May 11, 2025

5. Heróis e heroínas

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«A navegação marítima tem tanto de científica como de adivinhação». Este foi o meu desabafo ao avistarmos as luzes de Vila do Porto e, de imediato, fui repreendida.

«Tudo o que fizemos no nosso percurso poderia ser previsto se tivéssemos todos os elementos necessários para o cálculo», argumentou o Carlos Sage. Já não posso ouvir tanta objetividade científica! Eu sei, é injusto porque ele até é um tipo impecável.

Acho que este azedume é porque estou cansada e se estou a escrever a esta hora, ainda no mar, é porque sei que vou dormir muitas horas e não vou ter vontade de me sentar em frente de um computador tão cedo. Vou apenas ligar-me à internet e enviar-te as mensagens escritas a bordo nesta última semana.

São quatro da manhã e finalmente estamos a chegar a Santa Maria. Passámos os dois últimos dias, mais de 120 milhas, a bolinar e a bolinar, com o vento a rondar e a trocar-nos as voltas. A temperatura não esteve desagradável, mas passámos boa parte do tempo sem sol e sem lua. Um isolamento completo que colocou cada um de nós a pensar em qualquer coisa que fosse com os pés em terra.

«Quero rever o último filme dos Vingadores, acho que é um excelente filme para concluir a saga», suspirou o Zé Campelo.

Uma discussão sobre filme pipoca para adolescentes. Sim, é verdade, também fui ver ao cinema, mas sorri a pensar que discussão poderia sair dali. E de repente, dei por mim a participar na conversa. Mas tudo começou com uma longa discussão sobre o argumento, culminando na história da viagem no tempo do Capitão América.

«Se ele ficou no passado, então havia dois capitães durante algumas décadas.»

«E ele estava atrás de uma moita à espera para aparecer de bengala e sentar-se no banco, não é?»

Acho que ninguém estava a levar o tópico muito a sério. Discussões sobre viagens no tempo a partir de filmes são divertidas e sem a intenção de estabelecer factos. E depois entornei-lhes o caldo.

«O que achei curioso foi o momento em que os senhores da Marvel, que eu imagino sempre escondidos em gabinetes com divãs de consultorio de psicólogo a projetarem as suas fantasias eróticas, quando eles mostraram todas as heroínas a juntarem forças no combate ao exército de Thanos. É tão óbvia a intenção politicamente correta, sobretudo porque, mais do que nos filmes, na banda desenhada as heroínas servem para dar um colorido sexual à cena até ao momento em que são postas num frigorífico como prato frio para a vingança dos heróis.»

«Há muitos momentos em que os heróis masculinos também dão colorido sexual aos filmes. Na verdade, se existe uma clara sensualização do corpo feminino, o mesmo se passa com o corpo masculino. Até digo mais: a representação do corpo masculino às vezes reduz os heróis a um saco de testosterona.», argumentou o capitão.

«Concordo», respondi. «Mas há três grandes diferenças entre os heróis e as heroínas. Primeiro, ao nível do protagonismo, as mulheres são secundarizadas. Reparem na Miss Marvel ou Capitão Marvel, que parece ser das criaturas mais poderosas daquele universo e cujo protagonismo foi reduzido por estar sempre ausente noutro sítio qualquer do universo. E no final do filme, é retirada de cena e atirada para o reino quântico. Ridículo! Mais valia mandarem-na para a cozinha tratar da loiça. Segundo, não há decisões cruciais tomadas por figuras femininas. A Viúva Negra funciona como uma espécie de gestora dos Vingadores, para não dizer secretária, durante os cinco anos após a Infinity War, mas quando regressam os eventos críticos, o Capitão América e o Homem de Ferro voltam a mandar em tudo. E por fim, a maioria das representações gráficas das heroínas na banda desenhada assemelha-se a poses de capas de revistas eróticas.»

Peguei num dos livros do Zé Campelo. «Conseguem imaginar esta imagem passada para o cinema? Qual era a atriz que iriam buscar? A Pamela Anderson?»

Enfim, estás a imaginar a cara deles. E depois o capitão sai-se com esta.

«Bom, vamos lá então entregar o leme à mulher que está a bordo à entrada do porto.»

Não percebi se ele estava a falar a sério ou, como eles costumavam dizer, a rematar o assunto para canto.

«Isso é para finalizar a conversa e pôr-me no lugar?», perguntei. Contive-me para não o ameaçar com um trapo molhado a cheirar a peixe atirado à cara. Estás a perceber. Isto de navegar dez dias isolados num veleiro tem consequências no humor.

O capitão fez um gesto de delicadeza. «De modo algum. É a segunda aproximação a um porto que vamos fazer e a minha sugestão é começar a praticar sob a minha orientação.»

Com o tempo, talvez deixe de ficar tão facilmente afetada por este isolamento. Faltam-me mais horas de mar, possivelmente. Enfim, tenho de ir, estão a chamar-me.

A iniciativa Hawkeye

Um projeto para corrigir as poses das personagens fortes femininas nas bandas desenhadas de super-heróis: substituir a personagem pelo Hawkeye a fazer a mesma coisa.

Women in the fridge

O termo “fridging” foi cunhado para explorar o tópico da violência sofrida por personagens femininas, sobretudo em bandas-desenhadas de super-heróis.

Heroínas e Feminismo

Podem aparecer mais em destaque e até podem parecer mais fortes, impulsionadas por uma 3.ª vaga de feminismo, mas as superheroínas ainda são um reflexo de décadas do machismo dominante.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Imagem do post: Roy Reyna https://www.pexels.com/photo/woman-wearing-wonder-woman-costume-3180274/

The Hawkeye Initiative: Anonymous https://www.tumblr.com/thehawkeyeinitiative

 

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