Cheguei agora a casa depois do encontro com o Silva. Ele estava à minha espera na Adega dos Frades, sentado na sua mesa habitual, junto à parede de azulejos gastos, com a bengala encostada ao tampo da mesa de madeira.
Não te acontece sentires que estás a regressar a um sonho quando vais a certos sítios familiares? As memórias acumuladas confundem-se umas com as outras, frases e gestos sobrepostos não se distinguem bem e parecem pertencer a momentos diferentes e ficamos sem saber se o que pensamos ter acontecido é uma única memória ou uma combinação de várias. Foi esse estranhamento que senti quando me encontrei com o Silva, parecia estar a reviver um conjunto de memórias misturadas com algo novo, uma anacronia no presente, e não consegui ainda situar o quê. Suponho que tenha a ver com tudo o que tinha sucedido antes.
Talvez tenha sido por nos termos encontrado na Adega. O facto de ser no andar térreo do edifício da pensão é motivo suficiente para me perturbar; além disso, mantém-se muito semelhante ao que era, não tanto como certos monumentos conservados, mais como um portal ativo para outras eras, mantido por um grupo secreto de acólitos.
Pouco mudou desde a última vez que fui lá. A Adega continua a ser um espaço onde o tempo passa mesmo devagar, detendo-se numa mesa a tomar um trago, noutra a discutir as notícias, mais adiante a atrasar-se numa partida de sueca e a adiar a saída para mais um copo e uma história. As paredes são guardiãs de memórias fotográficas, onde clientes de eras passadas surgem alinhados em poses de brinde e a vizinhança aparece em procissões festivas nas marchas dos Santos Populares. Nos espaços vazios entre as fotografias, estão penduradas duas dúzias de galhardetes de equipas de futebol amador e dois anúncios desbotados na Martini.
Ao balcão, estava o Manel dos Frades, a servir bebidas e comida com uma perícia ensaiada pelo hábito, com o mesmo riso fácil… mas a barriga mais farta do que ontem! Por cima, o letreiro de sempre, que ele insistia em não corrigir: “As bebidas expostas são para consumo da casa”. De nada servia eu dizer-lhe que, com aquela preposição, dificilmente as bebidas servidas ao copo lhe dariam lucro! Como se costuma dizer, voltei ao local do crime, não apenas um lugar físico, mas um pedaço da minha própria história, impregnado de recordações.
«Queres alguma coisa para comer? Pedi uma bifana e um traçadinho para mim.», disse-me o Silva, quando me sentei.
«Não, obrigado.» Hesitei, à procura da justificação mais cordial. «Estou a cortar com a carne.»
Ele fez um leve sorriso. «Eu compreendo. Fazes bem. Provavelmente, não é tarde para eu fazer o mesmo, mas não tenho vontade de lutar contra velhos hábitos nesta fase da minha vida.»
Eu própria tinha tido essa dificuldade. Ao sentir o cheiro das bifanas no ar, prazeres passados estimularam o meu apetite. Contudo, apesar de não tentar suprimir nem renegar essas memórias, conseguia agora distinguir, nesse aroma, os traços viscosos de ingredientes prejudiciais para a saúde humana e para o próprio bem-estar do planeta e, sobretudo, o sofrimento desnecessário de animais. Comer deixou de ser um simples instinto, tornou-se um ato político.
«Aqui está a bifana e o traçadinho, Silva.» Era o Manel dos Frades. Pousou o prato e o copo na mesa e virou-se para mim. «Bem me parecia que eras tu, estava a reconhecer-te pelas costas. Como é que estás?».
Esperava que ele dissesse algo sobre a noite anterior, mas foi como se o nosso encontro não tivesse acontecido. Mirou-me por uns instantes com o sorriso embaraçado de sempre – desde a nossa infância, o Manel insistia em tentar conquistar a minha atenção – e respondi com um encolher de ombros.
«O que é que vai ser para ti? Queres que faça uma sandes de tofu à maneira dos frades?»
Desde que colocou uns pratos veganos no menu, estava sempre a brincar com o anacronismo culinário.
«Pode ser, mas sem traçadinho a acompanhar, apenas uma água com gás.»
«Ah, ah, estou a ver pela tua cara que tiveste uma noite animada.»
Observei-o com intensidade, a ver se revelava algo.
«Ok, ok, não precisas de olhar assim, ninguém está aqui para julgar.», amenizou, com um riso nervoso, regressando ao balcão para preparar o meu prato.
«E então, responde lá à pergunta, como é que tens estado?», inquiriu o Silva.
Num instinto defensivo, comecei a explicar como tenho andado cansada e a lamentar o quão perdida me tenho sentido nos últimos meses, sem rumo, mais encalhada do que à deriva.
«Jesus, até parece o refrão de um faduncho dos pescadores! Se vais usar metáforas náuticas, tens de saber que podes estar encalhada por causa da maré. Quando mudar a maré, desencalhas, filha.»
«Não é assim tão fácil. E o mais certo é, depois da mudança da maré, encalhar num cabeço logo a seguir.»
«Pois, são os escolhos. Ainda estamos a falar metaforicamente, não estamos?»
«Não sei. Sinto um vazio de sentido, é tudo. E quando olho ao espelho, não me reconheço. Nada do que faço me parece real, é como se tivesse perdido o contacto com a minha verdadeira identidade.»
«Andas a ler muita palha na internet. Não tarda muito, estás a papaguear que cada um deve descobrir o seu verdadeiro “eu” e a maneira única e pessoal de o expressar.»
Olhou para o prato com a comida, visivelmente a resistir começar a comer sem que eu também estivesse servida. Talvez por isso, continuou a protestar.
«No meu tempo, os livros de autoajuda tinham o objetivo de nos transformarem em algo diferente de nós próprios, como “ser mais sociável” ou “pensar positivamente”. Agora, os autodenominados “life coaches” vendem a ilusão de que dentro de nós repousa uma essência esquecida, ou ocultada pela malévola sociedade, e que, quando a redescobrirmos, seremos mais autênticos.»
Senti movimento atrás de mim. O Manel regressou com o meu prato. Interrompemos a conversa e atacámos a comida.
«Ah, isto é que é felicidade, não é?», exalou o Silva com uma dentada.
Sentados frente a frente, inclinados sobre os pratos de esmalte lascado, parecíamos conspiradores silenciosos. O Silva mordia com uma lentidão quase cerimoniosa.
«É a placa, torna tudo mais difícil», explicou com um breve riso.
Depois de saciados, passámos então aos eventos da última noite. Contei ao Silva o mesmo que a ti, talvez com detalhes mais gesticulados e, em alguns momentos, com as emoções um pouco à flor da pele. Ele escutou-me pacientemente, interrompendo-me apenas para confirmar um ou outro detalhe. No final do relato, olhou pela janela, apontando para uma montra, no outro lado da travessa, com cortinas brancas esgaçadas e sujas e um letreiro vermelho colado na vitrina, de letras grossas e pretensamente joviais a anunciar “Trespassa-se”.
«Então, foi ali que fizeste a tatuagem?», perguntou-me.
Acenei-lhe com a cabeça, sem ousar abrir a boca, temendo que qualquer palavra provocasse um novo e inquietante fenómeno.
Fitou-me a medir-me a expressão, o olho são com a húmida tranquilidade da velhice, o olho cego azulado virado para dentro em permanente introspeção. Sabes como ele é, com aquelas pausas demoradas, como se estivesse a escavar sentidos nas palavras mais banais. Depois sorriu e disse:
«Acho que sei o que se está a passar contigo. O melhor é conversarmos enquanto andamos, à maneira do mestre Sócrates.», decidiu.
Era sinal de que a conversa ia ser longa. Caminhámos pela baixa de Setúbal, com o Silva a expor-me diferentes perspetivas sobre as noções de identidade e do eu. Se quiseres, podes ler aqui os detalhes da nossa conversa. Terminámos o passeio peripatético defronte do cineteatro Luísa Todi, sentados num banco de jardim, o Silva a segurar a bengala entre as mãos.
«A analogia do Eu como uma narrativa é, na minha opinião, a mais satisfatória das diferentes definições, transversal a tantas áreas do pensamento. Construímos sentidos através de narrativas, explicando o mundo com recurso a histórias, e o mesmo processo é usado para criarmos identidades. Estou a referir-me à dimensão pessoal da narrativa individual que cada um faz da sua vida, em que somos simultaneamente narradores e matéria narrada, dando à nossa existência coesão e coerência.»
Acenei com a cabeça para indicar que estava a seguir a ideia.
«Nós somos criaturas situadas no espaço e no tempo e o presente é vivenciado não como o verdadeiro tempo, mas como o contexto da ação onde o passado e o futuro se interseccionam. E essa ação, minha filha, quando olhas para o palco da vida, como o desse teatro aí em frente, essa ação tem lugar num cenário cultural e entrecruza-se com as narrativas de outros atores. O nosso “Eu” não está escondido dentro de nós à espera de ser resgatado, está na história que contamos do nosso passado e naquilo que tentamos fazer com o nosso futuro.»
Parou outra vez a ver se eu dizia alguma coisa. Confesso que estava a ficar aturdida com a reflexão, mas indiquei ter percebido a metáfora.
«É mais do que uma metáfora.», clarificou. «Suspeito que, sem te teres apercebido, a tua crise de identidade agravou-se ao ponto de criar uma singularidade no teu plano narrativo. Nada demais, uma inclinação mínima, mas o suficiente para começares a cruzar-te com planos narrativos de diferentes pessoas e personagens.»
E então, possuído por um entusiasmo atípico de alguém com a idade dele, o Silva explicou em detalhe o que terá sucedido na biblioteca e em todos os momentos depois disso. Podes ler aqui a explicação completa e detalhada, que reconstruí depois com o Silva.
De modo sucinto, a minha narrativa pessoal, e a de todos nós, é constituída pela interligação entre diferentes pontos situados em paralelidades e em sucessivos planos narrativos alinhados verticalmente em diferentes momentos no tempo. Houve uma anomalia denominada perpendicularidade, que fez com que momentos da minha narrativa pessoal se movessem para planos narrativos no passado, regressando depois com uma tatuagem que seria impossível de fazer no presente.
«A melhor metáfora que conheço, e a mais deliciosa, é a do bolo mil folhas.», disse o Silva, a tentar tornar toda explicação mais digerível. «Cada folha é uma paralelidade e a configuração da narrativa pessoal é o creme entre elas. Quando dás uma dentada num mil folhas, não é só o creme da camada onde a tua boca toca que é afetado. Todo o creme nas outras camadas, isto é, todas as configurações da narrativa pessoal nas diferentes paralelidades se deslocam. Às vezes, a narrativa sai toda para fora!», riu-se, com uma expressão gulosa que me fez lembrar o anúncio do Boca-Doce.
Aparentemente, este efeito retroativo e proativo das narrativas pessoais terá surgido devido a uma torção na minha identidade. Porém, não é um exclusivo meu.
«As paralelidades não são espaços privados. Elas são infinitas sucessões de infinitudes onde podem ocorrer potencialmente todo e qualquer plano narrativo de qualquer entidade, além de outra matéria e eventos que ainda estão por ser identificados. O que significa que, do mesmo modo que as tuas configurações narrativas podem ocorrer em duas paralelidades diferentes, também as configurações narrativas de outros podem ser afetadas, de certa maneira, por essa perpendicularidade. E havendo um deslizamento do plano narrativo, poderá acontecer que narradores do passado ou mesmo do futuro se cruzem connosco no presente.»
«Quer dizer que vou ver gente morta?», retorqui com surpresa.
«Não necessariamente morta. E em rigor, essas configurações narrativas têm a mesma consistência geométrica, chamemos-lhe assim, que as denominadas originais dessa paralelidade. Narrativamente, estão bem vivas.»
«Estás a dizer-me que o casal francês e os amigos deles são de outras… para-le-li-dades?»
«Acredito que sim. Aliás, tudo quanto é possível ser narrado pode ter configurações narrativas e, desse modo, a tua amiga Ms. Lortz pode muito bem ser a Ms. Lortz…»
Senti um forte arrepio a rasgar-me a espinha até à base da nuca e virei-me para o outro lado da avenida, onde estava o edifício da biblioteca. Suponho que a minha cara traduziu a profunda ansiedade que tudo aquilo me provocava e o medo alimentado pela incompreensão do que se estava a passar.
«Eu sei que tudo isto é assustador. Infelizmente, este fenómeno global das perpendicularidades parece ter começado há algum tempo devido a uma mutação da configuração cósmica à volta do nosso planeta. Talvez suceda até noutros planetas, mas isso não conseguiremos saber.», disse o Silva. E depois adiantou. «Há quem esteja a tentar agir e encontrar soluções.»
Mas eu já não estava a prestar atenção. O problema da narrativa cósmica começou a dar-me vertigens e acabei por me focar no que estava à minha volta e na minha narrativa pessoal.
«E o que faço então? Resolvo o meu problema de identidade? Tento corrigir a perpendi.. o… o plano narrativo?»
«É simples: abres a caixa para ver se está lá o gato»
Riu-se como louco. Eu sorri por contágio, mas não percebia nada.
«Já ouviste falar de uma técnica de terapia chamada “suspensão da descrença”?» Fiz sinal que não com a cabeça. «Foi desenvolvida por dois ingleses, um pedopsicólogo chamado Billy Wordsworth e um psiquiatra de nome Sammy Coleridge, que trabalha com dependência de substâncias. Aquilo que eles promovem é uma abordagem que visa provocar, num primeiro momento, o transbordo espontâneo de poderosos sentimentos e, posteriormente, a recoleção dessas emoções em tranquilidade. Para isso, levam os pacientes a suspenderem a sua descrença e a deixar que a imaginação flua e estabeleça o sentido daquilo que é verdadeiro.»
«Ó Silva, não queria andar a tomar comprimiditos para alucinar… Já me bastaram as de ontem à noite, que deixaram literalmente marcas na pele.», brinquei.
«Não é preciso tomar nada. Basta suspender a descrença e deixar a imaginação transbordar os limites que habitualmente lhe impomos. Há um conjunto de preceitos a seguir, algumas estratégias de controlo e certas ferramentas para controlar e orientar o processo terapêutico.»
«E há alguém que faça esse tipo de terapia cá?»
«Pessoalmente, não conheço ninguém. Mas melhor do que especialistas, conheço alguém que está na mesma condição que tu. E acredito que poderão trabalhar em conjunto.»
«Como eu? A sério? E fazemos o quê? Terapia de grupo?»
«Talvez algo diferente.»
As mãos do Silva pousaram sobre as minhas, o frio dos ossos a perpassar pela sua fina pele. Soltou uma leve gargalhada que lhe chocalhou o frágil corpo. Depois, fixou-me um olho húmido de compaixão e outro, o azul de cegueira, trocista. «Não procures ajuizar tudo isto, é demasiada física quântica misturada com a incerteza narrativa.»
Riu-se novamente e depois disse num tom mais sério.
«Mesmo no momento da nossa morte, prematura ou esperada, nada garantirá que as nossas vidas façam sentido. Nós somos atores, espíritos que se dissipam em ar imaterial, dizia o bardo. E como a insubstancialidade deste banco, daquelas árvores, do próprio céu que nos cobre, tudo se dissolverá sem deixar rasto. Somos da mesma matéria dos sonhos e as nossas vidas desvelam-se num sono».
Fiquei a olhar para ele com um olhar perdido.
«Aquilo de que precisas é de narrar a tua história. Deixa-me falar com esse meu contacto. Tentarei dar novidades esta semana, não te preocupes. Por agora, chega de conversas de velho. Vá, vai à tua vida. Ah, e atenção, evita o contacto com estranhos nos próximos dias, está bem?»
Lembrei-me imediatamente da promessa feita dos encontros para os pedidos de desculpa, provavelmente outros cruzamentos de narrativas ou conjunturas narrativas ou o que seja, e decidi que não iria pôr os pés na biblioteca. Não me importo que façam queixa e me suspendam. Até ter a certeza de que a Ms. Lortz não está lá, não tenho intenções de me aproximar daquele local. Ainda tenho muitos livros para ler em casa.
Levantei-me e uma voz clamou a atenção do Silva.
«Idalécio!»
A cara de surpresa do Silva transformou-se num enorme sorriso. Deixei-o com o amigo que se lhe juntava e acelerei o passo de regresso a casa. Não sei qual é o plano do Silva, mas ele tem razão: tenho de me narrar. Preciso de ser algo mais do que apenas uma personagem na história de outras pessoas. Vamos ver o que me espera.
Nem tudo chega às nossas mãos
Pode ser uma canção sobre amor, política e drogas, mas o seu possível tom negativo de resignação não implica que não tentemos ter aquilo que queremos.
Suspendam as descrenças
William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge foram dois dos principais poetas do romantismo inglês. Amigos e colaboradores, revolucionaram a poesia com a publicação conjunta de Lyrical Ballads (1798), obra que marcou o início do movimento romântico na literatura inglesa.
A vida está nas tuas mãos
Mesmo que tudo esteja predeterminado ou que o mundo seja um caos aleatório, alguma parte da nossa vida está nas nossas mãos. «It’s my life»
Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:
Rolling Stones: Raph_PH https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rolling_Stones_bow_post-show,_London,_22_May_2018_%2841437870545%29.jpg
Talk Talk: “Mark Hollis-onstage 3” by Dr. Space, CC BY 2.0
Wordsworht and Coleridge: https://www.biografias.es/famosos/william-wordsworth.html
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