Apr 1, 2026

Prólogo 1. O início já vai a meio

 

Já te aconteceu quereres contar algo que te sucedeu e teres de voltar muito atrás para lhe conseguires dar sentido? É por isso que te peço paciência ao leres o meu e-mail, este longo testamento. As últimas 24 horas foram tão surreais que ainda me questiono se tudo não passou de um sonho.

Lembras-te das aulas do Professor Ribeiro, daquelas em que ele nos servia mitologia às 8 da matina como se fossem torradas quentes? A história de Teseu, do Minotauro e do novelo que salvou a pele ao herói? Na altura rimo-nos quando o Calhotas comentou que tinha sido demasiado ingénuo ninguém levar um GPS – mais uma daquelas bocas anacrónicas com que ele escangalhava as aulas. Depois, o Professor Ribeiro explicou que seguir o novelo era, ao mesmo tempo, seguir a memória do trilho e o fio da narrativa que dá sentido à aventura do herói. Não sei porquê, mas isto ficou-me colado à memória, talvez porque explicava uma coisa tão simples que passa despercebida: contamos histórias para não nos perdermos.

Deve ser isso que estou a fazer aqui contigo. E tal como as epopeias começavam sempre in media res, como lembrava o Professor Ribeiro, assim também nós vivemos, sem prólogos elegantes, sempre a meio da ação. É assim que me sinto, a tropeçar num enredo ao tentar apanhar o fio à meada; é  como entrar numa sala de cinema a meio, sem saber como começou o filme. E suspeito que, enquanto te conto os acontecimentos, não estou só a alinhar factos; estou também a negociar sentidos com qualquer coisa que está do outro lado do labirinto e que não quer ser apanhada… ou que talvez me queira apanhar. Quando tudo começa já a meio, sem prólogo nem chamada à cena, a melhor estratégia é mesmo segurar o novelo e andar. Ou narrar.

Se há um início, acho que foi ao final da tarde de ontem, entre as estantes da biblioteca de Setúbal, no andar de cima. Estava a escolher uns livros para levar para casa, de cabeça inclinada, quase em torcicolo, a ler os títulos ao longo das prateleiras. Como sempre, juntei uma seleção eclética: romances pesados (alguns literalmente!), narrativas mais filosóficas (os existencialistas) e alguns clássicos.

Com os dedos a percorrerem as lombadas, acabei por identificar o último da minha lista mental: Alice no País das Maravilhas. Lancei a mão para o abrir, já a antecipar o gozo do poema Jabberwocky, mas ao puxá-lo ouvi um som sibilante e fui encandeada por uma súbita claridade. Quando recuperei a visão, estava do outro lado da estante, na secção de literatura alemã, com A História Interminável, de Michael Ende, na mão. E no topo dos livros recolhidos para empréstimo estava o de Lewis Carroll! «Será que tive um lapso de consciência?»

A pergunta ficou a ecoar-me na cabeça por mais tempo do que seria razoável, à procura de uma resposta. Coloquei devagar o livro de volta na estante, quase com receio de provocar outra qualquer deslocação. Desta vez, nada aconteceu. Tudo se manteve sólido, obediente às leis normais da física.

Nesse instante, o telemóvel vibrou e quase deixei cair todos os livros com o sobressalto. Era uma mensagem da minha chefe: um meme com um coelho branco a dizer «Oh dear, I’ll be so late!». Um aviso pretensamente subtil para lhe enviar o texto em falta até ao final do dia. Ainda com parte do cérebro ocupado a pensar no que tinha acontecido, revi à pressa os livros que tinha escolhido e preparei-me para sair quando reparei num título de uma lombada que não estava catalogado com a etiqueta colorida habitual da biblioteca. Era só o título e um pequeno símbolo dourado que parecia ser uma espécie de labirinto.

Die Bibliothek, die dich liest.

Franzi o sobrolho.

«A biblioteca que te lê?», traduzi com surpresa, curiosa, mas depois afastei a mão como quem a afasta de uma labareda mais forte. «Não, estou a entrar em território estanho… e não tenho tempo para explorar.»

Ao dar meia-volta para sair da secção, reparei numa coisa que me fez parar de novo. O corredor parecia mais longo. Aliás, toda a sala aparentava ter sido ligeiramente esticada e o caminho até à secretária da bibliotecária estendia-se um pouco mais do que o habitual.

«Isto é ridículo.», convenci-me a mim própria. «Isto é só cansaço. Ou stress.»

Não podia ficar ali a tentar perceber o que tinha sucedido; tinha de me despachar. Por isso, peguei à pressa no saco de linho com os livros para devolver, que tinha deixado numa das mesas de leitura, e dirigi-me em passo rápido para a secretária da bibliotecária, equilibrando contra o peito os volumes que ia levar para casa. Com os olhos fixos na estabilidade da minha carga, não reparei bem nos passos que dava e um toque subtil no pé de uma cadeira mais afastada de uma mesa de leitura quase me derrubou ao comprido no meio da sala. Em iminente queda livre, pousei os livros no tampo da mesa e suspirei de alívio. Nas bibliotecas, a maior parte das pessoas não presta atenção ao que se passa à volta, mas uma queda aparatosa com mais de uma dezena de livros tornar-me-ia reconhecível durante algum tempo.

«Calma, tens outro saco de linho no bolso. Mete lá os livros que vais levar», disse para mim mesma, enquanto executava a tarefa.

De sacolas bem seguras, uma em cada ombro, retomei a marcha rumo à bibliotecária. Ao longe, não reconheci a cabeça escondida atrás do monitor do computador, mas, ao chegar junto da secretária, senti as forças faltarem-me nas pernas. Em vez de uma das minhas conhecidas, uma nova bibliotecária – cinquenta e poucos anos, gordinha, cabelo branco – processava qualquer coisa no computador com um estranho sorriso. Todos os livros que ia devolver estavam atrasados e eu contava com a implícita clemência que nasce da familiaridade entre pessoas conhecidas. Agora, já me via a argumentar o meu caso com… tentei ler a placa de identificação em cima da secretária… Ms. Lortz. Ms. Lortz?!?!

«Pode vir aqui, não se preocupe em me interromper.»

Um medo instintivo pregou-me ao chão, mas forcei-me a avançar, enquanto tentava fazer sentido de tudo. Ms. Lortz!… Só podia ser coincidência! Era o nome da aterradora bibliotecária da história de Stephen King, a mesma que avisava ameaçadoramente cada leitor com o “Library Policeman”, uma espécie de monstro que castigava os meninos e as meninas que não entregassem os livros dentro do prazo estipulado. E agora era à sua sósia que eu tinha de devolver volumes com mais de duas semanas de atraso!

Preparei-me mentalmente para levar um ralhete público na biblioteca. Nada mais constrangedor do que ser chamado à atenção em frente de todos os leitores, a fingirem estar muito concentrados nas suas leituras, mas com os olhos imóveis, a escutar, com um certo sentimento de desagravo, a aplicação impiedosa do corretivo. Isso e a multa que provavelmente teria de pagar. E, sendo ela Ms. Lortz, o meu maior receio era o morto-vivo que ela conjurava para assombrar aqueles que não entregavam os livros a tempo e horas.

«Não precisa de ter medo, minha querida. O máximo que lhe pode acontecer é uma suspensão da leitura domiciliária», disse Ms. Lortz, como se tivesse lido os meus pensamentos. E depois, num aviso geral, lançando o olhar pela sala, acrescentou, elevando a voz num tom áspero e gutural: «Para aqueles que maltratam os livros, o castigo é outro.»

Senti um ténue burburinho de medo atrás de mim e deixei-me ficar hirta. Esperava não ser identificada por ninguém, mas reconheci que dificilmente escaparia a uma vergonha na biblioteca pública. Ms. Lortz pegou na pilha de livros que eu tinha retirado do saco e começou a processar os títulos. Com gestos delicados e um sorriso colado a Araldite, observava cada capa como se estivesse a julgar o exemplar, mas não consegui perceber se desaprovava as minhas escolhas ou se as validava. O seu olhar frio e penetrante parecia desalinhado com a amabilidade que exibia.

Pensei em fazer conversa, tentando criar alguma empatia, aproveitando o momento em que ela concluía o registo de um livro antes de pegar noutro da pilha. Mas os meus pensamentos traíram-me:

«Conhece o livro The Library Policeman

Com um sorriso manso e um olhar que parecia projetar matéria cinzenta pela zona occipital do crânio, abanou lentamente a cabeça num movimento mais de reprovação do que de negação.

«É um livro que deseja consultar?», questionou, pegando na caneta, o olhar a queimar-me o cérebro.

Resisti um pouco e balbuciei. «Não, é só que… é um livro do escritor Stephen King.»

«Ah!», exclamou, desviando o olhar e retomando o registo dos títulos. «Se tivermos, está na secção de literatura americana.» E acrescentou, com um traço de desdém na voz: «Não conheço, não sou dada a esse género de textos.»

Senti que a tinha antagonizado. Se calhar, até conhecia o livro de King e agora sabia que eu a estava a comparar com uma figura de terror. Porque é que fui perguntar aquilo? O que é que eu podia fazer agora?

Acossada por um pavor crescente, tentei manter-me em pé junto à secretária, observando-a verificar, com a meticulosidade de um cientista forense, o estado de cada livro devolvido, capa e contracapa, interior e lombada, franzindo os olhos perante um qualquer detalhe, soltando depois suspiros e pequenos estalidos de reprovação sempre que confirmava no computador que a data de devolução já tinha expirado. Tudo muito lentamente e sem olhar uma única vez para mim.

Comecei a ficar cada vez mais ansiosa, a imaginar uma forma de evitar o ralhete em frente dos leitores presentes, já a empurrarem os óculos nariz acima ou a afastarem o cabelo para trás das orelhas em pequenos gestos irrequietos de crescente antecipação. Não consegui manter-me ali e afastei-me, de sacola ao ombro, daquele lento processo alfandegário, para escapar aos pensamentos. Fui até à janela do salão de leitura e lembrei-me então do meu carro. Na pressa, tinha arriscado estacionar defronte da biblioteca sem bilhete e sem conseguir ativar a aplicação. Espreitei para a avenida e, certo como o pão com manteiga cai sempre com o lado barrado no chão, lá estava o sacana do fiscal a passar uma multa!

«Está tudo em ordem, tenho a certeza! Tenho de ir, depois passo para tratar da suspensão de leitura!», disse num fôlego, já em corrida para fora do salão, tão rápida que nem dei oportunidade a qualquer protesto da Ms. Lortz.

Demasiado rápida, talvez, pois não consegui parar a tempo, já no início das escadas, e colidi com um homem de braço ao peito, vestido com uma estranha bata azul-viva com uma grande cruz dourada desenhada em filigrana à altura do peito.

«Mil perdões!», disse, com receio de lhe ter provocado nova mazela. Qualquer que tivesse sido o acidente que lhe imobilizara o braço, não lhe tirara a capacidade de praguejar.

«Mil… Mas isso são maneiras de andar numa biblioteca?! Deve vir da província!»

Fiz um gesto com a mão no coração e tentei prosseguir a marcha. Quem fala assim não precisa de assistência médica.

«Você é assim tão rude que vira costas sem se desculpar decentemente?»

«Acho que me desculpei de forma correta. Lamento, mas estou com pressa.»

«Se está com pressa, então podemos conversar quando lhe for mais conveniente — para que eu veja um verdadeiro arrependimento.»

Que raio de conversa era aquela? Estava a ficar exasperada e tinha de evitar mais uma multa, por isso atirei: «Amanhã, ao meio-dia, à entrada da biblioteca.»

«Muito bem. Eu vou saber quem você é. E, se não aparecer, ficará suspensa de entrar na biblioteca!», ameaçou, com a voz a subir de tom enquanto eu descia as escadas a correr.         

Chegada ao piso térreo, deparei-me com duas mulheres, uma delas de grandes proporções, ambas paradas no meio do átrio, numa conversa arrastada, como guardas republicanos numa operação stop numa estrada municipal. Decidida a não esperar que se desviassem, tentei esgueirar-me entre elas, seguindo em direção ao botão de abertura da porta de vidro.

Nisto, a mais alta moveu um braço em arco para vestir o casaco. Para evitar o embate, girei sobre mim própria, mas acabei por lhe arrancar o casaco, projetando-o no chão. A outra mulher pegou na peça, sorriu com escárnio e devolveu-lha.

«Aqui tens o teu blazer, Xana — mas acho que lhe caiu um “t” do Vuitton…»

A mulher envermelheceu de raiva, como se fosse cuspir fogo, e fui brindada com mais uma saraivada de acusações.

«Não sabe abrir os olhos?!»

Olhei para o casaco no chão, já ligeiramente irritada.

«Vejo muito bem, melhor do que pensa. Até consigo ver a etiqueta…», respondi, em provocação.

A cara dela inchou ainda mais.

«Em vez de pedir desculpa, ainda goza?»

Parecia um disco riscado. Que obsessão era aquela com pedidos de desculpa? A mulher cravou os olhos em mim e eu fiquei ali presa, ansiosa por sair.

«Lamento, estou cheia de pressa. Noutra altura dou-lhe todas as desculpas que quiser», disse, tentando avançar. «Amanhã, à uma da tarde, à entrada da biblioteca.»

«Muito bem, amanhã, à uma.»

Virei costas, carreguei no botão e escapei para o exterior mal a porta começou a abrir.

«Eu vou saber quem você é! Se não aparecer, não volta a pôr os pés nesta biblioteca!», gritou ao longe.

Cheguei junto ao carro e o fiscal já lá estava, inclinado sobre a matrícula.

«Desculpe, este é o meu carro. Não tinha moedas para o parquímetro, vim só entregar livros.»

Fitou-me com aquele sorriso convencido de quem acha que domina a situação.

«E a aplicação?»

«Estava bloqueada, não arrancou.»

«Se calhar não está bem instalada», disse, com um sorriso que se alargou imbecilmente pela cara. Puxou do telemóvel. «Não me quer dar o seu número para lhe enviar as instruções?»

Olhava para mim com pose de anúncio de desodorizante e corte de cabelo de cromo da bola.

«Prefiro a multa, se faz favor. E sem demoras, estou com pressa.»

Amuado, puxou da máquina de registo pendurada à cintura. Um homem com livros na mão aproximou-se e senti necessidade de partilhar o meu protesto.

«Não percebo porque é que não há um estacionamento rotativo para a biblioteca. Há tantas facilidades para outros serviços, porque não aqui.», disse, a aguardar um aceno de concordância por parte do outro homem. Reconhecia agora tê-lo visto, momento antes, a selecionar livros na sala de leitura. Prossegui, mais convicta de que iria recolher uma voz de apoio: «E aposto que há aí gente que estaciona o carro para fazer compras na baixa e não paga. Estacionam aqui em frente da biblioteca, não pagam, nem usam a biblioteca, como esse aí, por exemplo, também não tem bilhete.»

O fiscal olhou para o carro ao lado.

«Por acaso, também não pagou. Já trato disso.»

O homem lançou-me um olhar de desdém.

«Era preciso isso? Ajudou-a a sentir-se melhor? Sente-se mais justa? Ainda não superou o jardim de infância?»

Fiquei calada, sem resposta.

«Devia era pedir desculpa pela sua conduta.»

Outra vez o mesmo disco.

«Amanhã, às duas da tarde, à entrada da biblioteca», atalhei.

«Ahn?» olhou para mim, confuso.

«Amanhã, às duas, eu peço-lhe desculpa. Agora tenho de tratar de outros assuntos.»

Quando me virei para o fiscal, ele já tinha desaparecido, mas a multa lá estava no para-brisas.

Espera, tenho uma chamada. Vou enviar-te isto que  já escrevi e volto a falar contigo daqui a pouco.

Santuários da liberdade

As bibliotecas continuam a ser dos lugares mais seguros e onde só mesmo o conteúdo dos livros poderá surpreender-nos e trazer algo fora do normal. Um refúgio para o que se passa lá fora, uma fonte de energia para fazer face ao que nos espera no seu exterior.

Livros para deitar fogo à mente

Com o aumento do controlo da liberdade de leitura, a distopia de Fahrenheit 451, escrita por Ray Bradbury e publicada em 1953, está cada vez mais atual. A história tem lugar numa sociedade onde os livros são proibidos e queimados por bombeiros, que têm a função de eliminar qualquer forma de pensamento crítico. O título refere-se à temperatura a que o papel pega fogo, equivalente a aproximadamente 233º Celsius, e simboliza a destruição do conhecimento.

Aspirações embrulhadas em livros

A banda indie pop escocesa Belle and Sebastian é conhecida pelo som cativante das suas suaves melodias, mas são as letras introspetivas que mantém a nossa atenção. A canção “Wrapped Up in Books” faz parte do álbum Dear Catastrophe Waitress, lançado em 2003.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Biblioteca de Setúbal: https://www.mun-setubal.pt/biblio-publica-municipal/#1530806197415-9becd77a-51b7

Fahrenheit 451: ​https://en.wikipedia.org/wiki/File:Fahrenheit_451_1st_ed_cover.jpg

Belle and Sebastian: ​by Marisa Privitera – from agency Bestest via e-mail, CC BY-SA 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=589335

Termos e Condições