Desde aquela estranha calmaria há uns dias, temos estado a navegar a um bom ritmo. Quando o vento voltou, voltou com intensidade.
«Fomos à procura do sítio onde ele estava.» disse o capitão. E depois explicou-me tudo com a paciência irónica de quem sabe estar a falar com alguém que provavelmente não percebe metade do que está a ser dito: descemos um pouco para sul para fugir a uma alta pressão e evitar qualquer icebergue teimoso que tivesse decidido tornar-se mais setentrional; agora avançávamos para oeste e, mais tarde, subiríamos para noroeste rumo à Nova Escócia.
«O caminho a direito raramente é o mais rápido», disse ele. «Especialmente quando o vento parece ter vontade própria.»
Estávamos a andar bem, vento da alheta. Novo momento para mais uma Ted Talk de navegação: navegar com vento pela alheta é a mareação mais rápida e, provavelmente, em algum momento, alguém começou a usar sistematicamente a expressar “pôr-se na alheta” para indicar também “ir-se embora com eficiência”.
Foi então que o Johnny Lucky, com o entusiasmo de quem gosta de coincidências, apresentou uma outra explicação para o sucesso da manobra de navegação do capitão.
«Deve ter sido por ser o dia do vosso Santo António que se fez um milagre do vento aparecer.»
Houve um silêncio de expetativa. O Lucky é um bocadito beato e confesso que fiquei sem saber se ele estava a brincar ou a falar a sério. Nisto, o capitão Jackdaw soltou uma gargalhada longa, quase desproporcionada.
«O San’ Tó é mais bilhas partidas e casamentos à pressão», disse, ainda a rir-se. «Milagres é outra secção. Os Santos Populares são mais… logística festiva. E política.»
Hobbins levantou a cabeça, como se tivesse sido chamado pelo nome.
«Não percebo», disse.
O capitão não respondeu imediatamente. Encostou-se à amurada, olhou o mar e depois falou com um o tom pedagógico de quem vai desmontar qualquer coisa.
«As Festas de Lisboa são um bom exemplo de como se constrói uma tradição sem que pareça ter sido construída», começou. «Antes de serem Santos Populares, eram fogueiras. Antes de serem procissões, eram rituais. Solstícios, fertilidade, ciclos da terra. Coisas demasiado antigas para caberem dentro de uma igreja, mas suficientemente úteis para não serem destruídas.»
Fez uma pausa breve.
«Então a Igreja Católica fez o que sempre faz e o que as outras igrejas fazem: não apagou; reinterpretou. E mais tarde o Estado Novo fez o mesmo. Impôs uma ordem discursiva e transformou-a em desfile. Coreografou a espontaneidade», disse.
Olhei para ele.
«Coreografou… Quer dizer, controlou?»
Ele sorriu.
«A diferença é mais semântica do que real.»
Hobbins franziu o sobrolho.
«Mas está a dizer que as festas foram… inventadas?»
«Reorganizadas», corrigiu o capitão. «Inventar do zero é ineficiente. Muito melhor é pegar numa coisa que já existe, filtrar, reapresentar, repetir e, por fim, apresentar como tradição. Quanto mais vezes repetes, mais antigo parece.»
O Hobbins, visivelmente confuso, olhou primeiro para o Locky e depois para o Russo, a tentar confirmar se era só ele que não estava a perceber.
Já ouviram falar de Hobsbawm.»
«Quem?», perguntou.
« Eric Hobsbawm », disse o capitão. «Ele e Terence Ranger escreveram precisamente sobre isso. Referem tradições que parecem antigas, mas que são relativamente recentes, construídas para criar continuidade com um passado que nunca existiu exatamente daquela forma.»
«Exato!», interrompi com entusiamos. «É como nos filmes históricos!»
O Jackdaw apontou para mim, satisfeito por alguém estar a acompanhar a matéria.
«Aí está. Um excelente exemplo.»
«Tipo o quê?», perguntou-me Hobbins, ainda a tentar apanhar o fio à meada.
«O kilt no filme Braveheart!», apontei, à espera que fosse evidente para todos.
Hobbins franziu o sobrolho.
«Lembro-me vagamente, acho. O que é que tem?», inquiriu o Hobbins, com um encolher de ombros.
«Não era usado naquela época.», expliquei. «É um símbolo posterior, projetado para trás no tempo. Toda a cena da batalha com os ingleses parece autêntica, mas é uma ilusão típica de Holywood.»
«Primeiro proíbem-te a tradição. Depois devolvem-ta… melhor vestida.», ironizou o capitão.
O capitão Jackdaw reclinou-se, apoiando os cotovelos na amurada.
« Foi o que aconteceu com os Santos Populares. Aquilo que hoje parece tradição imemorial é, em parte, uma narrativa construída. Uma mistura de paganismo antigo, devoção cristã e propaganda da ditadura. Se conseguires convencer as pessoas de que algo é antigo, natural, herdado, então torna-se difícil questioná-lo. Não estás a impor uma regra, estás a “respeitar uma tradição”».
«E quem discorda… parece estar a romper com alguma coisa sagrada», acrescentei.
Ele assentiu.
«Mas há alguma tradição que não seja inventada?», interpôs o Russo.
A pergunta ficou no ar, pesada.
«Talvez não no sentido puro.», respondeu o capitão. «Mas há práticas que emergem organicamente e que depois são apropriadas, redefinidas».
O Hobbins cruzou os braços.
«Mas porquê tanto esforço? Porque não deixar as coisas acontecerem naturalmente?»
O capitão olhou para ele com um certo interesse.
«Porque “naturalmente” não funciona quando é preciso governar muita gente diferente ao mesmo tempo.»
Fez uma pausa e depois prosseguiu.
«E é aqui que entra Ernest Gellner. Gellner percebeu que isto não é só uma questão de inventar tradições. É que elas se tornaram necessárias com a modernidade.»
«Ahn?», grunhiu o Hobbins. O Russo olhava concentrado para o capitão e fez sinal ao Hobbins para sossegar.
«Antes da modernidade», continuou o capitão, «não precisavas de criar uma cultura comum. Tinhas aldeias, regiões, línguas diferentes. Isso funcionava porque as pessoas não se misturavam muito. A vida era local.»
«Os romanos tentaram impor uma organização institucional e linguística comum a todo o império, mas estou a ver onde quer chegar,», disse o Russo. E perguntou: «E depois?»
«Depois veio a industrialização. E com ela, tudo mudou.»
Endireitou-se ligeiramente, como se estivesse a alinhar um mapa invisível.
«De repente, precisas de pessoas que sejam móveis, que trabalhem em fábricas, que mudem de cidade, que comuniquem rapidamente com estranhos. Precisas de gente que não dependa de costumes locais para funcionar.»
«Intercambiáveis», murmurou o Lucky.
«Exatamente.», disse o capitão. acenando. «E para isso, precisas de uma cultura comum. Para prevenir dissidências e até motins.»
Olhei para ele e tentei completar o raciocínio: «Língua, educação, referências…».
«Tudo padronizado», continuou ele. «E isso não surge naturalmente. É construído, ensinado, repetido.»
Olhou-nos. Hobbins inclinou-se com um ar aflito.
«Isto soa contraintuitivo… Então, o nacionalismo…»
«Não vem do passado», interrompeu o capitão. «Vem dessa necessidade. Primeiro precisas de unidade; depois constróis uma história que diga que sempre existiu.»
Fiquei a olhar para o mar.
«Há uma coisa que me intriga.», interrompeu o Russo, cruzando os braços. «Falam de tradição como se fosse uma ideia, mas aquilo que eu vejo nas festas são corpos. Gente a mexer-se, a dançar, a marchar.»
O capitão inclinou-se para a frente, de braços abertos, e fez um movimento lento até juntar as mãos defronte dele.
«As festas são o ponto de encontro entre essa necessidade e a sua representação. São momentos em que a cultura comum se torna visível.»
Fez uma pausa.
«As marchas, por exemplo. Aquilo não é espontâneo, é coreografia coletiva. Mais uma vez, é ensaiada, repetida, afinada. Como um instrumento.»
Fez uma pausa a ver se o acompanhavam.
«É a repetição como condicionamento. Porque quando o corpo aprende, deixa de questionar.»
Hobbins endireitou-se como se tivesse acordado de repente.
«Como o…», estalou os dedos, «O… pôssa, como é que ele se chama? O gajo que foi metido na choldra pela PETA por andar a torturar os animais e a tocar campainhas…»
«Pavlov?», propôs o Lucky.
«Isso!», exclamou o Hobbins.
«E os trajes?», perguntou o Russo, com o olhar fixo no capitão e a fazer um gesto para sossegar o Hobbins.
«Uniformes», respondeu o capitão, provocando uma reação de estranheza no Russo. «Isto é como a resposta do militarismo à velha pergunta: como transformar indivíduos num corpo coletivo? A resposta é o ritual. O militarismo desenvolve cerimónias rigorosas, uniformes simbólicos e gestos repetidos, como as saudações, as marchas e os próprios uniformes. Tudo isto cria uma identidade comum e um sentido de pertença, eliminando diferenças irrelevantes.»
O Russo riu-se.
«Nunca pensei ver um arraial descrito como um quartel.»
O capitão fez um sorriso cúmplice.
«E as canções?», continuei.
«As letras são fundamentais.», apontou o capitão. «Simples, repetidas, fáceis de memorizar. Falam do bairro, das pessoas, da cidade. Dizem-te o que deve ser celebrado.»
«Um guião emocional», disse o Russo, a acenar em concordância com a cabeça.
Houve um silêncio.
O Hobbins falou por fim. «Então tudo isso – os passos, as roupas, as músicas — é inventado para controlar e ser aprendido pelas pessoas?»
«Sim», disse o capitão. «E quanto mais cedo aprenderes, menos te lembras de ter aprendido.»
Olhei para ele.
«Talvez a memória coletiva seja só educação esquecida.», apontei.
Ele sorriu.
«A melhor tradição é aquela que ninguém se lembra de ter aprendido.»
Hobbins abanou a cabeça.
«Isso começa a parecer uma prisão.»
O capitão Jackdaw sorriu, quase com ternura.
«Só se tentares sair.»
«E se não tentar?», perguntou o Hobbins.
O capitão fez um sorriso matreiro, a medir a reação do Hobbins.
«Então chama-se cultura.», respondeu, piscando-lhe o olho.
O Hobbins levantou, esticou-se as pernas e virou-se para o mar, como se estivesse a tentar ignorar a conversa. O vento tinha amenizado um pouco, mas o Nómada continuava a avançar com confiança. O Russo recostou-se ao verdugo, as pernas apoiadas no banco.
«E mesmo assim… as pessoas parecem felizes.»
O capitão encolheu os ombros.
«A necessidade é real. Pertencer, repetir, celebrar… isso não é inventado.»
«Só a forma», disse eu.
«Só a forma», confirmou ele.
Hobbins virou-se novamente para o grupo, como se de repente tivesse alcançado algo.
«Então, mas afinal, qual é a diferença entre uma tradição real e uma inventada?»
«A eficácia.», respondeu prontamente o capitão Jackdaw sem ironia.
O silêncio que se seguiu foi longo, mas não pesado. O capitão levantou-se.
«E por falar nisso, está na altura de confirmar a eficiência da afinação das velas e a nossa deriva.»
Olhei o mar escuro e pensei nas ruas de Lisboa, nas luzes, nas sardinhas, nas vozes a cantar letras que ninguém escreveu sozinho. Fiquei a olhar o horizonte. E por um momento pareceu-me sentir o cheiro a sardinhas assadas. Virei-me num sobressalto, mas percebi que era só a memória a tentar pregar-me uma partida. Tal como sabor de uma madalena desperta viagens ao tempo passado, há cheiros que permanecem vivos na mente agarrados a memórias.
Dá cá mais uma sardinha para eu trincar
As canções dos Santos Populares são uma das partes mais reconhecíveis da festa. Passam de boca em boca, de ano para ano, e acabam por soar antigas mesmo quando são adaptadas ou reinventadas
Da rua para a igreja
Os Santos Populares resultam de um processo de reinterpretação histórica de práticas festivas antigas. Fernando Pessoa, nascido no mesmo dia e com os mesmos nomes do padroeiro de Lisboa, rebela-se contra esta apropriação pelo Estado Novo e pela Igreja Católica e tenta evocar o carácter pagão, dionisíaco e popular das festas no tríptico Praça da Figueira.
Cinema tradicionalizado
Durante o Estado Novo, o cinema português desempenhou um papel importante na construção e difusão de uma identidade nacional padronizada e ajudou a fixar uma imagem reconhecível e repetível do que significava ser português, ainda ativa e reconhecível nos dias de hoje
Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:
Santo António (Estátua em Gouveia): by Valentim0106, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Est%C3%A1tua_de_Santo_Ant%C3%B4nio_em_Gouveia.png
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