lançado, era agora necessário esperar por alguém que o mordesse. Os rostos dos nossos tripulantes deixavam transparecer uma intensa atividade mental, mas foi o “Bad Tom” Hobbins quem rebentou, meio minuto depois, a face a conter um esgar.

«A natureza humana é a mesma em todo o globo, movida pelas mesmas causas e não há governo que possa modificar a sua natureza. Apenas uma forte autoridade a poderá controlar e direcionar no bom sentido.», observou.

«E quem é que decide qual é o bom sentido?», perguntou o Johnny Lucky.

«A autoridade em quem os cidadãos depositam os seus destinos. O ser humano precisa de proteção contra o mundo e, acima de tudo, contra os outros seres humanos. Por isso, o contrato social entre cidadãos e governo, seja um soberano ou um parlamento, visa delegar nas mãos de uma forte autoridade o poder de decisão sobre o bem comum.»

«Concordo que o poder político é uma função que pode ser delegada, mas esse poder deve ser limitado pela lei.», insistiu o Lucky.

«Johnny, uma coisa é boa ou má conforme dá prazer ou dor. O mundo material dos homens é determinado por apetites e aversões, não há cá summum bonum nem ideal de justiça. Cada homem puxa a brasa à sua sardinha e se forem entregues a si mesmos entram em competição uns com os outros. Aquilo a que te referes como lei é outra palavra para referir cisão, autoridade reduzida e partilhada, competição entre apetites. Uma autoridade forte toma essa decisão, mas acima de tudo garante a segurança da comunidade contra ameaças internas e externas. Tudo o resto é secundário.»

«Agora já sei porque é que compraste a Harley. Não controlas os teus apetites e desenvolveste uma pança que não encaixava no depósito da Ducati!», exclamou Russo.

«A sério, Tom, estás a querer convencer-nos de que o motor das tuas decisões e ações são as paixões?», disse Lucky.

«Não preciso de convencer ninguém, só preciso de o demonstrar como quem demonstra um teorema de geometria.»

«Precisamente, Tom. Tal como a geometria, a natureza humana baseia-se na razão, suportada pelo Divino, que nos permite perceber o nosso propósito.», apontou o Lucky.

«Ah, não comeces a catequizar a conversa, Johnny. A materialidade não se manifesta por revelação, quem governa na Terra tem absoluta autoridade e a Igreja não interfere.», contrapôs o Tom.

«Concordo que quem governa não o faz por nomeação divina. Contudo, não pode governar como se estivesse acima de tudo e de todos, tem de ser limitado pelo interesse comum formulado através da lei. A lei limita não só os excessos da governação, como protege os interesses particulares, os quais subjazem ao bem comum. A propriedade privada, por exemplo, cairá em abandono se os seus proprietários não tiverem qualquer garantia de que o seu património não lhes irá ser retirado a qualquer momento. Quem é que quer investir tempo e dinheiro em algo que lhe pode ser confiscado arbitrariamente?»

«Lá vem o materialista depois do realista!», explodiu o Russo, que até aí se mantivera como espetador. «Por que não perguntar sobre a liberdade contra a opressão da propriedade privada?»

«Não comeces a radicalizar.», sibilou Lucky.

«E a liberdade civil de participar nas decisões políticas?», questionou o Russo, agitando o dedo no ar.

«Bah! A liberdade é sobrevalorizada.», atalhou Hobbins. Preparava-se para lançar um escarro no convés, mas o olhar de repreensão do nosso skipper fê-lo engolir a intenção. «Aham!… De que serve a liberdade, se uma pessoa vive insegura? Um Estado forte com poder absoluto é a única solução para viver sem o medo provocado pela insegurança.»

«O medo que é, na realidade, criado por certa comunicação social, em alguns casos com objetivos políticos. A mais simples análise estatística revela que vivemos num mundo mais seguro.», observou o capitão Jackdaw.

«Precisamente, o medo é a base dos argumentos que os estados totalitários e os partidos extremistas usam. O sacrifício de umas quantas liberdades pelo controlo e segurança, não é?», acusei. Senti as minhas bochecas a corarem quando todos se calaram por uns segundos e me encararam com uma certa surpresa. Depois, o Hobbins prosseguiu, como se eu não tivesse dito nada.

«Um Estado que assegura a segurança de cada cidadão e que não atenta contra a sua vida é perfeitamente legítimo porque garante os interesses de cada cidadão, isto é, a sua segurança e uma vida sem medo. Assim que não conseguir cumprir essa função, deixa de ser legítimo. Logo, não há totalitarismo nenhum porque deixa de existir um Estado.», contrapôs.

«Há totalitarismo porque o poder é alienado em terceiros. E como não fazemos parte do poder legislativo, a lei é uma fonte de opressão também.», vociferou o Russo.

 «O bom selvagem mostra o seu lado animal…», suspirou o Lucky.

«Não me irrites, Johnny! Estás a entrar na onda do escocês, é?», explodiu.

Hobbins acendeu outro cigarro. «Com paixão, isso é verdade.», sussurrou.

«A tua propriedade privada, Johnny, é a fonte de desigualdade e promove a competição e o medo de que o Tom estava a falar.», acusou o Russo. «A segurança genuína só pode ser atingida com uma transformação social que crie um espírito de comunidade.»

«Deves tomar alguma coisa para veres a sociedade tão cor-de-rosa.», ironizou o Hobbins.

«Não, Tom, eu vejo a sociedade como a fonte de corrupção dos homens, e das mulheres também.», acrescentou, olhando para mim. «Foram desumanizados pela urbanização, pela tecnologia moderna e por um sistema educativo falhado. Tudo isto contribui para um egoísmo que aliena as pessoas umas das outras.»

«E então, o que é que queres fazer? Proibir a propriedade privada? Forçar uma vontade geral e purgar os dissidentes? Mandar a malta para campos de reeducação?», perguntou o Lucky.

«És um demagogo barato e manipulador. Tens uma maneira especial de selecionar e usar verbos para as ideias dos outros…», retorqui o Russo. «O estado civil transforma as qualidades humanas do estado natural em virtudes sociais e permite que surja uma qualidade moral anteriormente inexistente. Através do contrato social, pode ser implementada uma vontade geral. Os cidadãos transcendem a sua liberdade natural, dominada pelos apetites, e ganham uma liberdade moral ou civil. E em vez da acumulação de riqueza por uma ávida elite, o Estado distribui a propriedade e assegura a igualdade entre todos.»

«E as minhas ideias é que são absolutistas!», exclamou o Hobbins.

«E como é que o Estado faz isso? Junta todos os proprietários e vai de lhes tirar a propriedade a bem ou a mal?», exclamou o Lucky.

«O problema, Johnny, é que estás tão agarrado a essa ideia de “é meu, é meu, é meu” que nem te dás conta de que não se trata de ser meu, teu, dele ou nosso.»

«Por instantes, pensei que ias dizer que a ferramenta não é tua, não é minha, é nossa, é de todos.», gracejou o Lucky.

«E qual é o problema com a ferramenta ser de todos? A única coisa que é preciso fazer é mudar a nossa perspetiva sobre a propriedade privada. A mudança é um processo que implica educar os cidadãos de uma maneira diferente. E, acima de tudo, repensar as nossas comunidades porque cidades como aquelas que temos hoje em dia, em que somos estrangeiros, não são comunidades.»

A rivalidade entre o trio prosseguiu, mas penso que esta troca de ideias entre eles é suficiente para te teres uma noção de como os dias se desenrolam no alto mar. Vale o stock de grogue que o capitão preparou, é o remédio santo para as animosidades, põe os rapazes logo a cantar em uníssono.

Na terra dos penicos de ouro

Utopia, escrita por Thomas More e publicada em 1516, é uma das obras mais influentes do pensamento político e social europeu. A obra surge como uma crítica implícita às desigualdades, à corrupção e às injustiças da Europa do seu tempo, utilizando a ficção como meio para questionar a realidade.

É tudo da comprativa

A experiência política da Torre Bela ocorreu no contexto turbulento que se seguiu à Revolução dos Cravos, um período marcado por intensas transformações sociais e pela ocupação de terras no Alentejo e Ribatejo. Em 1975, foi ocupada por trabalhadores rurais, que a  organizaram sob a forma de uma cooperativa agrícola.

Shandies das estepes mongóis

O outro é a fonte dos nossos medos, o inferno em potência, até permitirmos que deixe de ser um estrangeiro para nós.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

 

Filme Torre Bela: Thomas Harlan / Medeia FIlmes https://medeiafilmes.com/filmes/torre-bela

 

The Hu Wolf Totem: https://www.fathipster.net/sh/recenzije/2020/01/01/hu-gereg-2019

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