Que desespero estar no mar alto e não ter Internet para poder comunicar contigo ou pelo menos para poder confirmar algumas informações! Acho que voltei a passar por um novo episódio de cruzamento com o passado ou pelo menos com personagens que vêm de outros séculos.
Depois da experiência psicadélica do submarino amarelo, continuava a sentir-me um pouco tonta e, para evitar uma indisposição ainda maior, decidi recolher-me mais cedo sem jantar e descansar um pouco. Acordei com aquela estranha nitidez das manhãs em que o mundo parece já estar a acontecer há muito tempo sem mim, espantada por o capitão não me ter acordado para fazer um quarto à noite. Comecei a preparar-me para o dia e quando estava no salão a beber água ouvi um movimento atrás de mim e senti uma mão na anca, firme, casual, como se me conhecesse de qualquer lado.
«Eh, bela!»
Todos os alarmes dispararam no meu corpo e, confirmando num relance que não era o capitão quem me abordava, puxei a tábua de cortar do suporte por cima do fogão e desferi uma pancada seca na testa da figura por trás de mim com um movimento eficaz. O intruso caiu de joelhos, com um som entre o riso e o susto, e ouvi então os passos do Capitão a descer do convés.
«Não na cabeça!»
O homem estava caído no chão, a camisa branca desabotoada até onde podia, com um bronzeado de catálogo com tatuagens por todo o lado, pulseiras de couro e o sorriso sereno de quem está sempre a ser fotografado.
«Ele… tocou-me.», disse, num tom ríspido.
«Na Sardenha é normalíssimo», justificou o homem com um sotaque vago e um ar ofendido, mas teatral. «Um gesto de simpatia. Não sabia que aqui era diferente.»
Suspirei.
O Capitão ajudou-o a levantar-se, sentou-o à mesa no salão e fez-me sinal para o seguir até ao convés. Depois falou em tom baixo para o homem não nos ouvir no salão.
«O nome dele é Vachia Meli. Vai fazer a travessia connosco até aos Estados Unidos.»
Permaneci em silêncio, à espera de mais detalhes.
«E caiu do céu a bordo?»
O Capitão sorriu, mas não respondeu de imediato. Cruzou os braços, observando o horizonte.
«Estava com o Nemo, mas como ele tinha outros rumos e sabia que eu estava por perto, pediu-me para o levar à Nova Escócia.»
«Nova Escócia. Já não é Boston?»
«Boston é mais tarde.»
«E que é este… farfalla?»
«Antes era conselheiro do Berlusconi.»
Disparei um esgar de espanto na direção do capitão.
«Sim, desse mesmo. E depois tornou-se influenciador, dos que fazem vídeos de óculos escuros e dão conselhos chauvinistas para os homens que querem “viver a melhor vida”. Agora quer mudar de carreira.»
«E decidiu fazer isso na Nova Escócia?»
«Disse que precisava de isolamento primeiro e de ver as estrelas sem filtros.»
A última frase ficou a ecoar dentro de mim. Ver as estrelas sem filtros. Havia ali qualquer coisa fora de lugar.
O homem subiu ao convés, de smoothie na mão, camisa aberta e aquele sorriso automático que nunca desliga. Sentou-se com elegância e começou a falar sobre liderança, carisma, poder, desejo, obediência. Os exemplos que dava pareciam uma mistura de história copiadas de livros com outras de filmes. E no entanto, o vocabulário era familiar.
«Não estava à espera de que o capitão deixasse vermes como este meterem os cotos a bordo», quis dizer, mas sem sucesso. Afinal, o barco não era meu e, em rigor, eu era um tripulante como os restantes.
«Vejo pela sua cara que está surpreendida, mas não é aquilo que pensa. Aqui o Vacchia vai a caminho dos States para dar um novo rumo à sua carreira.», disse o capitão, dando umas palmadas leves no ombro do italiano.
«Não me parece que haja falta de estrume para alimentar certas ideias políticas americanas.»
«Eu não me expliquei bem. Ele vai mudar de carreira.»
Mantive a expressão de desprezo. «Qualquer mudança será só para satisfazer uma necessidade imediata de dinheiro ou de poder.», disse para mim própria.
Vacchia Meli fixou de novo o seu sorriso cerrado em mim e depois, inchando ligeiramente o peito com ar, disse com a crista acachapada do gelo que tinha posto na testa.
«Eu vou ser treinador de wrestling.»
Olhei para um e para o outro a tentar perceber se tudo aquilo era um gozo e percebi que era a sério. O capitão fez-me sinal se queria também uma bebida e assenti com a cabeça. O Vacchia ficou em pose para os fotógrafos imaginários, como se a sua revelação tivesse tido um impacto dramático. Pouco depois, o capitão estava de volta com duas latas de Ginger Ale e dois copos com rodelas de limão
«Diga-nos lá, amigo Vacchia , o que o levou a virar-se para o wrestling?», perguntou o capitão, recostando-se na popa como quem vai ver um filme, de copo na mão. Eu permanecia mais próxima do leme, de olho no piloto automático, a controlar o rumo na ondulação tranquila.
«Ah, o velho motivo de sempre. Após todos estes anos a batalhar na cena política, percebi que o verdadeiro palco para alcançar a honra e a glória é o ringue do wrestling. Embora a minha virtù seja ainda pujante» – e, ao dizer isto, voltou-se para mim! – «já não estou no meu primor físico. Além disso, penso que terei mais valor a orientar os outros atletas.»
«Sim, agora percebo o porquê de ser treinador em vez de atleta. E o que é que tem para lhes oferecer?», perguntou o capitão com ar atento.
«Novos estilos de combate, por exemplo. Tradicionalmente, os lutadores assumem um papel e tentam moldar as circunstâncias à sua personalidade, mas eu advogo o inverso. Por exemplo, devem adotar o estilo do leão quando querem intimidar o adversário, mas reverter para o estilo da raposa quando o querem atrair para uma armadilha.»
Pareceu-me familiar aquela referência.
«O importante é mantenere lo stato.», prosseguiu. «Qualquer atleta que deseje manter a sua posição no ranking tem de aprender que os fins justificam os meios. E as regras do wrestling convidam a explorar todos os recursos no ringue. Todas as malevolências são permitidas desde que o objetivo seja a estabilidade, quer do atleta no combate, quer do próprio espetáculo.»
«Do próprio espetáculo?», repetiu o capitão sorridente. Parecia estar a divertir-se com a conversa.
«Sim. Estou a referir-me à multidão que sustenta o wrestling. Embora seja permitido ao atleta fazer tudo dentro do ringue, ele tem de ser visto pelos espetadores como tendo boas qualidade, como compaixão e integridade, sem revelar que é, na verdade, um grande mentiroso e hipócrita.»
Ia intervir, mas o capitão sossegou-me com um gesto da mão.
«A populaça é tão ingénua e está tão dominada pelas suas necessidades imediatas que um hábil impostor encontra sempre público pronto a se deixar enganar.», prosseguiu o Vacchia, visivelmente entusiasmado. «Eles sabem que o que veem no palco é um circo, mas abraçam a fantochada com tanto entusiasmo que são capazes de tudo para defender os seus ídolos. O importante é manter as mãos fora das suas posses, ou das suas mulheres.» Virou-se novamente para mim com um sorriso sinistro. «Os homens esquecem mais cedo a morte de um pai do que o dinheiro perdido no bilhete de um mau espetáculo de wrestling.»
O capitão sorria visivelmente satisfeito.
«Eu vou trazer a virtude ao wrestling, a verdadeira virtù.» Dizendo isto, espetou o “digitus impudicus” para o céu. «Não podemos deixar a luta ao sabor do destino. A fortuna favorece os bravos, a sorte sorri aos audazes.» Fechou os punhos de braços arqueados.
«Os brutos e os incapazes» retorqui baixo para mim própria.
«A Fortuna é uma mulher que tem de ser domada à força e gosta daqueles que a seguram pelas rédeas.», vociferou.
Eu fervia cada vez mais; o capitão continuava focado no discurso, como se medisse cada palavra.
De repente, senti um reconhecimento a atravessar-me o cérebro de um hemisfério ao outro.
«São ideias de Maquiavel», murmurei, quase sem dar por isso.
O Capitão levantou a mão como quem manda calar sem ofensa.
«Não é Maquiavel. É Vachia Meli. Lembre-se do nome.», sussurrou o capitão.
Fiquei calada. Mas cá dentro, uma pequena desconfiança começava a germinar. Não era só a maneira como ele falava, era o ritmo, a precisão, o cálculo por detrás da sedução. A sensação de déjà vu era demasiado forte para ser ignorada. Seria possível que ele fosse?… O Silva tinha razão, afinal. Talvez os tempos se cruzem, se desdobrem. Talvez certas figuras se inscrevam na realidade como fractais e voltem a aparecer, com novas roupas, outras vozes, mas a mesma lógica implacável por trás dos olhos. O Capitão parecia adivinhar os processos mentais na minha mente e antecipou-se.
«Eu sei o que está a pensar. Falamos mais tarde, okay?», murmurou, voltando de seguida a atenção ao novo tripulante.
O Vacchia Meli estava cada vez mais empolgado, indiferente à troca de palavras entre eu e o capitão.
«E mais! Eu quero trazer um elemento religioso ao wrestling! A religião pode ser usada para inspirar e aterrorizar a populaça. Tal como os generais romanos anunciavam que os augúrios eram favoráveis à vitória, os lutadores devem aceitar e ampliar tudo o que é religioso. Mesmo sabendo que a religião é uma grande peta, devem afirmar que Deus, seja ele qual for, está com eles!»
Levantou-se elétrico, um dínamo modernista fascizoide, com os braços abertos no ar. E ao mesmo tempo que o capitão se movia para o fazer sentar, a retranca rodou para meia nau e atingiu o Vacchia na cabeça, deixando-o inconsciente.
«Ups…», soltei com agrado.
«Não na cabeça!», gritou o capitão, socorrendo-o. «Outra vez?», suspirou, olhando de relance para a minha mão no leme.
«Deve ter sido um salto de vento.», sugeri.
«Isso ou a mão de Deus do Maradona», ironizou o capitão.
Regressei do salão com gelo, enquanto o capitão acomodava o Vacchia da melhor forma possível, a recuperar os sentidos lentamente.
«Você tem noção de que tudo aquilo que ele disse é uma adaptação rasca do livro O Príncipe, publicado há seculos», protestei.
«Eu não publiquei nada. Era uma carta de motivação que eu escrevi para um emprego.», murmurou.
«Shhh, tente não falar.», aconselhou o capitão.
«Eram outros tempos. Os manuais políticos clássicos, o Quique, o Séneca, todos diziam para seguir a moral e a virtude. E contudo, a minha cidade, a minha república, a minha terra era devassada por todas as potências estrangeiras.»
«Calma, homem. Deixe lá isso. Em breve, está no mundo do wrestling.», sossegou o capitão. E depois sussurrou, piscando o olho para mim. «Antes aí do que na política. Faz menos danos.»
O Vacchia, ainda combalido, desceu para o interior, aparado pelo capitão. «Por favor, tome conta do leme. Estamos a aproximar-nos da costa e esta é uma zona de mudanças súbitas de vento. Já volto para conversarmos.»
Fiquei sentada ao leme, a tentar fazer sentido do número que tinha visto e a escrever-te esta mensagem. Mesmo agora, depois de pôr o relato em texto, não quero acreditar no que se passou. Quem é este Vacchia Meli? Um chauvinista moderno com as mesmas ideias de Maquiavel ou será possível que seja uma reencarnação dele próprio? Seja reecarnação ou perpendicularização ou lá o que for, o capitão tem de explicar o que é que ele estava a fazer no submarino do Nemo. Ou cargueiro. Bolas, já nem sei! E os outros três, começam a parecer familiares também… Serão outras perpendicularizações? O que é que lhes estará a acontecer no submarino?
Vem aí o capitão.
Maquiavélicos
Inúmeras figuras seguem, de uma maneir ou ou outra, uns mais do que outros, o comportamento proposto por Maquiável. Porém, ao contrário do que o pensador renascita defendia, esse comportamento visa apenas satisfazer os seus interesses pessoais e não os do público ou da sociedade.
Vacchia Meli
Nicolau Maquiavel rompeu com a tradição moralista da filosofia política ao analisar o poder tal como ele é exercido no mundo real.
"Wanna Be" Maquiavéis
Vários livros têm apresentado princípios sem escrupúlos que, sendo seguidos sem escrúpulos, irão assegurar o sucesso de quem os lê. Entre os que têm mais destaque estão aqueles que constituem a espinha mielopática espondilótica da manosfera.
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