Ficámos ancorados em Whycocomagh mais tempo do que esperávamos. Permanecemos em casa da Rita Joe dois dias e ela levou-nos a passear pela região. Regressámos ontem ao Nómada demasiado tarde para fazer sentido zarpar. Por isso, decidimos dormir a bordo sem adivinharmos o que nos esperava no dia seguinte.
Quando hoje acordámos, havia uma neblina matinal que parecia uma leve cortina pendurada sobre o lago. Porém, ainda antes de terminarmos o café matinar, transformou-se numa manta espessa, branca como leite e tão densa que o mundo parecia ter-se esquecido da sua forma.
O capitão Jackdaw foi buscar um casaco impermeável azul e passou a manhã a verificar previsões meteorológicas no rádio e a observar a água, como se a superfície plácida pudesse contar-lhe um segredo que os mapas não revelavam. Eu tomava notas num caderno, tentando capturar o silêncio espesso que envolvia o Nómada como uma respiração suspensa.
A Rita passou de manhã cedo e deixou-nos um embrulho de Lusknikn enrolado num pano de linho. Disse que voltaria em breve, mas o nevoeiro parecia ter engolido também o tempo. Foi pouco depois do meio-dia — ou o que julgámos ser meio-dia — que sentimos movimento perto do barco. Um leve tinido, como de sinos distantes, chegou com o vento. O capitão olhou de esguelha, mantendo-se em posição. Depois, um sussurro — ou talvez apenas o som das folhas — passou sobre nós, como uma presença sem corpo. Apesar de não vermos nada, sentíamos algo, como se o nevoeiro estivesse a ser progressivamente povoado. Por um momento, senti alguém caminhar atrás de mim. Porém, quando abri os olhos, apenas o branco absoluto. Nenhuma figura. Só um cheiro suave a terra húmida — o mesmo cheiro que vinha da mochila da Rita. Perguntei-me se os espíritos das vozes enterradas estavam a escutar-nos agora, ou se, pelo contrário, esperavam ser escutados.
Então, uma figura surgiu em terra. Primeiro, apenas um reflexo, como uma falha no tecido branco que nos rodeava. Depois, um som seco, como de passos sobre cascalho húmido. O capitão ergueu-se do banco à popa, meio desconfiado. Eu limitei-me a olhar, sentindo um arrepio que não vinha do frio.
Vimos então uma mulher a avançar até ao pontão, envolta num manto vermelho-escuro, a cabeça, que parecia ter o cabelo rapado, coberta por um pequeno gorro de lã simples. Trazia um saco às costas e uma expressão serena, quase translúcida, como se não pertencesse inteiramente a este mundo.
«O Nómada, suponho?», perguntou, num tom tão calmo que parecia atravessar o nevoeiro sem o mover.
O capitão Jackdaw piscou os olhos. «Depende do que procura.»
Ela sorriu. «Uma pausa. E talvez chá quente.»
Convidámo-la a bordo. Disse chamar-se Ani. Era americana, mas vivia há muitos anos na costa de Cape Breton, em Gampo Abbey. Contou-nos que, depois de ter sido diretora espiritual daquele centro budista durante mais de uma década, decidira retirar-se do ensino e percorrer caminhos menos definidos. “Já não é tempo de ensinar. É tempo de escutar.”
O capitão franziu o sobrolho. «Escutar o quê, exatamente?»
«As vozes que nos atravessam sem pedir licença», respondeu ela, olhando por entre a bruma.
Silenciámo-nos.
O convite para ficar até ao nevoeiro levantar foi feito naturalmente. Ela aceitou com um aceno, pousando o saco discretamente num canto do convés. Depois de beber um chá de urtiga e hortelã, sugeriu que fizéssemos uma meditação sentada, ali mesmo, na coberta, virados para o nevoeiro.
O capitão torceu o nariz.
«Não sou homem de estar sentado muito tempo, especialmente sem fazer nada.»
«É precisamente disso que se trata», retorqui a mulher. «Fazer nada. Ou melhor, fazer espaço.»
Hesitámos. Havia algo no tom dela que nos levou a aceitar — firme sem dureza, com uma paz alcançada apenas por aqueles que conviveram com o conflito, fora do horizonte dos que apenas o evitaram.
«De todo modo, capitão, com este nevoeiro não tem muito mais para fazer.», disse com um plácido sorriso.
Sentámo-nos os três, em triângulo. O capitão cruzou as pernas com alguma dificuldade, soltando um resmungo abafado. Eu mantive os olhos semicerrados, atenta ao ambiente. A monja deu uma breve instrução sobre respiração e atenção plena, depois ficou em silêncio. O mundo, já silencioso, tornou-se ainda mais quieto. A monja mantinha os olhos fechados, imóveis os traços do rosto. Uma lágrima desceu-lhe pela face e, naquele instante, percebi que ela também ouvia algo. Algo que vinha de dentro, mas que ecoava de fora.
O capitão suspirou. Não sei se por impaciência ou rendição.
Quando Ani deu por terminada a meditação, o mundo parecia ter mudado de densidade. O nevoeiro começava, enfim, a rarear, como se o próprio ar respirasse de alívio.
«Foi… curioso», disse o capitão, esfregando os joelhos.
A monja levantou-se com leveza surpreendente. «O que é fascinante é que nem sempre precisamos de ver para perceber.»
O sol, ainda difuso, ensaiava uma aparição por trás da cortina branca. A água ganhava cor novamente. As aves regressavam aos seus cantos. O Nómada parecia mais leve, como se tivesse dormido e sonhado.
«Vamos almoçar?», propôs ela, com um brilho repentino nos olhos. «Tenho um pouco de tsampa comigo. Posso preparar algo quente e simples.»
Retirou do saco uma pequena caixa com farinha de cevada tostada, manteiga vegetal e um pote com chá salgado. Explicou-nos que o prato era tradicional entre os tibetanos nómadas — uma mistura densa, moldada à mão, ideal para climas frios e corações em transição. A cozinha da nossa embarcação nunca cheirou a nada igual. A mistura da tsampa com o chá criou um aroma terroso, robusto e acolhedor. O capitão, ainda desconfiado, foi o primeiro a repetir.
«Afinal, isto enche mais do que parece», disse, limpando a boca.
«É comida para atravessar montanhas», respondeu a monja. «Ou mares.»
Enquanto comíamos, o nevoeiro dissolveu-se em véus finos. Whycocomagh reaparecia aos poucos — os ramos das árvores, os contornos das margens, os telhados das casas à distância. Como se a paisagem tivesse sido lavada por dentro.
«Acho que podemos partir amanhã», disse Jackdaw, saboreando o último pedaço.
«Amanhã será bom», disse Ani. «Hoje ainda há vozes a escutar.»
Não perguntei se se referia às nossas ou às outras. Havia, no silêncio que se seguiu, uma resposta suficiente.
Transe shamânico
Anugama é um músico de New Age conhecido pelas suas composições meditativas e espirituais, com elementos da música asiática, indiana, celta, nativa americana, entre outras tradições. O seu maior sucesso é Shamanic Dream, um álbum que é 2como um batimento cardíaco lento e rítmico que tem um efeito positivo no humor, na energia e no bem-estar psíquico”.
Meditadores experientes conseguem induzir alta sincronização de ondas gama no cérebro durante a prática meditativa. Um estudo revela que essa atividade cerebral diferenciada pode estar associada a mudanças cognitivas e emocionais duradouras
A monja que veio do nevoeiro
Pema Chödrön é uma monja budista americana da tradição Vajrayana tibetana. Desde 1984, esteve ligada à Gampo Abbey, um mosteiro budista no Canadá. Autora de vários livros influentes sobre budismo e transformação pessoal, como When Things Fall Apart e How We Live is How We Die, Pema é reconhecida pela sua abordagem acessível e compassiva ao ensino budista.


