Chegámos a Peggy’s Cove, na costa da Nova Escócia, no Canadá. O céu estava limpo, mas o ar trazia aquele frio cortante que só o Atlântico Norte sabe soprar. Sinto uma ligeira vertigem ao pensar nas milhas de oceano que nos separam, cada um de nós de um lado diferente do Atlântico. O mundo cresce à medida da nossa consciência, no reconhecimento de rotinas desfasadas em locais diferentes: uma enfermeira na Califórnia que sai de casa para o trabalho com os filhos que deixará na escola, um taxista na Nigéria que exaspera com as filas de trânsito do final da tarde em Lagos, um funcionário de uma bomba de gasolina em Alice Springs que termina o turno com o nascer do sol na Austrália… Recordo-me daquele filme de Jim Jarmush que vimos no Luísa Todi com o título “Uma noite na Terra” ou algo parecido. Diferentes culturas certamente, mas as dimensões básicas de espaço e tempo separam-nos: horas de acordar para ti quando ainda estou a meio do sono; pequeno-almoço aqui quando almoças aí.

Falando de pequeno-almoço, eu e o capitão largámos o lunático do Vacchia Meli no cais a apanhar um táxi para Halifax, deixámos a bagagem e roupa suja na hospedaria “The Breakwater” – linda casa com imensas janelas junto à estrada principal, virada para a minúscula enseada – e fomos em busca de comida no restaurante junto do farol. O cheiro a salitre e a maré baixa misturava-se com o aroma distante de pão torrado vindo de alguma cozinha invisível. Não havia que enganar, há apenas uma rua principal e meia dúzia de caminhos de gravilha para as poucas casas não alinhadas junto à estrada.

O restaurante chama-se “SouWester” e está aberto há mais de 50 anos, como prova a arquitetura do edifício com longas tábuas brancas de madeira a revestirem as paredes exteriores e um peculiar telhado escuro de onde saem várias janelas de estilo colonial. Quem quiser comprovar há quanto tempo se sustenta aquela casa no pequeno morro rochoso junto ao farol poderá utilizar a cabina “Tardis” em cor Ferrari colocada junto da entrada do restaurante. O amplo espaço aberto no interior tem um caráter mais funcional, criado para recolher na sua floresta de mesas e cadeiras os grupos de visitantes que chegam aos magotes em autocarros estacionados nas traseiras.

Esta manhã, porém, nenhum visitante tinha chegado. O silêncio era quase cerimonial, quebrado apenas pelo ranger suave das tábuas sob os nossos passos. No interior, não havia ninguém além da empregada que nos deu as boas-vindas e de duas pessoas sentadas a uma mesa junto à janela, de costas voltadas para nós, um homem com um chapéu de palha quase tão largo como um “sombrero” e outro com uma boina vermelha a deslizar para o ombro esquerdo. O capitão fixou o olhar por uns instantes e fez-me sinal para o acompanhar.

«Bom dia, capitão Slocum.»

As cabeças viraram-se e as caras sorridentes de dois velhotes surpreenderam-me. Os seus rostos estavam marcados pelo tempo, mas os olhos brilhavam com uma juventude que só a memória preserva.

«Jackdaw, bem-vindo à Nova Escócia! Bom dia, menina. Sentem-se, sentem-se.», disse o homem do sombrero, apontando para os lugares em frente do par. «Devem estar esfomeados. Vamos já mandar vir o pequeno-almoço do capitão para vocês.»

«Só para mim. A menina alimenta-se à base de plantas, nada de origem animal.»

Os dois velhotes fizeram um sinal de aprovação e sorriram-me.

Mal nos tínhamos acomodado às cadeiras de madeira, a empregada trouxe um prato com três ovos estrelados, rodeados de bacon, bolinhos de peixe e salsichas, tostas e batata palha frita aglutinada com cebola e ovo, algo que dá pelo nome de “hash browns” e que é, provavelmente, uma bomba calórica e um entupidor de veias. Certamente delicioso. O meu prato, menos comum, ainda estava a ser finalizado.

«Este é o Bill, mas é mais conhecido por deGarthe. Um artista de Peggy Cove que retratou, melhor do que ninguém, o que é ser um homem do mar na Nova Escócia.»

«É parecido com ser um homem do mar na costa ocidental da Finlândia.», sorriu o homem da boina.

«O nome pode parecer local, mas o Bill é um finlandês de nascimento e no coração. E por pouco brasileiro!», riu o capitão Slocum.

«Estava à procura da terra mais bonita do mundo e acabei por a descobrir aqui, na Nova Escócia. E tu também andaste por lá.» Virou-se para nós e contou em tom de confidência. «Este homem pegou nos destroços de um barco, construiu uma nova embarcação e regressou com a família do Brasil para os Estados Unidos.»

«Ah, não vamos começar, Bill. Os nossos convidados não vieram cá para isso, não foi? Temos todos os dias do mundo para nos sentarmos aqui a contar histórias um ao outro.»

O capitão Slocum fez perguntas genéricas sobre a viagem – como esteve o tempo, se o vento foi favorável e as vagas confortáveis – e nem uma palavra foi dita pelo capitão Jackdaw sobre os tripulantes a bordo, o encontro com o trimaran à deriva ou a emersão do “Nautilus” com uma banda sonora a evocar alucinações no céu. Mantive-me em silêncio ocupada a saborear o pequeno-almoço. Chávenas de café de sabor forte selaram os estômagos, que iniciaram os seus trabalhos de digestão, libertando as bolsas de ar ingeridas com as garfadas.

«Olha, Bill, porque é que não levas esta jovem a ver o monumento aos pescadores que fizeste perto da tua casa, enquanto eu ponho a conversa em dia com o jovem capitão Jackdaw?»

Os dois ficaram sentados, debruçando-se sobre a mesa quando o capitão Jackdaw mostrou ao velho lobo do mar algo de um pequeno caderno preto que trazia no bolso. O homem da boina vermelha levou-me pelo braço até ao exterior, mostrou-me o farol e caminhámos de volta para Peggy Cove, passámos a nossa estalagem e chegámos a uma casa revestida com tábuas brancas.

«Levei alguns anos a fazer esta escultura», disse, apontando para uma linha de pedra branca no jardim ao lado da casa. Ao aproximarmo-nos, comecei a ver as figuras em relevo de pescadores e das suas presumíveis mulheres e crianças. No lado esquerdo, um anjo protegia algumas figuras sob as suas asas.

«É Santo Elmo. O padroeiro dos marinheiros.», esclareceu deGarthe. «E das dores de barriga.»

Rimo-nos os dois. Fiquei a admirar a escultura, seguindo com os olhos os detalhes descritos pelo artista. Depois mostrou-me dentro de casa um conjunto de pinturas de cenas marítimas, muitas com figuras solitárias no mar ou envolvidas em nevoeiro, em isolamento. As pinceladas eram densas, quase escultóricas, como se cada onda tivesse peso. Quando terminou a visita guiada, deu-me uma leve pancada com a mão no braço em jeito de convite.

«Vai um gelado da Dee Dee?»

«Claro!»

Com o açúcar a subir à cabeça, senti-me mais à vontade para perguntar a deGarthe o porquê de viver ali.

«A paisagem é bonita, mas não é um sítio demasiado isolado?»

«Não suficientemente isolado para impedir manadas de turistas de aparecerem aqui.», respondeu com uma gargalhada.

Caminhámos de regresso à casa de deGarthe com o sol já a esticar-se mais alto. O ar estava mais quente, como se a manhã estivesse prestes a cumprir o seu papel e se preparasse para se retirar discretamente.

«Há um tipo simpático com um blogue sobre a vida solitária e ele diz numa das suas publicações – não me recordo agora literalmente – que foi viver para uma cabana no meio do mato para viver mais intensamente, ao contrário das massas que vivem um desespero silencioso nas cidades. Não me parece que viver rodeado de pessoas signifique romper com a solidão. Pelo contrário, aqui posso concentrar-me nas boas companhias.»

Ao longe, vimos duas silhuetas a aproximarem-se pela estrada de gravilha — o capitão Jackdaw e o capitão Slocum, com os passos lentos de quem já conversou tudo o que havia para conversar e que agora apenas caminha por prazer.

«E falando delas, aqui vêm os nossos capitães também em passo digestivo», disse deGarthe, com um sorriso.

O capitão Slocum acenou com a mão e, ao chegar junto a nós, lançou um olhar divertido ao deGarthe.

«Então, Bill, levaste a menina a ver o monumento e ainda lhe ofereceste um gelado? Estás a tentar corromper a juventude com açúcar e escultura?»

«A arte exige sacrifícios», respondeu deGarthe, com um encolher de ombros teatral. «E o açúcar é o preço da contemplação.»

«Pois, olha que se ela começar a ver anjos em pedra a dançar, já sabemos que não foi só o gelado da Dee Dee…», disse Slocum, piscando-me o olho.

Rimo-nos todos, e por um momento, o mundo pareceu suspenso entre o riso e o brilho do sol e senti que estava numas férias de verão em casa de uns avós adotivos que viviam noutra parte do mundo. Os dois capitães entraram na casa e deGarthe seguiu atrás deles, deixando-me por instantes sozinha no alpendre. O cheiro a madeira envelhecida misturava-se com o sal do mar e o doce do gelado ainda na memória. Fiquei ali, a imaginar vidas alternativas.

Pouco depois, o capitão Jackdaw regressou ao exterior e sugeriu o regresso à estalagem para descansar. Aproveitei para pôr a escrita em dia e mandar-te esta mensagem. Fiquei a matutar naquilo que deGarthe disse. Pode ser que viver num espaço como Peggy’s Cove permita explorar melhor as boas companhias, mas estatisticamente afigura-se-me que a possibilidade de as encontrar são mais escassas do que numa cidade. Ou será que não?

 

Peggy's Cove

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