Uma semana de descanso em Santa Maria foi suficiente para recuperar as energias após a aventura transatlântica entre Sagres e Vila do Porto. De tal modo que a jornada até ao Faial parece um autêntico passeio de fim de semana, com vento calmo de cinco nós ao largo. As condições são as ideais para todos a bordo relaxarem e conversarem. Quando digo todos a bordo, refiro-me a mim própria, ao capitão e a mais um tripulante; mas é uma personagem que vale por muitas e cuja forma peculiar de organizar o discurso dá o mesmo trabalho que tentar entender duas ou três pessoas ao mesmo.
O seu nome é Jules Verlin, “intrépido explorador e jornalista da revista Voyages Extraordinaires”. Só que para explorador, enjoa muito facilmente no mar e quanto aos seus dotes como jornalista espero que os seus artigos tenham uma ordem discursiva com uma coesão diferente e uma coerência mais fácil de apreender. É que não conseguiu produzir um único enunciado na ordem normal de constituintes frásicos.
«San Michelle, este é o nome do meu barco, com dois mastros um veleiro que olhar demoradamente dá gosto.»
«E é lá que escreve todos os seus artigos?»
«Oui.»
«E não enjoa?» perguntou o capitão com um tom de incredulidade.
«Eh bien, c’est que em terra está o barco. Não o movem as ondas.»
«Não move com as ondas, hum? Está atascado?»
«Bon, é uma palavra dura atascado. Je prefiro com a terra comunhado.»
«Nunca ouvi essa do ‘comunhado’, mas hei de passá-la ao Beirão para a próxima que ele contar como ficou ‘comunhado’ nos baixos do rio Sado»
Sorte a dele ter o barco imóvel. Desde que deixámos a costa de Santa Maria, Verlin vomitou três vezes borda fora. Parece ter muita prática porque ao se soerguer do mergulho na náusea não apresentou um único vestígio do desastre na barba.
«A bordo de um submarino vivi a mais difícil reportagem ao longo de 20 mil léguas num balde a vomitar.»
«A sério? Gostava de ouvir a história dessa reportagem das vinte mil léguas… Foi a bordo de que submarino, afinal?»
«Le Nautilus Deux. Em forma de charuto gigante, pintado de negro, com redondas escotilhas como olhos de peixe. Um engenho magnífico, a energia mista propulsionado, solar e biodiesel de algas.»
«Um nome de respeito. Mas vinte mil léguas? Não é um bocadinho… exagerado?»
«Ah, mon capitaine, não literal é a medida; da vastidão percorrida é um símbolo. Pois descer é mais longo que ir em frente, quando é o fundo do mundo que se busca.»
«E o fundo do mundo, encontraram-no?», perguntou o capitão com uma sobrancelha levantada, sem esconder o ceticismo.
«Encontrar, oui, no Mar das Filipinas uma fissura vimos que para o inferno podia levar. Negros os peixes, transparentes outros, dentes tinham e luz própria também. Um deles falava comigo, creio, nos sonhos que a febre me trouxe.»
«Isso foi antes ou depois de vomitar no balde?»
«Durante, simultâneo foi. Uma coreografia do corpo e da alma. Mas grande a descoberta: um polvo gigantesco vimos, com olhos do tamanho de pratos. Não atacou, mas seguiu-nos. Três dias e três noites, como um cão fiel. Ou um cobrador de impostos.»
Riram-se.
«E documentaram tudo isso, presumo?»
«Filmei, escrevi, desenhei. Mas o disco rígido danificado ficou por uma fuga de radiação. A tinta, dissolvida pela pressão. Os desenhos, um polvo levou num momento de distração. Mas a memória… não se perde essa.»
«Conveniente.», murmurou o capitão, e deu-me um olhar enviesado. «E como terminou a expedição?»
«Terminar? Non, non terminou. Depois, ao mundo fomos dar uma volta em 80 dias. Uma aposta de cavalheiros.»
«E essa viagem à volta do mundo foi mesmo feita em 80 dias? Ou isso também é… simbólico?», perguntou o capitão, puxando o assunto como quem pesca em águas fundas.
«Ah, non, exatos oitenta dias foram. Com três horas de sobra. Começou em Lisboa, num elétrico. Porque começam com um ziguezague metálico todas as grandes jornadas, entre colinas e pássaros.»
«Lisboa? Mas não devia ter sido Londres?»
«Oui, oui, convenções… Mas em Londres chovia. E o bilhete promocional para Ceuta era de Lisboa. Depois disso, dromedário em Marrocos, tuk-tuk na Nigéria e uma avestruz alugada na Namíbia. Veloz, mas teimosa. Só corria para sul»
«Uma avestruz?» Rimo-nos com gosto. «Isso é novo.», disse o capitão.
«Pouco confortável, mas orgulhosa era. Chamava-se Phew Phew Bota. Em Durban, num cargueiro para Goa fomos. Na Índia, um disfarce de vaca comprámos para ninguém nos ver, mas disfarce de vaca suíça malhada era e apanhados fomos para sacrifício humano. Um faquir nos salvou, descalços sobre orações caminhámos sem ninguém ver. Contudo, no Cazaquistão brevemente detidos fomos outra vez por suspeita de espionagem.»
«E como é que se livrou dessa?»
«Com charme e cartas de um baralho. De ilusionista fiz por dois dias num casamento local. A noiva com o motorista fugiu e nós boleia aproveitámos. Toda a China atravessámos como figurantes num filme histórico e em Xangai um catamarã ecológico apanhámos para a Ilha da Páscoa. Com um moai falámos, um tradutor intuitivo de cristais e palha usámos. Uma bênção recebi, ancestral. Um colar também, brilhante ele, sim, brilha sempre que minto.
«Isso não está a brilhar agora, pois não?»
Riram ambos bem alto.
«Em modo repouso está. Depois, Colômbia. À boleia com traficantes de café cruzámos a selva, em burros filosóficos, até à Venezuela. Táxi apanhámos até à costa e barco para Cuba. Para Havana seguimos de táxi outra vez. Curiosamente o mesmo taxista, o mesmo bigode…», disse, como se só naquele momento se tivesse apercebido do detalhe. «E por fim, Bermudas.»
«Bermudas? Uau!…»
«Ah, Bermudas… o final nosso salto. Atravessar o triângulo quisemos, mas… algo, hum, estranho. As bússolas dançavam. Líquido o céu ficou. E no meio da estação Terreiro do Paço em Lisboa surgimos, de pé. Um pequeno moai connosco estava. Sabe-se lá porquê. E a aposta ganhámos! No dia seguinte, no elétrico estava. Reconheceu-me o condutor e disse “o senhor andou desaparecido”. E eu respondi: “Uma volta fui dar.”»
«Ah, mas não foi batido o recorde por uma norte-americana?», perguntei.
«Ah, oui, mais… o primeiro eu fui. E o primeiro também fui nos céus de cinco países na viagem em balão. E nas entranhas do vulcão de Galipoli da sua exploração também fui pioneiro.» E depois suspirou. «Ah, vraiment, mes amis chers, a aventura maior é a do meu americano amigo Arthur Gordon Pym. O que passou ele em duas reportagens contado foi, uma pelo amigo meu Edgar Allan Peux editada e outra na revista minha publicada. C’étais extraordinaire!»
E mais aventuras nos serão contadas, por certo. Pela frente um dia mais temos, como diria o Verlin. O capitão puxou-o à parte, a perguntar-lhe se conhecia uns quantos capitães, ouvi à distância o nome Ateras ou Atarax ou algo parecido a medicamento. Por isso, deixei-os a conversar e vim por a escrita em dia. Felizmente, a viagem é curta e, segundo o capitão, depois de amanhã já estaremos na Horta. Ainda bem, não estou com espírito para grandes travessias, pelo menos não para já.
Jules Verlan
Um aventureiro desejoso de se tornar marinheiro e com um estômago demasiado sensível às ondulações.
Tás a ceberper?
Os marginais e os jovens têm criado socioletos para ocultarem dos restantes falantes aquilo que está a ser comunicado. O Verlan é um dos mais famosos.
Prisencolinensinainciusol
A canção criada por Adriano Celentano para imitar o rock americano e mostrar como é que soa a língua inglesa para quem não a sabe falar tem sido alvo de inúmeras “traduções”
Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:
Imagem do post: by Leo Reynolds https://www.flickr.com/photos/lwr/146786485/
Jules Vernes: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jules_Verne,_1892_(colored_portrait).jpg
Tás a Ceberper: by Surprising Media https://pixabay.com/es/photos/muchachas-joven-los-telefonos-5571759/
Adriano Celentano: https://1win1.it/t381p75-adriano-celentano-discografia-cover-video-testi
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