«Ao contrário do que é comum pensar-se, as narrativas não são lineares. Assemelham-se mais a sequências geométricas com variadas configurações justapostas verticalmente. Explicando com maior detalhe, cada configuração geométrica corresponde a uma dada configuração da narrativa pessoal de um indivíduo, que se justapõe a outra configuração e a outra configuração, cada uma delas assentes em sucessivos planos narrativos que podem ocorrer, em potência, em qualquer ponto de sucessivas paralelidades, com uma alternância parecida à das luzes estroboscópicas. As paralelidades onde os planos narrativos se podem realizar estendem-se infinitamente, paralelas umas às outras, e correspondem, de certo modo, ao conceito de espaço, enquanto as luzes estroboscópicas marcam cadências que, se quiseres, traduzem o nosso conceito de tempo. Tem em mente que há uma ligeira diferença entre cadências e sequências. Na cadência, tens liberdade para ler narrativas verticalmente para cima e para baixo. É tão rápida a cadência que dá uma sensação de continuidade dos planos narrativos. Agora, talvez mais difícil de explicar, os planos narrativos são abstrações e cada um deles corresponde ao conjunto de todas as configurações narrativas que potencialmente poderiam ocorrer numa dada paralelidade. Por essa razão, o plano narrativo funde-se com a paralelidade, embora sejam distintos. Como os planos narrativos são abstrações, planos em potência, nunca ocorrem verdadeiramente ou, pelo menos, nunca na sua completude. A sua face material é a configuração narrativa, que tem lugar num determinado ponto da paralelidade. As configurações podem ocorrer em qualquer ponto da paralelidade, o que significa que, potencialmente, as possibilidades de configurações narrativas pessoais são infinitas. Contudo, como todas estas configurações são perenes e estão interligadas umas às outras, influenciando-se mutuamente, existem restrições naturais no nexo entre elas, isto é, na articulação das diferentes sequências narrativas entre cada configuração.»
Acenei com a cabeça mecanicamente, mais para indicar que estava a prestar atenção do que a compreender verdadeiramente o que ele estava a tentar explicar.
«Quando há um ato narrativo e ocorre uma configuração narrativa numa dada paralelidade, aquela passa a ser o ponto de ligação com a anterior configuração e todas as outras que estão subjacentes, isto é, todas as configurações narrativas são arrastadas e forçadas a harmonizar com a configuração narrativa mais recente. Isto é aquilo que se denomida por verticularização narrativa. Dito por outras palavras, isto acontece porque, ao narrarmos um evento passado, ele vai depender da configuração da narrativa pessoal no momento em que esse evento é narrado. Neste sentido, o modo como narras o teu primeiro dia de escola é diferente quando o narras aos 10 anos, aos 20 anos, aos 40 anos ou aos 80 anos. As configurações ao longo da tua narrativa pessoal formam um harmónio flexível que tentará ajustar-se simultaneamente à disposição de todas elas, desde o passado até ao presente, procurando formar um todo coerente e coeso. Isto é possível porque as luzes estroboscópicas são cadências e, como tal, permitem o reajuste retroativo das configurações das paralelidades subjacentes, sempre dentro dos limites da coerência e da coesão.»
Nesta parte, comecei a sentir o sentido da coisa, mas continuava sem perceber qual era a anomalia.
«A anomalia está na singularidade que referi antes. As paralelidades são virtualmente infinitas, mas se pensares nelas como camadas de um mil folhas do tamanho do universo, consegues perceber que ligeiras alterações do ângulo no seu centro podem fazer com que os seus extremos estejam significativamente mais afastados daquilo que será a regularidade da paralelidade. Como os planos narrativos e as paralelidades são coincidentes, embora as primeiras sejam realidades abstratas e as segundas realidades concretas, se um ou mais planos narrativos sofrerem, por algum motivo, uma potencial oscilação ou enviesamento, poderão torcer com eles uma ou mais paralelidades, ao ponto de se tocarem ou mesmo de se cruzarem umas com as outras. Isto fará com que as configurações narrativas se comportem de modo diferente, correndo até o risco de coincidirem no mesmo ponto em paralelidades distintas, algo que poderá ser catastrófico. Este fenómeno é denominado por alguns como perpendicularidade, um termo com o qual não concordo muito porque o fenómeno é mais angular do que perpendicular, embora reconheça que perpendicularidade comunica melhor esse cruzamento.»
«E isto explica o que aconteceu com a tatuagem?»
«Poderá explicar, mas estamos no domínio da teoria. Possivelmente, houve uma perpendicularidade que levou o teu plano narrativo a cruzar-se com outras paralelidades, proporcionando a ocorrência de uma configuração narrativa pessoal naquilo que seria um outro plano narrativo. O teu regresso ao passado arrastou consigo todas as outras configurações, porque elas são modificadas umas pelas outras, pelas que aconteceram antes e depois. Contudo, dada a necessária harmonização das sequências narrativas, quando o teu plano narrativo realinhou com a paralelidade original, as configurações narrativas que estavam nos planos narrativos sobrejacentes àquela onde a perpendicularidade ocorreu foram todas reajustadas e atualizadas. Ergo, a tatuagem nas tuas costas.»
Levei a mão ao ombro, como se tentasse alcançar o desenho na minha pele, protegido do roçar da roupa sob uma gaze hidratada para ajudar na cicatrização. Era uma presença física constante.
«Mas porque é que o Manel não me disse nada hoje? Ele estava lá e, pelo que estás a dizer, ele deveria ter sido afetado também ou, pelo menos, lembrar-se de algo!»
«Isso é mais difícil de explicar.», suspirou o Silva. Parou uns instantes, a deslizar o olho são de um lado para o outro como se estivesse a ler um quadro branco invisível cheio de anotações. «Há uma teoria, mas é apenas uma teoria, que propõe uma explicação semelhante à do fenómeno dos buracos negros. Tal como a presença de massa e energia provoca uma curvatura do espaço-tempo, a que chamamos gravidade, força que regula a atração entre corpos, a matéria linguística pode criar um efeito no espaço-tempo denominado recursividade. Esta força é fundamental para criar frases porque permite gerar estruturas complexas a partir de elementos mais simples, narrativas dentro de narrativas que podem gerar narrativas que podem gerar outras narrativas e assim por diante, infinitamente complexas.»
Com as mãos, tentava reproduzir movimentos orbitais e o encaixe de frases subordinadas.
«Nos buracos negros, a extraordinária acumulação de matéria monstruosamente comprimida em espaços diminutos gera uma gravidade excecionalmente forte, tão forte que nada, nem mesmo a luz, consegue escapar. De modo semelhante, uma absurda recursividade de narrativas irá criar um fenómeno chamado mise en abyme, que levará o narrador e as coisas narradas a um mergulho infinito do qual nada nem ninguém conseguirá escapar.»
«Eu entrei num buraco negro?»
«Não sei. Acho que no caso do teu encontro imediato com os teus amigos de infância, foi algo semelhante ao da passagem da luz nas imediações de um buraco negro. Quando isto acontece, há uma curvatura da luz que, ao perder energia a tentar escapar à atração gravitacional, sofre um desvio para o final do espetro eletromagnético, tornando-se mais vermelha. No evento narrativo que viveste, terá havido uma força que retirou centralidade às configurações narrativas dos teus amigos, possivelmente desalojando-as da sequência narrativa onde estavam. Provavelmente, estão agora à deriva, perdidas em alguma paralelidade. Têm sido frequentemente reportados avistamentos de sequências narrativas à deriva.»
«E por isso, ele não se recorda?»
«É possível, mas poderá ser por outras razões. Nem todas as configurações narrativas são memoráveis, há muitos planos narrativos obscurecidos que nunca mais são recuperados. Tanto a física quântica como a teoria da narratividade são disciplinas muito abstratas e muito há para investigar.», desculpou-se. «Agora… o mais difícil de explicar é o que te aconteceu depois da tatuagem. Parece ter sido um colapso narrativo e, francamente, não sei como conseguiste regressar.»
Senti-me zonza e unhei o banco para segurar a minha vertigem até sentir uma dor que restabeleceu o equilíbrio.
«Mas porquê?», lamuriei.
«Mais uma vez, só posso fazer suposições. Acho que tudo se deve à tua crise de identidade que, por algum motivo, travou o teu processo narrativo. Possivelmente, criou uma torção analéptica do espaço-tempo com níveis de energia tão elevados que provocaram uma perpendicularidade. Felizmente, a tua narração não se fixou nessa paralelidade. Não sei o que te teria acontecido. Em teoria, podem dar-se transições suaves entre planos narrativos, mas é preciso um certo controlo metalinguístico. No estado narrativo em que estás, terias muitas dificuldades em gerir ruturas ou deslocamentos cronológicos. As configurações narrativas suprajacentes poderiam sofrer uma regressão proléptica e criar um colapso oximorótico brutal e permanente na tua narração. Ou poder-se-ia dar uma explosão catafórica e projetar-te para um plano narrativo suprajacente num estado narrativo degradado, provavelmente catacrética.»
Anuí com um aceno. Senti que estava num consultório a ouvir um discorrer técnico sobre os resultados de um exame médico demasiado complexo para o meu entendimento. Bastava-me perceber que fora muito feliz no desenlace do evento.
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