Jun 13, 2026

Cinema tradicionalizado

Durante o Estado Novo, o cinema português desempenhou um papel importante na construção e difusão de uma identidade nacional padronizada. Filmes como A Canção de Lisboa (1933), O Pátio das Cantigas (1942) ou O Leão da Estrela (1947) são frequentemente vistos como comédias populares, mas funcionam também como veículos de representação de uma Lisboa “típica”: bairros pitorescos, vizinhanças coesas, humor quotidiano e uma certa harmonia social que raramente corresponde à realidade urbana da época.

Estas produções inserem-se no que a historiografia designa como “comédia à portuguesa”, um género que foi, direta ou indiretamente, enquadrado pelo regime. Embora nem sempre fossem propaganda explícita, beneficiavam de um contexto político e institucional que favorecia conteúdos alinhados com os valores do Estado Novo: ordem social, moral tradicional, valorização do povo enquanto entidade homogénea e ausência de conflito estrutural. O apoio estatal, através de mecanismos de financiamento, censura e controlo de distribuição, contribuiu para consolidar este tipo de representação como dominante.

Tal como nas festas populares reorganizadas e nas tradições “inventadas” descritas por Eric Hobsbawm, estes filmes ajudaram a fixar uma imagem reconhecível e repetível do que significava ser português. Mais do que retratar a realidade, criavam um modelo cultural: uma Lisboa encenada, coreografada e emocionalmente coerente, que podia ser facilmente interiorizada pelo público. Nesse sentido, o cinema funcionou como extensão simbólica do mesmo processo identificado por Ernest Gellner: a construção de uma cultura comum necessária à consolidação de uma identidade nacional moderna.

O documentário de Pedro Éfe, José de Matos-Cruz e António de Macedo, disponível no Arquivo da RTP, com contributos, entre outros, de João Benard da Costa e de Fernando Rosas,  dá mais a conhecer sobre o cinema português. 

 

 

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