Jun 16, 2026

19. Pedagogias

O encontro com o trimarã quebrou o nosso isolamento e apagou a sensação de estarmos sozinhos no mundo. Contudo, teve também o peculiar efeito de acender um desejo de estar em terra e de ver pessoas à volta, coisas a acontecerem em vez do marejar das ondas.

«Ainda vai demorar um pouco mais até chegarmos a terra, mas vão poder ver caras diferentes amanhã.», revelou o capitão.

Mais encontros no alto-mar? Aparentemente, o capitão tinha recebido uma comunicação via rádio a indicar que o capitão Nemo, um daqueles capitães que conheci nos Açores, estava à nossa espera com o seu submarino.

Os nossos três tripulantes ficaram radiantes com a perspetiva de um encontro com um submarino no alto mar, mas eu fiquei em pânico imediato. «O capitão Nemo tem um submarino? Como o verdadeiro capitão Nemo?», pensei.  Não podia ser, era uma piada. Quando olhei para o capitão, vi que ele estava a medir a minha expressão e piscou-me o olho. «Claro, uma piada! Vamos encontrar-nos com um barco normal.», concluí na minha mente.

O dia passou-se bem, cada um no seu canto, se é possível ter um canto num veleiro, e chegámos ao jantar com boa disposição e apetite.  A noite foi animada, com um jantar bem regado, dada a garantia de mantimentos em breve. E apesar de termos um bom vento a levar-nos rumo ao Canadá, o mar estava muito tranquilo e foi permitida uma refeição longa sem balanços.

No final, quando os estômagos se distendiam e a preguiça mental se instalava, o debate estalou. Como sempre, os espíritos já flutuavam na vaporosidade do álcool. Desta vez, tudo começou com um valente arroto libertado pelo Russo.

«Não te deram educação em pequeno?», criticou o Lucky, visivelmente incomodado.

«E a que educação é que te referes? A que defendes nos teus livros de obrigar as crianças a usarem sapatos húmidos desconfortáveis?» Com um movimento inesperado e desengonçado pela embriaguez, o Russo ergueu a perna e exibiu o pé nu ao nível da mesa. «É melhor as crianças andarem descalças a molharem os pés na natureza do que a ensoparem os pés em sapatos permeáveis. Achas que fazer as crianças sofrerem vai mesmo criar resistência física?»

De um lado, o suíço defendia que era preciso deixar a criança desenvolver naturalmente as suas competências para manter o natural no homem quando é inserido na vida cívica; do outro lado, o inglês aceitava o desenvolvimento das competências naturais das crianças, mas argumentava que a criança é uma tábua rasa que deve ser orientada. Indiferente à discussão, o Hobbes dormitava ereto, a acompanhar os balanços suaves do Nómada.

«E depois não têm maneiras à mesa, como tu, e perdem o uso da razão.», contrapôs o Lucky.

«Tu e a razão!…», disse o Russo, dando sinais de exasperação. «Achas que uma criança consegue mesmo perceber o sermão que lhe passas? É como na canção: “o menino é mal comportado, o menino é pequeno-burguês”. Deixa-o ser feliz, porra!»

O Lucky fanziu a testa ao ver o crescente tom revolucionário do Russo.

 «Sabes qual é teu problema? Ahn, sabes?», prosseguiu o Russo. «O teu problema é que tu queres educar fidalguinhos racionais, virtuosos e disciplinados que saibam movimentar-se na sociedade. A ralé que se lixe, né? Nem precisa de educação, pá!…»

 

«Todas as crianças, pobres e ricas, devem ser preparadas pela sociedade para a vida social e uma participação cívica ativa», defendeu-se o Lucky.

«Preparadas para quê? Para serem magistrados? Comerciantes? Soldados? Funcionários obedientes? Tu passas a vida a pensar na profissão que a criança vai ter e esqueces-te da pessoa que ela é.»

«Isso é um disparate.», disse o Lucky, desconfortável.

«Não, disparate é pegar numa criança e tratá-la como um projeto profissional. Antes de formar um advogado ou um contabilista, Deus nos livre, devíamos formar um homem. O resto vem depois.»

«E não tens em consideração a sociedade onde ele vai viver?»

«A sociedade corrompe a criança!», contrapôs o Russo. «Ainda não percebeste isso?»

«Então queres o quê, pôr toda a gente a viver isoladamente no mato?»

«Sim, sim…», murmurou o Hobbins de olhos fechados. «O homem é o pior inimigo do homem».

Os outros calaram-se por uns segundos, a ver se ele realmente queria entrar no debate, mas depois perceberam que era mais o grogue a falar.

«Se calhar, não era má ideia vivermos uma temporada isolados como o Robinson Crusoé. Olha, até te digo mais, o que as crianças deviam ver até aos 12 anos era programas como o Survivorman.», disse o Russo no tom que pareceu ser de brincadeira.

A cara do Lucky deformou-se num esgar a tentar não espirrar para fora da boca o gole de grogue que tinha acabado de tomar.

«Jesus! Eu sou todo a favor do treino físico e da necessidade de um corpo são para uma mente sã, mas aquilo que dizes é completamente ridículo!»

«Pensava que ias gostar da sugestão. O teu “treino são” é ainda pior, a torturar as crianças!» disse o Russo. E continuou num tom a imitar alguém no tom paternalista. «Vá só mais um bocadinho, vai mais um banho de água gelada, vá lá.»

Lembrei-me do Carlos da Maia e da educação dada pelo velho Afonso.  

«Tu não estás a educar crianças! Estás a treinar focas num zoo marinho!», acusou o Russo.

Segurou o pequeno copo de shot com a boca e pôs-se a bater as mãos como um leão marinho, mas perdeu o equilíbrio e deslizou ao longo da mesa. Só não caiu porque se agarrou ao ombro do capitão.

«Vês?», disse, recuperando a compostura com uma dignidade impressionante para alguém naquela posição. «Equilíbrio natural.»

«Acabaste de quase cair.»

«Aprendizagem experimental.»

«Embriaguez experimental.»

O capitão disse com tom de sarcarmo.

«A linha entre as duas está cada vez mais ténue.»

O Russo ignorou-o e voltou ao ataque, como se de repente se tivesse lembrado de algo.

«Sabes qual é o teu problema?» Mais uma vez, a pergunta retórica visava mais apontar a ignorância do Lucky. «É que não percebes que as crianças devem aprender através da experiência sensorial e de acordo com o seu estado de desenvolvimento. Só depois dos 12 é que devem tomar contacto com matérias que exigem o uso da razão.»

«Fazes isso e aos 12 eles já estão empedernidos, já não consegues moldá-los, já não os consegues educar.»

«Se as crianças conseguissem fazer uso da razão como tu dizes, não precisavam de nós, educavam-se a elas próprias.»

«Isso é completamente imbecil!» O Lucky estava a começar a perder a compostura, mas era difícil de manter a calma face ao tom e à atitude do Russo. «É para isso que está lá o tutor. Para orientar, criar hábitos e desenvolver a razão. A mente é uma tabula rasa.»

«Ui, os hábitos! O condicionamento social! Finalmente percebi o teu problema», disse o Russo, servindo-se de mais grogue. «Tu achas que a moral se ensina por repetição.»

«É melhor do que ensinar com legumes.»

Não percebi a referência, mas deve ser uma história qualquer que o Russo conta nos seus workshops.

«Os feijões e os melões ensinaram mais sobre justiça do que mil sermões.», disse o Russo.

«Lá estás tu outra vez.»

«Porque tenho razão. Uma criança aprende quando sente as consequências dos seus atos. Aprende quando a realidade lhe responde. Não quando um adulto lhe abana um dedo à frente da cara.»

«Então o teu plano é esperar que a vida eduque a criança?»

«O meu plano é deixá-la descobrir. Há uma diferença. Tu pensas que és o todo-poderoso educador, mas é a Natureza que educa. O Homem só abre o caminho.»

Tossi levemente, o Russo olhou para mim a ver o que eu queria e depois virou-se para o Lucky, sem ter percebido a minha chamada de atenção indireta.

«Não podemos ir contra a natureza da criança. A educação dada por nós tem de ir ao seu encontro. E depois temos as circunstâncias da vida, aquilo que nos sucede. A moral não nasce da obediência e do castigo físico; nasce da experiência de vida e aprender com as consequências das nossas ações.»

O Lucky soltou uma gargalhada seca.

«A moral nasce da formação do carácter.»

«E como é que formas o carácter?»

«Através dos hábitos. Concordo contigo, o castigo físico só cria medo e um falso comportamento moral. Mas as crianças valorizam a estima daqueles que as rodeiam, está na sua natureza. O elogio pelo comportamento correto e a reprovação pelo comportamento incorreto ensinam as crianças a governarem-se a si próprias.»

O Russo deitou a língua de fora ao Lucky em desafio.

«Estás a ensinar crianças a afinarem o comportamento pelo olhar dos outros.», ripostou o Russo.

«Estou a ensinar-lhes a viver em sociedade.»

«Estás a ensinar-lhes ansiedade social antes de lhes ensinares liberdade.»

«Liberdade sem autocontrolo é apenas outra palavra para capricho.»

«Eu defendo que a criança sofre as consequências do que semeia e quando o educador diz “Não”, é “Não” e ponto final. Tu baseias a virtude em aplausos. É apenas vaidade.»

«Não são aplausos. É reconhecimento.»

«É a mesma coisa com menos presunção.»

O Lucky abanou a cabeça.

«Não admira que os teus alunos acabem a correr pelos bosques atrás de borboletas.»

«Ao menos não passam a vida a questionar-se se alguém aprova o que estão a fazer.»

«Não. Limitam-se a arrancar os melões dos outros e só depois descobrem que isso tem consequências.»

O Russo riu-se alto.

«Precisamente. E nunca mais se esquecem da lição.»

«E durante quanto tempo esperas até que a vida lhes ensine tudo o resto?»

«O tempo necessário.»

«É isso que me preocupa. O que propões é ficar anos à espera que uma criança descubra sozinha aquilo que um bom tutor lhe podia ensinar numa tarde.»

«Porque aquilo que se descobre fica para sempre.»

«E aquilo que ela não descobre? Onde é que está a transmissão humana da aprendizagem humana? Cada criança tem de aprender tudo por ela própria?»

O Russo abriu a boca para responder, mas ficou calado.

O Lucky inclinou-se para a frente.

«Exatamente.», disse. «Os feijões e os melões são uma bela história. Mas eu não entregaria a educação de uma criança à esperança de que a horta produza uma revelação moral.»

Do outro lado da cabine, o Hobbins abriu um olho.

«As hortas produzem conflitos territoriais.»

Todos olharam para ele.

«É assim que as guerras começam.»

Fechou o olho novamente.

Quando a seguir a conversa começou a degenerar para as diferenças entre os géneros, subi ao convés. Não estava para ouvir, nem tinha paciência para discutir com consultores políticos embriagados, por muito porreiros que sejam.

Mas fiquei a pensar na discussão. Pode ser importante ensinar as crianças a viverem em sociedade, mas será isso o que o atual sistema educativo procura fazer? Ou é apenas um longo processo de formação profissional que culmina nas universidades, onde o carácter prático das STEM rouba cada vez mais espaço às humanidades e a outras disciplinas mais centradas na formação da pessoa?

Com tantas reformas educativas, continuamos a aplicar um modelo industrial de educação em vez de um modelo orgânico. Receio que a nossa educação seja, cada vez mais, a formatação de trabalhadores eficientes que tenham o desejo de serem consumidores omnipotentes. Não achas?

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Escola de Vagabundos

“School” é uma das reflexões mais incisivas dos Supertramp sobre educação, autoridade e conformismo

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Sir Ken Robinson

Poucos educadores contemporâneos tiveram um impacto tão profundo na forma como pensamos a criatividade e a educação quanto Sir Ken Robinson.

Mais um tijolo no muro

“Another Brick in the Wall (Part 2)” é uma das mais conhecidas críticas à escola e às formas autoritárias de educação.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Supertramp: Por Rs3 – Transferido de en.wikipedia para a wiki Commons., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=599425

Sir Ken Robinson: Sebastiaan ter Burg – Flickr: Sir Ken Robinson @ The Creative Company Conference https://www.flickr.com/photos/31013861@N00/3570012810

Pink Floyd ANother Brick in the Wall: Skopje, Macedonia – Rade Jovčevski – Korčagin High School – Skopje, Macedonia by Aiva https://flic.kr/p/25ccGWW

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