Ao cair da noite, o Vachia Meli recolheu ao seu camarote, provavelmente ainda toldado pelo corretivo que lhe tinha dado no meio dos… arcos superciliares. Eu e o Capitão Jackdaw ficámos no convés, a exercitar a leitura da nossa posição com o sextante. Eu sei que ele sabia que eu estava a morrer por me lançar sobre o assunto que tinha ficado pendurado, como te contei, mas não queria pressionar a conversa. E ele sabia disso também.
Foi então que o Capitão disse como quem comenta a posição de uma estrela no firmamento.
«O Vachia Meli está a bordo porque isto já não é sobre pessoas, é sobre narrativas em trânsito.»
O meu olhar deve ter tornado claro que não tinha apanhado a parte silenciosa do seu pensamento.
«Estás a sentir, não estás?», disse. Surpreendi-me mais com o tom pessoal dado pela informalidade dos verbos do que pela questão em si. «O mundo começou a entortar-se há umas décadas. Muito subtilmente, como uma fita magnética mal rebobinada. E agora é isto: as histórias estão a cruzar-se, as personagens a saltar de uma narrativa para outra. Há planos narrativos a colidir.
«Como as narrativas dos outros com quem nos cruzámos?»
«Nem todos, mas sim. O Abelardo. O Johnny Lucky, o Jay Jay Russo, o Bad Tom… Cada um deles, uma configuração narrativa que se desprendeu da sua paralelidade de origem e veio parar à tua.»
«À minha?», repeti, sentindo aquele leve torpor que precede o pânico existencial.
«Ou melhor, à nossa», corrigiu, gentil. «Esta paralelidade onde estamos a navegar está em modo de transição. Como se estivéssemos a atravessar uma zona de sobreposição, um entroncamento onde as narrativas se dobram umas sobre as outras.»
«Mas porquê agora?», perguntei. «Porque é que estas narrativas começaram a deslocar-se?»
«Não sabemos, mas talvez porque o eixo da narrativa coletiva cedeu.», respondeu, a olhar o horizonte e depois o céu. «Se me perguntas o que penso, acho que as novas tecnologias criaram um caos narrativo que, de algum modo, sobrecarregou o conjunto dos diferentes planos narrativos. O nosso mundo já não sabe que história quer contar. Já não há enredo hegemónico, não há género dominante. É tudo fragmento e remix, versão e paródia. As pessoas vivem como se fossem personagens de séries distintas, com formatos incompatíveis: uns falam como se estivessem num reality show, outros comportam-se como num romance russo, e há quem viva num loop de memes. O sistema está sobrecarregado.»
Sentou-se à popa, a arrumar o sextante e eu imitei-o, de pernas arqueadas a empurrar as costas contra o bordo do convés.
«O Abelardo, por exemplo, já não é só um pensador medieval. Agora é também o ex-famoso Bel, perdido num eremitério no Corvo. E os outros três, não sei se os reconheceste?»
Fiz sinal de que não.
«John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes. Três gigantes do pensamento filosófico que deslizaram para o mundo da política dos nossos dias.»
De repente, a luz que se fez iluminou algo que já estava a ver. Claro!
«O ponto fulcral é como é que estes cruzamentos podem afetar o mundo. O impacto que indivíduos como o Vachia Meli – ou como quiseres chamar-lhe – o impacto negativo que podem ter.»
«E o que é que lhe fizeram no submarino? »
O capitão suspirou.
«Estamos a tentar suavizar a sua travessia. Chamemos-lhe “realinhamento narrativo”.»
«E os outros também?»
O capitão assentiu.
«Somos vários a fazê-lo. Há outros capitães em rota. Cada um com o seu papel.»
«O clube dos capitães. O Peter Café Sport. O encontro secreto…», murmurei.
Ele assentiu.
«Sim. No início, foi uma brincadeira de marinheiros quando nos demos conta dos cruzamentos nas linhas de enredo. Depois, começámos a ver as suas consequências. E a perceber que algo maior do que nós estava a acontecer no mundo.»
Fixou o olhar em mim com gravidade.
«O nosso planeta está a gemer. A ganância humana é uma ameaça real à sua sustentabilidade. Estes cruzamentos de planos narrativos podem ser uma oportunidade única para tentar repor algum equilíbrio, mas podem ser catastróficos se deixarmos certas personagens tomar as rédeas da narrativa global.»
«O clube dos capitães. O Peter Café Sport. O encontro secreto…», murmurei.
Ele assentiu.
«É isso que vocês estão a preparar? Uma revolução global?»
O capitão fez um sorriso trocista.
«Revolução global é um termo excessivo. Mas estamos a tentar unir pontos e criar uma rede cada vez mais vasta. O Corto Maltese, o Nemo, o Kirk… cada um deles é guardião de uma passagem, vigiando zonas de cruzamento intertextual. Evitar colisões narrativas, assegurar que as configurações errantes se integrem ou se dissolvam pacificamente.»
Ficámos em silêncio por uns instantes, o mar devolvia ecos de outro tempo.
«E eu? Onde é que eu me encaixo nisso tudo?»
«És um dos epicentros da singularidade. Por isso os cruzamentos são tão frequentes à tua volta. Há muitos que, tal como tu, estão a tentar reconfigurar-se, e ao fazê-lo, puxam fios narrativos de outras paralelidades.»
«Então a minha crise de identidade… é uma espécie de imã interdimensional?»
«Uma torção narrativa. Uma “perpendicularidade” incipiente que atrai configurações errantes. Sabes quando dás uma dentada num mil folhas e o creme escapa pelas laterais? O mesmo acontece com as narrativas quando a camada da tua paralelidade se desloca. Os outros recheios vêm ter contigo.»
Reconheci a metáfora usada pelo Silva.
«E se eu quisesse parar? Voltar ao “normal”?»
Ele sorriu com compaixão.
«Já não há um “normal”. Só há movimento. Ou melhor, só há narrativa. Podes tentar resistir, mas isso apenas criará mais tensão nos planos. O melhor que podes fazer é continuar a contar. A deixar que a tua voz encontre a coerência possível, entre as figuras que chegam, os traços que sobram, os enigmas por resolver.»
«E qual é o papel dos capitães?»
«Somos… condutores. De passagens. De personagens. De significados. Às vezes, ajudamos uma narrativa a morrer com dignidade. Outras vezes, acolhemos uma nova. Estamos sempre atentos à coerência e à coesão do bolo de mil folhas. E quando algum creme começa a escorrer com violência, fazemos o possível para evitar uma explosão catafórica.»
«Como terapeutas?»
«Como guardiões da ficção.»
O capitão soergueu-se para folgar a vela grande e apontou para o horizonte invisível.
«Vai haver mais cruzamentos. Há muitos nomes a caminho. Alguns conhecidos. Outros que nem imaginaste ainda. Há quem diga que uma velha figura bíblica anda a refazer o caminho de barco. E uma certa mulher da antiguidade tem aparecido em relatos de sonhos de várias crianças. Fala-se de uma fenda narrativa que se materializou no fundo do oceano. É algo que o Nemo procura nas suas viagens, que todos nós procuramos, na verdade. Mas tu… mantém os olhos e a mente abertos. E não te esqueças: conta tudo. Tudo o que puderes. Enquanto conseguires.»
Olhei para a água. Por momentos, pareceu-me ver sombras a deslizar por baixo do casco. Abri o caderno e tomei notas da nossa conversa. Para juntar à narrativa.
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