Jun 19, 2026

Maquiavélicos

Elon Musk tem tido a sua narrativa reescrita conforme as circunstâncias. Declarado como fundador da Tesla através de um acordo judicial, Musk só se juntou à empresa como seu diretor cerca de 5 anos após a fundação da empresa, embora tenha investido dinheiro na Tesla um ano e tal depois da  criação da empresa de veículos elétricos. Outra grande parte da sua imagem pública foi construída como opositor da burocracia estatal e defensor do empreendedorismo independente. Contudo, empresas como a Tesla e a SpaceX beneficiaram ao longo dos anos de contratos governamentais, incentivos públicos e subsídios ligados à energia limpa e à exploração espacial.

O alegado criminoso e influenciador Andrew Tate, réu em processos na Roménia e no Reino Unido relacionados com alegações de tráfico humano, crime organizado, branqueamento de capitais, violação e agressões, apresenta-se frequentemente como alguém que diz as verdades incómodas e rejeita filtros sociais ou políticos. Contudo, a sua imagem pública é a de uma personagem deliberadamente exagerada, concebida para provocar reações emocionais fortes e maximizar a atenção mediática. A polarização, o simbolismo de força e a construção de uma identidade controversa podem ser ferramentas eficazes para conquistar influência sobre uma audiência e, simultaneamente, assegurar alguns anos na prisa.

Nem todos os modernos maquiavélicos são homens. Kim Kardashian assenta o seu sucesso na ideia de proximidade com o público. As redes sociais e os reality shows dão a impressão de acesso direto à sua vida pessoal, às suas emoções e à sua família. No entanto, essa exposição é cuidadosamente selecionada, transformando a intimidade numa ferramenta de influência. Tal como Maquiavel aconselhava a necessidade de parecer e não tanto de ser, Kardashian construiu uma imagem de autenticidade que reforça a ligação emocional com milhões de seguidores, ao mesmo tempo que fortalece os seus negócios e a sua posição cultural.

 

Mas o principal exemplo de uma figura maquiavélica contemporânea é o atual presidente dos E.U.A. Donald Trump. Como é defendido neste artigo do blogue The Loop publicado pelo European Consortium For Political Research, a ideologia de Donald Trump não é simplesmente uma forma de realismo político.

A diferença fundamental está no facto de que os realistas clássicos, como E. H. Carr, continuavam a atribuir algum papel à moral na política externa, procurando conciliá-la com os interesses nacionais. Trump, pelo contrário, age de forma amoral: as decisões são avaliadas exclusivamente pelos benefícios que trazem aos Estados Unidos e, acima de tudo, a si próprio e à sua família e amigos, sem preocupação com quaisquer princípios éticos.

Tal como em O Príncipe, a política é vista como um exercício de preservação e aumento do poder, em que os fins poermitem justificar os meios e a moralidade é secundária. O objetivo da política externa passa a ser exclusivamente maximizar os interesses pessoais e empresariais, independentemente dos custos para os outros países.

No vídeo abaixo, o Professor Quentin Skinner, co-director do Centre for the Study of the History of Political Thought da Universidade Queen Mary de Londres, faz uma curta introdução ao pensamento apresentado no livro O Príncipe e explica porque é que a grande maioria dos líderes políticos contemporâneos seriam considerados corruptos pelo próprio Maquiavel. 

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Cartoon de Donald Trump por Ben Jennings no jornal The Guardian: https://www.theguardian.com/commentisfree/picture/2025/jun/19/ben-jennings-donald-trump-dilemma-over-the-israel-iran-conflict-cartoon

 

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