Jun 10, 2026

17. Marinheiro cósmico

Estamos bem longe do triângulo das Bermudas, mas tivemos um estranho encontro em alto-mar. Talvez esta zona do Atlântico Norte seja a porta das traseiras do triângulo. Tentei memorizar as coordenadas – 41.70 e qualquer coisa norte e 41.40 qualquer coisa oeste – quando o capitão as anotou no diário de bordo. Hás de ver o que há por estes sítios…

Não sei ao certo quando aconteceu. Na verdade, ninguém deu por nada. Estávamos cada um nos seus pensamentos, talvez aborrecidos com a monotonia do mar aberto, e de repente demos conta de que o vento, que até então nos tinha acompanhado com a constância, desapareceu sem aviso. Mais do que isso, as ondas perderam a sua cadência e achataram-se numa superfície estranhamente imóvel. Até os sons pareciam diferentes. O ruídos das diferentes partes do barco e o bater da água contra o casco destacavam-se num silêncio anormal, demasiado nítidos acompanhados de um agressivo eco, como se o horizonte à volta fosse, na verdade, uma parede virtual que nos tinha encerrado de tudo…

O capitão parecia estar calmo, mas eu e os restantes tripulantes estávamos agitados e começámos a comentar as estranhas mudanças súbitas. Foi então que vimos algo à distância que parecia estar progressivamente mais próximo de nós. A dada altura, percebemos que era um veleiro de velas içadas, mas provavelmente devia estar a deslocar-se a motor para conseguir chegar junto a nós. O capitão manteve o Nómada à deriva, a ver o que vinha.

Com os binóculos, conseguimos observar à vez a embarcação. Era um trimarã com um casco branco muito coçado, provavelmente há muito tempo a navegar sem manutenção, a julgar pelo apagamento de algumas das letras do nome, escrito num rosa que já fora vermelho em tempos. Apenas se conseguia ler “mouth”.

«Ponham as defensas, acho que eles querem acostar.», ordenou o capitão.

Um calafrio percorreu a minha espinha a pensar que estávamos completamente sozinhos e que não teríamos ajuda de ninguém caso este fosse um barco pirata.

«Não são piratas, são vagabundos do mar que precisam provavelmente de alguma ajuda», assegurou o capitão.

Mesmo assim, sentia uma profunda apreensão quando o trimarã se acercou de nós e conseguimos ver dois homens no convés. Um deles tinha vestido um fato impermeável amarelo, de onde emergia uma cabeça redonda com cabelo ralo encaracolado em desalinho atrás das entradas que acentuavam o tamanho da testa; o outro tinha o ar de ter sido teleportado diretamente de um escritório de advogados para aquele barco, vestido de fato e gravata, o cabelo penteado para trás, colado ao crânio com algum tipo de gordura que lhe dava um estranho reflexo seboso.

«Viva! Encontrar-vos no meio do oceano é a prova matemática de que a raiz de menos um pode transformar acasos imaginários em encontros reais», gritou o homem do fato amarelo para se fazer ouvir da popa do barco, onde imobilizava a retranca com a vela grande entretanto recolhida.

Tinham o motor desligado, mas mesmo assim conseguiram deslizar até junto de nós num mar liso sem vento. Como é que é possível? O capitão não mostrava o mínimo ar de surpresa.

«E onde é que os vossos cálculos matemáticos vos levam?», perguntou o capitão.

«Ah, seguimos o espaço contínuo.», respondeu a sorrir. «Mas fomos atraídos para aqui e, de repente, como um magneto assente sobre um polo contrário, girámos inconsistentemente.»

«Há quanto tempo estão aqui?»

«Décadas parece. Vocês são as primeiras almas vivas com quem nos cruzámos desde há algum tempo, mas raramente estamos sós. Às vezes há música e ouvimos sons de festa e gargalhadas, outras vezes gritos de pânico e pedidos de ajuda.», disse, terminando a frase numa espécie de murmúrio.

Olhou em volta lentamente, como se estivessemos a ser observados por alguém.

«Donald é o meu nome. Aquele é o Faraj.» Aproximou-se da meia nau e estendeu a mão para cumprimentar o capitão Jackdaw. O outro tripulante fez um gesto à distância e deixou-se estar a observar sentado no topo da cabina do barco. «Têm alguns mantimentos que possam partilhar? As minhas provisões foram calculadas com precisão matemática, mas o Faraj ali apareceu-me no meio do oceano, atirado borda fora de um cargueiro de madeira, e tive de o recolher»

«Faraj», repetiu o capitão. «É um nome árabe?»

«É britânico», respondeu o homem, com um ar amuado.

«A mim faz-me lembrar o filme do Lawrence da Arábia.», acrescentou com um riso o homem do fato amarelo, a olhar à distância para o homem do cabelo seboso. «É político, daqueles que tem a função de mover todo o sistema político-económico do país, talvez do mundo. Querem moldar o curso da história, como na primeira aplicação estilhaçada da ideia de que E é igual a mc ao quadrado. Refiro-me ao bombardeamento de Hiroxima.»

«Sou britânico!», repetiu o homem, elevando a voz.

«Não ligue, ele é muito sensível a estas questões de nacionalidade. Quando avistámos ao longe um outro cargueiro e lhe disse que tinha pavilhão indiano, foi-se esconder debaixo da mesa do rádio.» Voltou-se para o capitão. «De todo o modo, se não fosse muito inconveniente para vós, poderiam dispensar alguma comida e bebida? Se tivessem um pouco de álcool, seria excelente.»

«Claro que sim, temos mantimentos suficientes para vos dispensar. Venha a bordo.», convidou o capitão.

Ficamos surpreendidos a ver a quantidade de comida e bebida que o capitão colocava em duas grandes caixas que o homem de fato amarelo tinha trazido com ele para o nosso barco. O capitão fez-nos um sinal para estarmos tranquilos.

Colocaram as caixas no convés, o capitão abriu uma garrafa de grogue e estendeu ao homem do fato amarelo.

«Já percebi que anda há imenso tempo no mar e suspeito que não tenha interesse em pôr os pés em terra.»

«Fiz umas apostas que não devia, é melhor manter-me afastado por algum tempo.»

«Só isso?»

«O mar é o meu espaço para estudo, o meu laboratório. Não é que eu faça investigação específica sobre o mar, mas o isolamento permite-me explorar as minhas ideias com maior profundidade.»

«E que ideias são essas, se não é intromissão perguntar?»

«Tenho feito cálculos com vista a desenvolver tecnologia para manipular o espaço contínuo e possibilitar a integração cósmica. Isso permitirá libertar a inteligência humana e tornar a existência física supérflua.»

«E isso é bom, abandonarmos a nossa forma física?»

«Nós somos seres muito inteligentes, mas infelizmente precisamos destes corpos de símios para carregar a nossa inteligência e dar realidade mecânica às nossas ideias. O problema são as limitações que isto impõe: sofremos dor, corrupção e degradação na sociedade humana, não porque o sistema humano é malévolo – ele comporta-se “corretamente” de acordo com as suas próprias luzes –, mas porque o cosmos está a tentar persuadir-nos a deixá-lo para passarmos a um plano mais elevado.»

«Talvez haja formas de mudar o sistema, não?»

«Talvez. Podemos trabalhar silenciosamente, tentando persuadir o sistema a nos aceitar, e mudá-lo no seu interior. Ou então, simplesmente removemos a nossa inteligência para um sistema mais satisfatório. Na minha opinião, o anarquismo não vai mudar o sistema.»

«Parece ter uma certa descrença na humanidade.»

«Pelo contrário, a humanidade tem um enorme potencial e o amor deveria ser a base das nossas relações. Infelizmente, a nossa dimensão símia limita-nos a concretizar esse amor.» Olhou de soslaio para o outro homem no trimarã. «E infelizmente, alguns de nós são incitados a promover um egoísmo que nos degrada ainda mais.»

Estendeu a garrafa de volta, mas o capitão fez-lhe um sinal para a guardar.

«Sinto que deveria dar-lhe algo em troca.», disse com um enorme sorriso na cara. «Que tal ficar com o Faraj como par de mãos extra para ajudar a bordo?», sugeriu com um riso infantil.

«Parece-me que seria um lastro extra desnecessário.», respondeu o capitão a rir. « You keep it! Pode ficar com o lastro.», acrescentou em inglês.

«Então, deixe-me pedir-lhe outro favor.», segredou o homem do oleado amarelo.

Afastados no extremo do barco, os dois conversaram em surdina, com o homem a pousar a mão no ombro do capitão. Com uma agilidade surpreendente para quem enverga aquele tipo de vestimenta, saltou para o trimarã, entrou no interior e regressou com uma caixa de cartão que passou ao nosso skipper.

«De certeza que não quer o lastro? Não perturba nada, ele próprio diz que não ouve música, não vê televisão e não lê.»

«Não, este barco tem as fronteiras bem definidas. You keep it.», repetiu o capitão, soltando as amarras. «You keep it!», acrescentou em inglês.

O homem do oleado amarelo sorriu, atravessou para o trimarã, recebeu as duas caixas que lhe passámos e guardou-as no interior no barco. Fez uma saudação, soltou as amarras e afastou os costados dos dois barcos com a bota. Quando estava já a alguns metros, empurrado suavemente pelo impulso, gritou: «The only trouble with man is that he takes life too seriously!»

E aos poucos, o trimarã afastou-se de nós, as velas içadas e os dois homens sentados na popa. Como é que conseguiam deslocar-se naquela calmaria inquietante, sem vento nem ondas, continua a ser algo que não compreendo. O certo é que eles se foram afastando, enquanto nós permanecíamos onde estávamos, a boiar. Durante um longo instante ninguém falou. O trimarã foi ficando cada vez mais pequeno, até se tornar pouco mais do que um ponto pálido no horizonte e, por fim, desaparecer por completo.

Só depois de ter desaparecido voltámos a ouvir o vento. Primeiro foi apenas um leve sussurro algures sobre as nossas cabeças. Depois, uma ondulação perturbou a superfície da água. O mar recuperou a respiração, as ondas retomaram o seu ritmo e os ecos estranhos dissiparam-se, como se alguém tivesse aberto uma porta que nem sequer nos tínhamos apercebido de ter sido fechada.

O capitão observou o horizonte em silêncio antes de regressar ao leme.

«Bem», disse ele, «aquele era o Donald.»

Ninguém reagiu. E, por razões que não consigo explicar, nenhum de nós sentiu especial vontade de perguntar pela caixa de cartão.

O homem do oleado amarelo

O homem de oleado amarelo oscilava entre um franco sorriso de amizade e um franzir das sobrancelhas com a face virada para baixo em preocupação ou a tentar relembrar algo esquecido.

Um homem num caixote

A imagem do trimarã a afastar-se de nós para o infinito oceano fez-me pensar num caixote à deriva do mar com um homem ao lema à procura de uma salvação. E lembrei-me da canção “Man in the Box” dos Alice in Chains.

A quem quiser saber

A Tout le Monde é uma das camções mais emotivas dos Megadeth. Em vez da agressividade do thrash metal, apresenta uma melodia mais introspetiva de reflexão sobre a mortalidade, a condição humana e as despedidas.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Donald Crowhurst : By Tribute to Donald Crowhurst, New Quay Inn, back beach,Teignmouth by Robin Stott, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=142716233

Alice in Chains: By Photograph by Paul Hernandez – Scan via pinterest.com (City Heat Magazine, December 1988, page 15). The same photo appears (in lower resolution) at the ultimate-guitar.com—note that the latter scan had more information printed, but still not a valid copyright notice. Cropped from the original image and retouched; see unretouched original in upload history below., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=106021420

Megadeth: foto retirada de https://metalfans.be/bands/megadeth

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