Voltei a ter um episódio como aquele da tatuagem em Setúbal, sem conseguir distinguir sonho de realidade. Só que desta vez não se tratou de lapsos de memória e de saltos no tempo e no espaço. Toda a realidade estava alterada, como se tivesse sofrido um ataque de sinestesia total.
Tinha recolhido ao meu compartimento, incapaz de acompanhar a discussão dos três tarolas devido ao excesso de grogue que tinha tomado. Não bebi muito, apenas dois pequenos copos, mas devo estar mais suscetível e o corpo anda exausto de tantos dias no mar. Acordei de madrugada com um estranho balanço, como se mudássemos de rumo e a retranca tivesse passado para o outro bordo. Lembro-me de me levantar para ver o que se passava. Ao chegar ao convés, fiquei inundada com a cor de vinho tinto do mar dos clássicos gregos e ondas de música pop-rock a planar sobre as águas tranquilas como lençóis amarelos numa brisa gentil. Não estou a ser metafórica. Eu conseguia sentir o cheiro a vinho tinto do mar à nossa volta e conseguia ver as ondas amarelas da música. E não era a única.
«Já ouviram o barulho destas nuvens?», repetia o Russo, que entretanto tinha subido com os restantes tripulantes ao convés, de cabeça dobrada a inspecionar o céu.
«E o cheiro delas?», acrescentava o Bad Tom, de nariz empinado a abrir as narinas incessantemente. «Cheiram a plantas distantes, poeiras longínquas, terras remotas.»
O capitão parecia estar a divertir-se a observar-nos.
O Lucky estava fixo na melodia dos lençóis amarelos, tal como eu.
«De onde vem esta música?», perguntou.
«É dos amigos com quem nos vamos encontrar. Já devem ter emergido e estão a vir na nossa direção. Esta música é o sonar deles.», explicou o Capitão.
Um submarino amarelo surgiu no nosso rumo a poucas dezenas de metros. No convés, na parte superior do casco, três guitarristas e um baterista, vestidos de fato cinza justo, camisa branca e gravata preta, com um corte de cabelo idêntico em forma de tigela, faziam um número musical.
«Devem ser os marinheiros.», pensei. «Mas o que fazem ali a tocar música?»
Na ponte no topo da torre, surgiram duas pessoas, uma delas o Capitão Nemo.
Num instante, os músicos guardaram os instrumentos nos bolsos e prepararam os cabos para que nós atracássemos ao submarino.
«Ahoy!», gritou o Capitão Nemo, acenando do alto da torre.
Senti um calafrio a subir-me pela espinha quando os marinheiros assentaram uma prancha entre as duas embarcações. Não me sentia confortável a abandonar a familiar segurança do Nómada. Fomos escoltados para o convés do submarino e descemos para o seu interior por uma escotilha cuja circunferência à largura dos ombros dava a sensação de estarmos a entrar na toca de um coelho.
No interior, cheirava a prados primaveris. A profusão de perfumes de diferentes flores pôs-me a cabeça à roda e percebi pelo olhar e balancear dos restantes companheiros que também eles tinham os sentidos afetados. Os dedos da minha mão direita ergueram-se elevados por uma força que não identifiquei de imediato.
«Caríssima, como tem passado?», perguntou o Capitão Nemo, depois de beijar as costas da minha mão.
Recolhi o braço num gesto defensivo, insegura com as leves tonturas provocadas pelo estímulo excessivo dos sentidos.
«Não se preocupe, essa sensação de enjoo passa num instante. Relaxe e siga os seus sentidos, não tente controlá-los», sugeriu com a voz de um hipnotizador em palco prestes a converter a vítima numa galinha.
«Onde é que estamos? O que se passa aqui?», perguntaram os outros.
«Bem-vindos ao Náutilos, senhores. Considerem-no como o vosso refúgio, um santuário onde se podem libertar dos grilhões da sociedade contemporânea. Ou de qualquer época, se forem essas as circunstâncias.»
Os braços abertos do Capitão Nemo convidavam-nos a olhar em redor. A estrutura do submarino, presumivelmente metálica, estava revestida com recortes de papel celofane com diferentes cores e formas geométricas que mudavam com o movimento do nosso olhar. Os instrumentos de navegação e outros objetos de uso náutico aplicados sobre o revestimento colorido pareciam ter a textura de cogumelos.
«Podem experimentar, são deliciosos.», disse um homem saindo de um túnel. «O John ali não resiste e todas as semanas devora um sextante.», disse, apontando com um movimento do rosto na direção de um dos quatro marinheiros musicais, provocando-lhe um sorriso guloso. «Eu chamo-me Tim e sou o vosso guia. Venham.», acenou-nos junto a uma escotilha.
Deixámos a sala de comando e caminhámos vagarosamente ao longo de um túnel com traves de suporte feitas de marshmallows com as cores pastel, ciano, rosa e branco entrelaçadas até à cobertura feita de marmelada com pequenos diamantes a cintilarem. Cada passo no passadiço de claras em castelo cozidas em açúcar levantava o som poeirento de um suspiro com um ploc-ploc crocrante que reverberava nas paredes transparentes do túnel. Em ambos os lados, viam-se salas com janelas de sacada para o mar, envidraçadas com glacé de diferentes essências e sabores, e no seu interior grupos de pessoas, algumas delas familiares, não sei porquê, fixavam os olhos ávidos em écrans de parede.
«São grupos de desaprendizagem vindos dos quatro cantos do mundo.», explicou o capitão.
«O que é que estão a desaprender?»
«A perspetiva da realidade imposta pela sociedade de consumo.», respondeu.
«Então, é uma espécie de lavagem cerebral?», apontei com um tom acusatório.
«Nada disso. Apenas os expomos a estímulos que lhes permitam experienciar outras perspetivas da realidade. A nossa visão do mundo, assim como os significados que lhe damos, é construída através da nossa perceção. Se expandirmos a nossa perceção, podemos alargar o potencial de experienciação positiva da realidade. Há diferentes técnicas disponíveis, da neurolinguística à meditação, passando pela hipnose. Nós preferimos mesclar os sentidos ao ponto de atingirem um estado de comunhão universal que anule o medo. Ultrapassado esse obstáculo, eles podem começar a cultivar novos valores a partir de sentimentos positivos… e assim mudar o mundo.»
O nosso anfitrião abriu os seus olhos caleidoscópicos e parou-nos com um sorriso de gato Cheshire.
«Não há nada que não possa ser feito.»
Semiergueu os braços numa pose de apresentador de um misterioso espetáculo mágico, olhou sobre o ombro, como se verificasse o seu posicionamento, e esticou a face para o teto com a expressão de quem saboreia o sopro de uma alucinação colorida numa viagem descapotável no escuro a receber no rosto a luz do sol num dia de inverno.
«Só precisamos de amor!», exclamou, projetando os braços no ar e inclinando a cabeça para trás.
Quando ele disse isto, as luzes de todos os compartimentos apagaram-se e atrás de nós quatro focos iluminaram com pós de baunilha e de girassol os marinheiros a tocarem uma melodia. As notas musicais saíam da banda em várias direções e começaram a ondular como sereias à nossa volta, formando rastos de arcos-íris numa profusão de cores soterrantes. Progressivamente, a maciez das cores envolveu-me mais e mais, os arcos a roçarem-se em carícias pelo meu corpo ao ocuparem progressivamente mais espaço, até tudo ser um só brilho multicolor com o som de um rio a libertar-se de cavernas incomensuráveis, vindo de um mar enterrado sem sol. Aos poucos, senti um sono profundo a subir pelo corpo até me tapar os olhos. Quando acordei, estava de volta ao meu compartimento, onde tinha adormecido na noite anterior, como quem desperta de um sonho vívido interrompido por alguém a bater à porta. Subi ao convés e dei com o sol a pique. O capitão fazia leituras com o sextante, a confirmar a nossa longitude.
«Onde é que estão todos? Onde está o capitão Nemo e os marinheiros do submarino amarelo?»
«Submarino amarelo?», riu-se o capitão Jackdaw, sem olhar para mim, de sextante fixo no horizonte. «Não quero soar condescendente, mas é melhor não beber nada além de água por algum tempo… Enquanto você dormia, os nossos tripulantes seguiram com o capitão Nemo, como combinado, num cargueiro cinzento-escuro regular, sem pintas de amarelo. E nós os dois prosseguimos caminho rumo à Nova Escócia.»
Tomou umas anotações no papel e guardou o aparelho na caixa protetora. Sentou-se a olhar para mim e passou-me uma garrafa de água com um sorriso.
«O melhor remédio para a ressaca», disse.
Com os sentidos toldados, bebi a garrafa toda. Depois, soergui-me no assento do poço a tentar focar o horizonte. Não vi nada além do mar. Mas pareceu-me escutar vozes ao longe a cantarem “Turn off your mind…”
A cair pela toca acima
Um fervoroso suíço, defensor irredutível da sua Genebra natal. Um homem de grandes paixões, tornadas públicas nas suas autobiografias, parece viver sempre num de dois extremos, entre o amor e o ódio.
Conhecer sem aprender
A personificação da elegância e da perspicácia de um “english gentleman” com um humor corrosivo. Antes de se tornar um guru político com imenso sucesso nos Estados Unidos, Johnny Locky deu cartas na área do pensamento científico
Somos todos morsas!
Quando o grogue o deixa mais solto, relaxa ao ponto de contar histórias como a do seu nascimento prematuro quando a mãe se acagaçou com a horda de adeptos do Barcelona que espalharam o caos em Inglaterra durante a final da Taça dos Campeões Europeus. Sóbrio, torna-se defensivo e até arrogante.
Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:
Beatles by Bruce McBroom https://jackbrummet.blogspot.com/2013/01/44-years-ago-today-beatles-performed.html
Spooky Tooth in https://defendersofthefaithmetal.com/top-10-spooky-tooth-songs/
Jefferson Airplaine by RCA in Billboard Magazine https://en.wikipedia.org/wiki/File:Jefferson_Airplane.jpg
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