Os Santos Populares, tal como hoje são conhecidos, resultam de um processo de reinterpretação histórica que combina práticas festivas antigas com enquadramentos religiosos e políticos posteriores. Em Lisboa, estas celebrações estiveram durante muito tempo ligadas a espaços concretos da cidade, em particular à Praça da Figueira, que funcionava como centro nevrálgico dos festejos, marcada por uma vivência espontânea, noturna e popular. Só mais tarde é que estas práticas foram progressivamente reorganizadas, deslocadas e enquadradas em programas oficiais mais amplos, perdendo parte do seu caráter informal e comunitário .
Ao mesmo tempo, esta reinterpretação tem uma dimensão claramente política. O tríptico foi escrito em 1935, num momento em que o Estado Novo procurava apropriar-se das festas populares, integrando-as nas chamadas Festas de Lisboa e associando-as a um programa nacionalista e religioso mais amplo.
No tríptico Praça da Figueira, Fernando Pessoa intervém diretamente sobre esse processo, propondo uma leitura crítica das festas. Em vez de aceitar a versão religiosa e institucional dos santos, o poeta enfatiza o seu carácter pagão, dionisíaco e popular, devolvendo-os à esfera da experiência vivida: dança, vinho, cantiga, corpo e rua. Como sublinha José Barreto num artigo do n.13 da revista Pessoa Plural da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa , Pessoa opõe deliberadamente o santo oficial, construído pela Igreja, ao santo imaginado pelo povo, afirmando que “és tu como nós te figuramos”, isto é, uma figura moldada pela prática coletiva e não pela doutrina .
Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:
Santo António (Estátua em Gouveia): by Valentim0106, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Est%C3%A1tua_de_Santo_Ant%C3%B4nio_em_Gouveia.png
Termos e Condições
