Apr 1, 2025

Prólogo 1. O início já vai a meio

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Já te aconteceu quereres contar algo que te sucedeu e teres de voltar muito atrás para lhe conseguires dar um sentido? É por isso que te peço paciência ao leres o meu e-mail, este longo testamento. As últimas 24 horas foram tão surreais que ainda me questiono se não sonhei tudo.

 

Santuários da liberdade

As bibliotecas continuam a ser dos lugares mais seguros e onde só mesmo o conteúdo dos livros poderá surpreender-nos e trazer algo fora do normal. Um refúgio para o que se passa lá fora, uma fonte de energia para fazer face ao que nos espera no seu exterior.

Livros para deitar fogo à mente

Com o aumento do controlo da liberdade de leitura, a distopia de Fahrenheit 451, escrita por Ray Bradbury e publicada em 1953, está cada vez mais atual. A história tem lugar numa sociedade onde os livros são proibidos e queimados por bombeiros, que têm a função de eliminar qualquer forma de pensamento crítico. O título refere-se à temperatura a que o papel pega fogo, equivalente a aproximadamente 233º Celsius, e simboliza a destruição do conhecimento.

Aspirações embrulhadas em livros

A banda indie pop escocesa Belle and Sebastian é conhecida pelo som cativante das suas suaves melodias, mas são as letras introspetivas que mantém a nossa atenção. A canção “Wrapped Up in Books” faz parte do álbum Dear Catastrophe Waitress, lançado em 2003.

Tenho a certeza de que te lembras das aulas do Professor Ribeiro, daquelas em que ele nos servia mitologia às 8 da matina como se fossem torradas quentes. A história de Teseu, do Minotauro e do novelo que salvou a pele ao herói? Na altura, rimo-nos quando o Calhotas considerou ter sido demasiado ingénuo ninguém levar um GPS; foi mais uma daquelas bocas anacrónicas com que ele escangalhava as aulas. E depois, o professor Ribeiro apontou que rastrear o novelo de volta era seguir a memória do trilho e, ao mesmo tempo, seguir o fio da narrativa que dá sentido à aventura do herói e que é isso que fazemos quando contamos uma história. Não sei porquê, mas isto ficou-me colado na memória porque explicou uma coisa simples demais para ser óbvia: contamos histórias para não nos perdermos.

Deve ser isso que estou a fazer aqui contigo. E tal como as epopeias começavam sempre in media res, assim também nós vivemos, sem prólogos elegantes, sempre a meio de uma ação, como lembrava o professor Ribeiro. É como eu me sinto, como se tivesse entrado num filme a meio, sem saber bem como começou — tipo tropeçar num enredo já em andamento a tentar apanhar o fio à meada. E suspeito que, ao mesmo tempo que te conto os eventos, não estou só a alinhar factos; estou também a negociar sentidos com qualquer coisa que está do outro lado da parede do labirinto e que não quer ser apanhada… ou que talvez me queira apanhar. De todo o modo, quando a coisa começa já a meio, sem prólogo nem chamadas à cena, a melhor estratégia é mesmo segurar o novelo e andar. Ou narrar.

Se há um início, acho que foi ao final da tarde de ontem, no meio das estantes da biblioteca de Setúbal, no andar de cima. Estava a escolher uns livros para levar para casa, de cabeça em torcicolo a tentar ler os títulos nas lombadas, em lenta progressão ao longo das estantes. Como sempre, juntei uma série eclética de pesados romances (alguns literalmente!), narrativas filosóficas (comecei a explorar os existencialistas) e sempre alguns clássicos. Tinha detetado o último da minha lista mental: “Alice no País das Maravilhas”. Lancei a mão para o abrir, a antecipar o gozo do poema Jabberwocky, mas ao puxar a lombada ouvi um som ciciante e fiquei encandeada com uma súbita claridade. Quando recuperei a visão, estava no outro lado da estante, na secção de literatura alemã, e tinha nas mãos “A História Interminável” de Michael Ende!

Nisto, o telemóvel vibrou. Era uma mensagem da minha chefe, um meme com um coelho branco a dizer «Oh dear, I’ll be so late!». Era um aviso para enviar o trabalho sem falta até ao final do dia. Ainda a tentar perceber o que se tinha passado, passei em revista à pressa os exemplares que tinha recolhido e vi que afinal sempre tinha tirado da estante o de Lewis Carroll. «Será que sofri um lapso de consciência?», questionei-me.

Não podia ficar ali a tentar perceber o que tinha sucedido, precisava de me despachar. Por isso, peguei à pressa no saco de linho com os livros para devolver, deixado no chão junto às estantes, e dirigi-me em passo rápido para a secretária da bibliotecária, a equilibrar contra o peito os volumes a levar para casa.

Com os olhos fixos no equilíbrio da minha carga, não reparei nos passos que dava e dei um toque subtil no pé de uma cadeira mais afastada de uma mesa de leitura, quase me estirando ao comprido no meio da sala. Pousei os livros em iminente queda livre no tampo e suspirei de alívio. Embora nas bibliotecas a maior parte das pessoas não preste atenção ao que se passa à volta, uma queda aparatosa com mais de uma dezena de livros iria tornar-me reconhecível durante algum tempo. «Calma, tens outro saco de linho no bolso. Mete lá os livros para levantar.», disse, executando a tarefa.

De sacolas bem seguras, uma em cada ombro, retomei a marcha rumo à bibliotecária. Ao longe, não reconheci a cabeça escondida atrás do monitor do computador, mas ao chegar junto da secretária, senti as forças faltarem-me nas pernas. Em vez de uma das minhas conhecidas, uma nova bibliotecária – cinquenta e poucos anos, gordinha, com cabelo branco – processava qualquer coisa no computador com um estranho sorriso. Todos os livros que ia devolver estavam atrasados e contava com a implícita clemência nos contratos de obrigações promovida pela familiaridade entre pessoas conhecidas. Agora, já me via a argumentar o meu caso com… tentei ler a placa de identificação em cima da secretária…. Ms. Lortz. Ms Lortz?!?!

«Pode vir aqui, não se preocupe em me interromper»

Um medo instintivo pregou-me ao chão, mas forcei-me a dar ordem de marcha, enquanto tentava fazer sentido de tudo. Ms. Lortz!… Só pode ser uma coincidência! Era o nome da aterradora bibliotecária da história de Stephen King, a mesma que avisava ameaçadoramente cada leitor com o “Library Policeman”, uma espécie de monstro que castigava os meninos e as meninas que não entregassem os livros dentro do prazo estipulado. E agora, era à sua sósia que tinha de devolver os volumes atrasados mais de duas semanas!

Preparei-me mentalmente para levar um ralhete público na biblioteca. Nada mais constrangedor do que ser chamado à atenção em frente de todos os leitores, a fingirem estarem muito concentrados nas suas leituras, mas com os olhos paradinhos, a ouvirem, com um certo sentimento de desagravo, a aplicação impiedosa do corretivo. Isso e mais a multa que provavelmente iria pagar. E se fosse ela Ms. Lortz, o meu maior medo  era o morto-vivo que ela conjurava para assombrar aqueles que não entregam os livros a tempo e horas.

«Não precisa de ter medo, minha querida. O máximo que lhe pode acontecer é uma suspensão da leitura domiciliária», disse Mr. Lortz, como se tivesse lido os meus pensamentos. E depois, num aviso geral, a lançar olhares pela sala, acrescentou, elevando a voz asperamente num tom gutural. «Para aqueles que maltratam os livros, o castigo é outro.»

Senti um ténue burburinho de medo atrás de mim e deixei-me ficar hirta. Esperava não ser identificada por ninguém, mas reconheci que, afinal, dificilmente iria escapar a uma vergonha na biblioteca pública. Ms. Lortz pegou na pilha dos livros para devolução que eu tinha retirado do saco e começou a processar os títulos. Com gestos delicados e um sorriso colado a Araldite, olhava para a capa a ajuizar o exemplar, mas não consegui perceber se desaprovava as minhas escolhas ou se as ratificava. O seu olhar frio e penetrante parecia estar desalinhado com a amabilidade que aparentava exibir.

Pensei fazer conversa, a tentar criar uma certa empatia, aproveitado o momento em que ela tinha terminado a entrada de um livro e antes de pegar num outro da pilha de devolução, mas os meus pensamentos traíram-me.

«Conhece o livro The Library Policeman

Com um sorriso manso e um olhar que parecia ser feito para projetar matéria cinzenta pela zona occipital do crânio, abanou lentamente a cabeça num movimento que parecia mais de reprovação do que de negação.

«É um livro que deseja consultar?», questionou, pegando na caneta, o olhar a queimar-me o cérebro.

Resisti um pouco e balbuciei.

«Não, é só que.. É um livro do escritor Stephen King.»

«Ah!», exclamou, virando o olhar e retomando o trabalho de registo dos títulos. «Se tivermos, está na secção de literatura americana.» E depois acrescentou, com traços furtivos de desdém na voz. «Não conheço, não sou dada a esse género de textos.»

Senti que a tinha antagonizado. Pior, se calhar ela agora pensava que eu pensava que a tinha reconhecido! Eu sei: confuso, circular e derivativo… Mas porque é que perguntei sobre o livro? O que é que eu podia fazer agora?

Acossada por um terror crescente, tentei manter-me em pé junto à secretária, a vê-la a verificar, com a meticulosidade de um cientista forense, a condição de cada livro devolvido, capa e contrapa, interior e lombada, a franzir os olhos com um qualquer detalhe, soltando depois um suspiro e pequenos estalidos de reprovação cada vez que confirmava no computador que a data de devolução já tinha expirado. Tudo muito lentamente e sem olhar uma única vez para mim.

Comecei a ficar ansiosa, a pensar numa forma de evitar o ralhete em frente dos leitores presentes, já a empurrarem os óculos nariz acima ou a afastarem os cabelos para as orelhas em curtos gestos irrequietos de crescente antecipação. Não consegui suster a posição e virei costas ao lento processo alfandegário dos livros, a tentar afastar estes pensamentos, de sacola ao ombro. Fui até à janela do salão de leitura e lembrei-me então do meu carro. Na pressa, tinha arriscado estacionar defronte da biblioteca sem bilhete e sem conseguir ativar a aplicação de estacionamento. Espreitei para a avenida e, certo como o pão com manteiga cai com o lado barrado no chão, lá estava o sacana do fiscal a passar uma multa!

«Está tudo em ordem, tenho a certeza! Tenho de ir, depois passo para me passar uma suspensão de leitura!», disse num folego, em corrida para fora do salão, tão rápida que nem dei oportunidade para qualquer protesto da Ms. Lortz.

Demasiado rápida, talvez, pois não consegui parar a tempo, já no início das escadas, para evitar a colisão com um homem de mão suspensa ao peito, vestido com estranha bata de azul vivo com uma grande cruz dourada desenhada em filigrana à altura do peito.

«Mil perdões!», suspirei, com receio de lhe ter provocado uma nova mazela. Qualquer que tenha sido o acidente que lhe imobilizou o braço, não o impedia de praguejar em voz alta.

«Mil… Mas isso são maneiras de andar numa biblioteca?! Deve vir da província!»

Fiz um gesto com a mão no coração e tentei prossegui a marcha. Quem fala assim não precisa de assistência médica.

 

«Você é assim tão rude que vira costas sem se desculpar decentemente?»

«Acho que me desculpei de forma correta. Lamento, mas estou com pressa.», respondi, voltando-me para o homem.

«Se está com pressa, então podemos ter uma conversa quando lhe for mais conveniente para que eu veja um verdadeiro arrependimento.»

Que raio de conversa era aquela? Estava a ficar exasperada com o tempo e tinha de evitar apanhar uma multa de estacionamento, por isso atirei com uma resposta rápida.

«Amanhã, ao meio-dia, à entrada da biblioteca.»

«Muito bem. Eu vou saber quem você é. E se não aparecer, vai ficar suspensa de entrar na biblioteca!»,  ameaçou-me, a voz em crescendo à medida que eu me afastava em correria degraus abaixo.

Chegada ao andar térreo, deparei-me com duas mulheres, uma delas de grandes proporções, ambas paradas no meio do átrio da entrada, numa conversa molenga como se fossem guardas republicanos incumbidos de uma operação stop numa estrada municipal. Decidida a não esperar que se desviassem do caminho, e pensando que dava para me esgueirar entre elas, prossegui a minha marcha em direção ao interruptor de abertura da porta de vidro da entrada principal.  Nisto, a mais alta e avantajada moveu em arco um dos braços para vestir o casaco. Para evitar dar-lhe um encontrão, girei sobre mim própria, mas na manobra acabei por lhe arrancar o casaco, projetando-o no chão. A outra mulher pegou na peça de roupa, fez um sorriso de escárnio e ofereceu-a de volta à mulher.

«Aqui tens o teu blazer, Xana, mas acho que lhe caiu um “t” do Vuitton…»

A mulher envermelhou-se de raiva como se fosse cuspir fogo e levei na cara com mais uma saraivada de acusações de falta de civismo. «Não sabe abrir os olhos?!»

Olhei para o casaco no chão, levemente irritada com o seu tom de voz. «Vejo muito bem. Bem melhor do que pensa, até consigo ver a etiqueta…», respondi em provocação.

A cara dela ficou ainda mais inchada.

«Em vez de pedir desculpas, ainda faz pouco dos outros?»

Parecia que estava a ouvir um disco riscado. Quer raio de obsessão era esta com os pedidos de desculpa? A mulher cravou os olhos em mim e eu fiquei pregada ali, a querer sair o mais rapidamente possível.

«Lamento, estou cheia de pressa. Noutra altura dou-lhe todas as desculpas que quiser.», disse para a calar, a tentar mover-me em direção à porta. «Amanhã, à uma da tarde, à entrada da biblioteca.», sugeri.

«Muito bem, amanhã, à uma da tarde.»

Virei costas, pressionei o botão e fugi para o exterior mal a porta automática começou a abrir.

«Eu vou saber quem você se não aparecer, vai ver que não volta a pôr os pés nesta biblioteca», ouvi-a gritar ao longe.

Cheguei junto ao carro e o fiscal já lá estava, dobrado a mirar a matrícula do meu carro.

«Desculpe, este é o meu carro. Não tinha moedas para pôr no parquímetro, vim só entregar livros à biblioteca.»

Fitou-me com aquele sorriso dos estronços quando pensam estar a “dominar a cena”.

«E a aplicação?»

«Estava bloqueada, não arrancou.»

«Se calhar não está bem instalada.» disse, com um sorriso que se alastrou imbecilmente para os lados da face. Puxou do telemóvel como se fosse escrever algo. «Não me quer dar o seu número para enviar as instruções de instalação?»

Olhava para mim, seguro na sua pose de anúncio de desodorizante e no corte de cabelo à cromo da bola.

«Prefiro a multa, se faz favor. E sem demoras, estou com pressa.»

Amuado, puxou da máquina de registo que tinha pendurada numa bolsa à cintura. Um homem com livros na mão, também saído da biblioteca, aproximou-se e senti a necessidade de partilhar em voz alta um protesto sobre a injustiça de que estava a ser alvo.

«Não percebo porque é que não há um estacionamento rotativo para a biblioteca. Há tantas facilidades para outros serviços, porque não aqui.», disse, a aguardar um aceno de concordância por parte do outro homem, que agora reconhecia ter visto, momento antes, a selecionar livros na sala de leitura. «E aposto que há aí gente que estaciona o carro para fazer compras na baixa e não paga. Estacionam aqui em frente da biblioteca, não pagam, nem usam a biblioteca, como esse aí, por exemplo, também não tem bilhete.»

O fiscal olhou para o carro do lado.

«Por acaso, este também não pagou. Já lhe trato da saúde.»

O homem com os livros na mão atirou-me uma expressão de desdém.

«Era preciso fazer isso? Ajudou-a a restabelecer o seu equilíbrio emocional? O seu sentido de justiça? Ainda não superou as práticas do jardim de infância?»

Fiquei calada, incapaz de encontrar qualquer justificação.

«Você devia era pedir desculpa pela sua conduta!»

Outra vez o mesmo disco.

«Amanhã, às duas da tarde, à entrada da biblioteca.», atalhei.

«Ahn?» O homem olhou para mim com cara de espanto.

«Amanhã, às duas da tarde, à entrada da biblioteca, eu peço-lhe desculpas. Agora, com a sua licença, tenho de tratar de outros assuntos»

Quando me virei para o fiscal, ele já tinha desaparecido, mas a multa lá estava no para-brisas.

Espera, tenho uma chamada. Vou enviar-te o que já escrevi e volto a falar contigo daqui a pouco.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Biblioteca de Setúbal: https://www.mun-setubal.pt/biblio-publica-municipal/#1530806197415-9becd77a-51b7

Fahrenheit 451: ​https://en.wikipedia.org/wiki/File:Fahrenheit_451_1st_ed_cover.jpg

Belle and Sebastian: ​by Marisa Privitera – from agency Bestest via e-mail, CC BY-SA 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=589335

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