Apr 25, 2026

1. Reviravolta ao mundo

Há uma calma hesitante quando a noite desce sobre o mar. Sinto-a como o resquício de uma memória da infância quando as luzes do quarto eram apagadas pelos meus pais e eu ficava no escuro atenta às ténues sombras formadas pela luminosidade a marejar pelas frinchas da porta. O coração começava a bater mais acelerado com os sentidos aguçados a tentarem detetar ruídos e flutuações na penumbra, mas depois acalmava, segura de que a altura da cama e a espessura dos cobertores eram uma proteção suficiente para qualquer ameaça a vaguear no quarto. O mar noturno é um quarto escuro cuja assustadora imensidão revela o isolamento do indivíduo.

Não te quero assustar com estas palavras, apenas expressar como é intenso estar sozinha ao leme do barco rodeada pelo vazio de referentes visuais. O constante movimento das ondas torna impossível situar-me no espaço e, apesar de estar rodeada de matéria, nunca senti deste modo a possibilidade do nada.

O capitão entregou-me o primeiro turno de vigia até às 2h00 como quem passa uma colher de pau e diz para continuar a mexer o tacho. Está a descansar no seu camarote e até ressona. Parece ter muita confiança no treino de duas semanas que tive com ele no rio Sado. Não se espera complicações, a rota está traçada e só tenho de manter o rumo; a verdade é que é o piloto-automático quem trata de tudo, eu só tenho de ir confirmando se o vento e a ondulação não levantam cuidados. Por isso aproveitei para te escrever esta primeira mensagem, que enviarei mais tarde quando estivermos em terra.

Provavelmente ainda estás a tentar perceber porque estou a fazer isto. Eu também me questionei várias vezes antes e depois de deixarmos o porto de Setúbal. Na verdade, eu sempre me questionei para onde ia e por onde andava. Talvez a resposta esteja nas divagações do nosso skipper.

«Há um momento na vida de um homem… e de uma mulher também, em que o olhar começa a demorar-se demasiado no passado.» prontificou ele há uns dias, sem me olhar diretamente, enquanto assentava uma das caixas de provisões que estávamos a carregar para bordo. Endireitou-se ligeiramente, a aliviar as costas da tensão provada pelo esforço, os olhos no horizonte. «Sem dar por isso, passa mais e mais tempo a contemplar o que aconteceu. Essa inércia… é o princípio da morte.» A última frase foi dita com esgar, como se fosse amarga.

«Mas é importante contemplar o passado. Faz parte do processo de reflexão sobre a nossa vida», retorqui com um sorriso.

Ele parou, mãos na cintura. O sorriso demorou um segundo a formar-se, como se tivesse sido pensado.

«Isso é verdade. Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida, dizia o filósofo.», respondeu, retomando a carga das provisões. «A maior parte das pessoas está enterrada até ao pescoço em areias movediças e não vê senão o que está imediatamente à frente do nariz.  Muitos, muitos mesmo», disse em esforço, ajustando o apoio das mãos na caixa com os dedos já marcados pelo esforço, «nem se dão conta disso e o momento alto das suas vidas é regressarem do centro comercial com um plasma de sessenta e tal polegadas para pregar na parede na sala.»

«Nem toda a gente é assim. Cada vez mais pessoas que são ativas, fazem coisas interessantes no seu tempo livre.»

Pousou a caixa com um baque surdo no convés e ficou a mirar-me uns segundos. Inspirou fundo, não sei se para recobrar o fôlego ou se impaciente com a minha observação.

«Esses são os outros.», disse, voltando ao cais para pegar noutra caixa. «Esbracejam e esbracejam e enterram-se ainda mais na areia em viagens a locais exóticos ou atividades radicais à procura de emoções.» E depois elevou a voz, em esforço, a levantar um caixote um pouco maior do que os outros. «Estão contaminados com os slogans modernos de “viver a vida” e não se apercebem de que se tornaram hedonistas egoístas.» Pousou o caixote em equilíbrio no bordo do barco, cansado de tentar falar e carregar pesos ao mesmo tempo. «Para mim, essa gente vive no materialismo das memórias. Passam o tempo a colecionar selfies para mais tarde recordarem, quando estiverem inertes, e poderem contemplar o passado e dizerem que viveram verdadeiramente.»

Não insisti e permaneci silenciosa a olhá-lo enquanto ele pegava novamente no caixote. Deixei-me estar a ver para onde ia aquele cinismo de quem julga pairar acima das areias movediças. O capitão reapareceu do interior do barco, a limpar o suor da testa com o antebraço, desceu de novo para o cais e encostou-se ligeiramente à amurada, a observar o movimento da água junto ao casco. Virou-se para mim, antes de prosseguir o carregamento.

«Estar vivo não é apenas ser ativo e fazer coisas interessantes e diferentes a cada dia ou esgravatar nos nossos confins para desenterrar um Eu a tresandar a autenticidade. Estar vivo é estar em sintonia com a nossa natureza e com a sinfonia que orquestra o nosso tempo.»

Fixou o olhar em mim, um instante mais do que seria confortável, talvez a tentar ver se a metáfora tinha assentado. Deve ter visto algo na minha expressão, pois fez uma ligeira flexão de anuência com a cabeça e agarrou noutra caixa que, entretanto, eu tinha preparado.

«Muitos partem para fugirem daquilo que são nas suas rotinas, mas a verdade é que não podemos escapar a nós próprios…», subiu o volume da voz à medida que se afastava a subir ao barco, «nem às tragédias que nos marcaram a pele.» O som oco dos passos na prancha de embarque marcou o ritmo da frase.

Demorou-se no interior do iate e eu fiquei no cais a finalizar a preparação das últimas caixas. No momento em que me soerguia, a esticar as pernas e  os braços numa espreguiçadela dolorosa, o capitão reapareceu no convés com uma expressão séria de quem esteve a ruminar pensamentos.

«Eu parto nesta viagem para reencontrar a minha narrativa de vida.», proclamou a partir do barco. Disse-o com um tom assertivo, mas evitou o meu olhar, como se a questão não estivesse totalmente resolvida.

Voltou ao cais para separar as caixas em dois grupos, um para ser carregado por mim e outro por ele. Mas podia ver na expressão dele que estava a reorganizar as suas ideias. Quebrou o silêncio num tom mais confessional.

«Podia fazer esta viagem mentalmente, sentado em casa, mas a minha natureza impele-me a encontrar-me no mar.» Pegámos cada um numa caixa e carregámo-las até junto do barco. «Aquilo que temos de fazer é perguntar a nós próprios como é que podemos escrever as nossas narrativas, com todas as mudanças que uma boa história tem, e que versos acrescentar à poderosa encenação humana.» Fez um gesto de cumplicidade com a cabeça, como se esperasse concordância do meu lado. Parou como se precisasse de clarificar. «Não se trata de encontrarmos uma identidade autêntica, até porque a maior parte de nós somos multifacetados.». Riu-se e depois atalhou mais alto, subiu para o barco com a caixa. «Bom, todos menos o Cavaco Silva.»

Deixei a caixa que carregava no convés para o capitão a arrumar no interior e voltei junto das provisões que restavam no cais. Uns minutos depois, o capitão estava de volta, a consultar o relógio no pulso.

«E enquanto pensamos sobre a vida, podemos ir carregando as caixas.», rematou, com um gesto discreto com a mão que sinalizou menos conversa e mais trabalho. «Não precisamos das mãos para pensar.», atirou por cima do ombro com mais uma caixa em direção ao barco. E prosseguiu com o carregamento a assobiar uma melodia qualquer a rematar o fim da conversa.

Pensar sobre a vida. Não tenho feito outra coisa desde que partimos de Setúbal, questionar-me sobre a minha natureza. Depois do primeiro impacto no mar, quando o corpo relaxa após o fluxo inicial de adrenalina, refleti demoradamente sobre esta aventura de embarcar numa viagem à volta do mundo com um capitão em aparente crise de meia-idade. Como te lembras, o Silva é que mo apresentou depois do evento da tatuagem.

«Capitão, aqui está alguém com quem pode contar para a sua viagem.»

O capitão mediu-me com os olhos indiscretamente.

«Tempo não lhe falta – teve a bênção de ser despedida de um emprego que não era para ela – e vontade de partir numa aventura é uma constante desde que ela era uma miúda. Às vezes pode ter mau feitio e tem muito mau perder, por isso é melhor não jogar às cartas com ela.»

Sorri constrangida. Tantos anos depois, o Silva ainda me atazanava por causa das caneladas nas pernas que eu lhe dava em criança quando perdia à bisca. Ao recordar disso agora, apercebo-me de que o Silva não mudou nada nos últimos 20 anos, já bastante velho e de bengala, curvado…

Enfim, nem o capitão nem eu não falámos sobre as experiências do passado, mas ambos estamos a par das perpendicularidades – ainda me custa a pronunciar isto – que destrambelharam o plano narrativo de cada um. Parece que ele fez mesmo terapia durante algum tempo com os tais Wordsworth e Coleridge e foram eles que o aconselharam a se lançar numa volta ao mundo, mas a mim isso não parece fazer sentido nenhum. Deve um tipo que sofre de perpendicularidades pôr-se a cruzar caminhos com outras pessoas e arriscar dar de caras com os planos narrativos de outras pessoas ou personagens? E então se forem logo duas pessoas?! Não sei…

De qualquer forma, o capitão parece ter um plano sólido com tudo delineado: 3 anos, 8 meses e 2 dias para uma viagem à volta do mundo a bordo do Nómada, um ketch de 45 pés, com paragem em 222 portos. Quando me disse os números, parecia estar quase a contá-los com os dedos, só falta dar os minutos e os segundos!

«Isto se não houver desvios, claro. Depende também dos tripulantes que formos encontrando e de outros companheiros de viagem que formos recolhendo.»

Olhou rapidamente para mim, avaliando qualquer coisa. E depois explicou: «É que tenho um anúncio na Internet para recebermos a bordo pessoas que nos queiram acompanhar numa parte da viagem.»

Duas semanas depois, após um treino intensivo básico de marinharia, estava pronta para embarcar. Não pensei muito sobre o desafio, senti apenas que era algo que tinha de fazer. Não há nada que me prenda a terra e posso fazer como outros que decidiram navegar um pouco e ver as águas do mundo. As poupanças que fiz permitem-me aguentar-me sem um salário por algum tempo e arrendar o apartamento dá também algum sustento, mas estou a pensar fazer algum trabalho freelance à distância, se a ligação pela internet o permitir.

Suponho que terei tempo de sobra para refletir sobre a vida e outras coisas mais, o regresso está marcado lá para o início de 2030. Não te assustes, a qualquer momento posso apanhar um avião e regressar mais cedo a casa. Para já, o primeiro porto é a Baleeira, amanhã devemos chegar a Sagres, onde vamos recolher mais dois tripulantes. Já sinto em antecipação saudades da minha cidade do rio azul e não resisto a cantarolar a célebre melodia do Xico da Cana.

São quatro horas, está na altura de acordar o capitão. Até porque o vento mudou ligeiramente, sinto-o mais lateral, a empurrar-me o casaco contra o braço.

«Já ninguém o conhece por Joaquim do Ó.», apontou o Silva, com um meio sorrio, a rodar o copo na mesa, como quem saboreia mais a história do que o vinho. «Os camones dos passeios turísticos estavam sempre a trocar-lhe voltas ao nome. Então, ele adotou uma versão inglesa para facilitar a comunicação e é assim que toda a gente o conhece.», explicou o Silva.

Um nome é mais do que sons ou letras. É um signo que codifica a nossa identidade. Porque é que não havemos de poder criar a nossa identidade, nomeando-nos a nós próprios?

«Chama-me Jack Daw.»

Onde é que existe um rio azul igual ao meu?

Hino da cidade de Setúbal cujo refrão todos os setubalenses sabem cantar. A versão mais conhecida será a do Xico da Cana.

A cidade do rio azul

A minha terra natal, lugar de onde parti e ao qual regressei em variadas ocasiões, sentindo sempre a contradição de ser e de não ser de Setúbal.

Do mar para a terra

O álbum Ser Maior – Uma História Natural tem sabor a mar. Este álbum conceptual dso Delfins, lançado em 1993, fala-nos de um golfinho tornado homem e explora temas de crescimento, transformação e identidade

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Imagem do Post: Johannes Plenio https://unsplash.com/photos/DKix6Un55mw

Setúbal: https://www.adn-agenciadenoticias.com/2016/01/setubal-debateu-parcerias-e.html

Trio Rio Azul: Unkown author https://fonoteca.cm-porto.pt/discos/trio-rio-azul-475062/

Delfins: https://xmusic.pt/images/entrevista/fernando_cunha/Fernando_Cunha_05.jpg

 

 

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