
Dias passados

Pontos astronómicos

Lugares visitados

Sons escutados
30 – A deriva da (in) permanência
Deixámos a enseada ao amanhecer, logo depois de a névoa matinal se dissipar com a leveza sentida numa casa a arejar de janelas abertas. O sol espreitava por entre os ramos de coníferas que não reconheci, talvez abetos e pinheiros, lançando sombras na suave ondulação. Ani vinha connosco, depois de ter pedido ao capitão uma boleia até Sydney. Ele aceitou-a de imediato, em contraste com a resignação com que tinha recebido nas mãos o chá de cevada por ela preparado para nós antes da largada. Uns minutos depois, a expressão de suspeita de um miúdo forçado a tomar um remédio amargo tinha mudado para a de quem sente o reconforto de uma bebida saborosa. Assumiu o leme com o seu habitual silêncio de início de jornada e eu recolhi as amarras. Navegámos lentamente pelas águas interiores, entre enseadas e curvas suaves do lago Bras d’Or. O barco deslizava suavemente nas ondas sob os nossos pés e os cabos murmuravam pianinho nas escotas, como se quisessem manter a tranquilidade daquela manhã. Ao...
31 – O talismã no mastro
Passámos o dia de ontem num molengo descanso. A noite anterior tinha sido longa – ficámos a ver o concerto de música ao vivo até ao fim – e, como hoje é domingo, ninguém estava disponível para ajudar o capitão a fazer a manutenção do Nómada; por isso folgámos o dia. Vimos outros barcos saírem de manhã para um passeio domingueiro e, já depois do almoço, as tripulações a regressarem, ao longo da tarde, revigorados. O capitão andou pelo pontão, em conversa com os navegantes locais, e quando regressou, sentou-se na consola de navegação a tomar notas num dos seus livros de capa preta. Jantámos recolhidos cada um em si mesmo, o capitão a rabiscar nos seus cadernos, eu a tentar ler enquanto comia. Hoje de manhã cedo, saí com uma lista de mantimentos na mão e um casaco que percebi ser demasiado fino para o clima húmido matinal da Nova Escócia, apesar de o vento soprar com uma estranha parcimónia. O céu mantinha-se suspenso num cinzento mineral, sem rasgos nem promessas de sol. «Ao menos,...
29 – Neblina dos Silêncios
Ficámos ancorados em Whycocomagh mais tempo do que esperávamos. Permanecemos em casa da Rita Joe dois dias e ela levou-nos a passear pela região. Regressámos ontem ao Nómada demasiado tarde para fazer sentido zarpar. Por isso, decidimos dormir a bordo sem adivinharmos o que nos esperava no dia seguinte. Quando hoje acordámos, havia uma neblina matinal que parecia uma leve cortina pendurada sobre o lago. Porém, ainda antes de terminarmos o café matinar, transformou-se numa manta espessa, branca como leite e tão densa que o mundo parecia ter-se esquecido da sua forma. O capitão Jackdaw foi buscar um casaco impermeável azul e passou a manhã a verificar previsões meteorológicas no rádio e a observar a água, como se a superfície plácida pudesse contar-lhe um segredo que os mapas não revelavam. Eu tomava notas num caderno, tentando capturar o silêncio espesso que envolvia o Nómada como uma respiração suspensa. A Rita passou de manhã cedo e deixou-nos um embrulho de Lusknikn enrolado num...
28 – Vozes Enterradas
Afinal, não demorou muito a prosseguirmos a viagem, livres dos polícias. O homem de cabelos brancos parece ter uma certa influência sobre as autoridades locais. O capitão regressou com ele ao barco, sorridente. «Temos connosco um novo tripulante. É um prazer receber a bordo o reconhecido inventor Alexander Bell», disse, piscando-me o olho, ao que o homem correspondeu com um aceno e uma saudação com uma voz suave e segura. A expressão da Rita não revelou qualquer surpresa. O Capitão Jackdaw deu-lhe as boas-vindas, com a sua habitual cortesia, sem conseguir evitar olhar para mim com uma expressão que dizia “Sabias que este era o Alexander Graham Bell?”. Dei-lhe um ligeiro encolher de ombros; era novidade para mim também. Bell acomodou-se num dos assentos à popa, enquanto eu e o capitão fazíamos a largada do Nómada. «Esta é a professora Rita Joe.», apontei. «A poeta? Muito prazer em conhecê-la pessoalmente. Somos vizinhos e nunca nos tínhamos cruzado até agora», observou Bell. A...
27 – Visitantes caídos do céu
Acordei cedo hoje. O mar ainda estava escuro, o céu com leves traços de lavanda da madrugada espelhados num mar calmo como não tínhamos ainda encontrado nesta viagem. Ficámos em Kellys Cove, uma pequena enseada junto a New Campbellton, um lugarejo com uma dúzia de casas no lado norte da Nova Escócia, na entrada para os seus lagos interiores. Parámos aqui porque tem um pontão onde pudemos deixar o Handy LoL em segurança, sem sinal das suas perseguidoras, pronto para seguir em direção a New Glasgow e daí de regresso ao seu estúdio em Nova Iorque. Com ele foi o inseparável smartphone cheio de novas selfies tiradas a bordo de um veleiro ao largo da costa oceânica que ele irá transformar em arte e de arte em dinheiro. O pontão era também o ponto de encontro com o próximo membro da tripulação. «Chega amanhã de manhã, é uma professora primária que veio fazer uma caminhada em Cape Dauphin e que aproveitou a nossa passagem para regressar a casa a velejar.» Estava ainda a dissipar-se o vapor...
26 – Sell fee? Selfie?
O capitão não descansou nas primeiras horas após a nossa largada, sempre a tentar manter a máxima velocidade junto à costa, com a intenção de encontrar um refúgio para as despistarmos. O vento soprava húmido e frio vindo do mar e uma névoa envolvia o convés como uma constante ameaça de cair sobre nós um véu espesso a qualquer momento. O capitão, de olhos semicerrados e mãos firmes no leme, lançava olhares rápidos ao horizonte, como se esperasse ver silhuetas a emergirem da bruma. «Aquilo é que são verdadeiras fãs.», ironizou o capitão. Handy Lol, encolhido num dos bancos da popa, puxava nervosamente a gola do casaco, como se quisesse esconder-se dentro dele. «Ela odeia-me.», repetiu várias vezes o novo tripulante, dividindo o olhar entre nós e o horizonte à popa do veleiro. O seu rosto, pálido e tenso, parecia lutar contra algo mais do que o enjoo. Os olhos, inquietos, procuravam na névoa uma ameaça invisível. «E ela tem razão para isso?» «Ela diz que só sente desprezo por mim, por...
25 – A abordagem das feministas
Os últimos dias passados em Peggy Cove foram perfeitos para recarregar as baterias depois de uma travessia do Atlântico Norte. O capitão Slocum levou-nos a conhecer Mount Hanley, a sua terra natal, e fizemos o percurso ao longo de quase toda a costa marítima da Nova Escócia. Não queria sair daqui sem explorar ao máximo a beleza natural deste território, mas cá estou de trouxa ensacada e pronta para zarpar. Não é tanto por ter um certo sentimento de obrigação em acompanhar o capitão – até onde e durante quanto tempo, ainda não sei – mas sobretudo por sentir a morder o bichinho da curiosidade sobre o que é que ele anda a fazer nesta volta ao mundo. E se terei algum papel nisso tudo. Estava a matutar nisto a caminho do cais quando vi uma multidão no pontão em torno do nosso barco. Já estava na expetativa de encontrar mais um conselheiro político na tripulação, ou até mesmo um político popularucho, a julgar pela amalgama de gente, mas afinal era um “influencer”. Nunca tinha visto tanta...
24 – Rituais de Navegantes
Suponho que estejas familiarizado com certas práticas cerimoniais que ocorrem durante os solstícios de verão e de inverno. O mais badalado é Stonehenge, mas em vários países nórdicos os festivais de verão são o principal evento cultural do calendário e entre as nações indígenas do continente americano há celebrações nestes dias que evocam a sua ligação com a natureza. Pois, a noite passada testemunhei algo semelhante que trouxe algum sentido aos eventos das últimas semanas, embora tenha levantado novas questões que dificilmente serão respondidas, pelo menos por agora. Depois do pequeno-almoço com o capitão Slocum e o DeGarthe no dia da nossa chegada, ficámos a descansar o dia todo e ontem dormirmos até tarde. Precisávamos de recuperar energias depois de uma travessia do Atlântico Norte. Hoje de manhã, visitámos Peggy’s Cove, demorando-nos a admirar a arquitetura local e o efeito da maré na configuração deste pequeno lugarejo de cerca de 30 moradias. Depois do almoço, tivemos uma...
23 – Chegada a Peggy Cove
Chegámos a Peggy’s Cove, na costa da Nova Escócia, no Canadá. O céu estava limpo, mas o ar trazia aquele frio cortante que só o Atlântico Norte sabe soprar. Sinto uma ligeira vertigem ao pensar nas milhas de oceano que nos separam, cada um de nós de um lado diferente do Atlântico. O mundo cresce à medida da nossa consciência, no reconhecimento de rotinas desfasadas em locais diferentes: uma enfermeira na Califórnia que sai de casa para o trabalho com os filhos que deixará na escola, um taxista na Nigéria que exaspera com as filas de trânsito do final da tarde em Lagos, um funcionário de uma bomba de gasolina em Alice Springs que termina o turno com o nascer do sol na Austrália… Recordo-me daquele filme de Jim Jarmush que vimos no Luísa Todi com o título “Uma noite na Terra” ou algo parecido. Diferentes culturas certamente, mas as dimensões básicas de espaço e tempo separam-nos: horas de acordar para ti quando ainda estou a meio do sono; pequeno-almoço aqui quando almoças aí. Falando...
22 – Sextantes e Singularidades
Ao cair da noite, o Vachia Meli recolheu ao seu camarote, provavelmente ainda toldado pelo corretivo que lhe tinha dado no meio dos… arcos superciliares. Eu e o Capitão Jackdaw ficámos no convés, a exercitar a leitura da nossa posição com o sextante. Eu sei que ele sabia que eu estava a morrer por me lançar sobre o assunto que tinha ficado pendurado, como te contei, mas não queria pressionar a conversa. E ele sabia disso também. Foi então que o Capitão disse como quem comenta a posição de uma estrela no firmamento. «O Vachia Meli está a bordo porque isto já não é sobre pessoas, é sobre narrativas em trânsito.» O meu olhar deve ter tornado claro que não tinha apanhado a parte silenciosa do seu pensamento. «Estás a sentir, não estás?», disse. Surpreendi-me mais com o tom pessoal dado pela informalidade dos verbos do que pela questão em si. «O mundo começou a entortar-se há umas décadas. Muito subtilmente, como uma fita magnética mal rebobinada. E agora é isto: as histórias estão a...
21 – O ringue da virtude
Ontem estive perto de cometer inadvertidamente um crime e tudo por culpa do capitão. Depois da experiência psicadélica do submarino amarelo, continuava a sentir-me um pouco tonta e, para evitar uma indisposição ainda maior, decidi deitar-me e descansar um pouco. Acordei com o dia a raiar, espantada por o capitão não me ter acordado para fazer um quarto à noite, e levantei-me para me preparar para o dia. Estava no salão a beber água quando senti um movimento atrás de mim e uma mão sobre a anca. «Eh, bela!» Todos os alarmes dispararam no meu corpo e, confirmando num relance que não era o capitão quem me abordava, puxei a tábua de cortar do suporte por cima do fogão e dei com ela na testa do intruso com toda a força, deixando-o de joelhos. «Não na cabeça!!», gritou o capitão, descendo do convés. O desconhecido ainda estava consciente e praguejava entre os dentes, a tentar levantar-se sem sucesso até o capitão o pousar no assento grande do salão. «Como é que podia adivinhar que estava...
20 – Submersão alucinada
Voltei a ter um episódio como aquele da tatuagem em Setúbal, sem conseguir distinguir sonho de realidade. Só que desta vez não se tratou de lapsos de memória e de saltos no tempo e no espaço: toda a realidade estava alterada, como se tivesse sofrido um ataque de sinestesia total. Tinha adormecido ao som da discussão dos três tarolas quando um balanço me fez levantar para ver o que se passava. Ao chegar ao convés, fiquei inundada com a cor de vinho tinto do mar dos clássicos gregos e ondas de música pop-rock a planar sobre as águas tranquilas como lençóis amarelos numa brisa gentil. Não estou a ser metafórica: eu conseguia sentir o cheiro a vinho tinto do mar à nossa volta e conseguia ver as ondas amarelas da música. E não era a única. «Já ouviram o barulho destas nuvens?», repetia Russo de cabeça dobrada a inspecionar o céu. «E o cheiro delas?», acrescentava Bad Tom, de nariz empinado a abrir as narinas incessantemente. «Cheiram a plantas distantes, poeiras longínquas, terras...
19 – Pedagogias
O encontro com o trimarã quebrou o nosso isolamento e apagou a sensação de estarmos sozinhos no mundo. Contudo, teve também o peculiar efeito de acender um desejo de estar em terra e de ver pessoas à volta, coisas a acontecerem em vez do marejar das ondas. «Ainda vai demorar um pouco mais até chegarmos a terra, mas vão poder ver caras diferentes amanhã.», revelou o capitão. Mais encontros no alto-mar? Aparentemente, o capitão tinha recebido uma comunicação via rádio a indicar que o capitão Nemo, um dos capitães que conheci nos Açores, estava à nossa espera com o seu submarino. Os nossos três tripulantes ficaram radiantes com a perspetiva de um encontro com um submarino no alto mar. A noite foi animada, com um jantar bem regado –a garantia de mantimentos provenientes do submarino e um mar tranquilo como um lago permitiram uma refeição longa sem balanços – e um debate em torno de um valente arroto libertado por Russo. «Não te deram educação em pequeno?», criticou Locke. «E a que...
18 – Algures rumo à Terra Nova
Após três dias consecutivos sem vento, retomámos a marcha. O capitão explicou que rumámos um pouco para sul para fugir a uma alta pressão que se desloca para oeste e para evitar também algum icebergue mais resiliente que tenha conseguido escapar mais para sul. Agora estamos a seguir diretamente para oeste e depois para noroeste rumo à Nova Escócia. Pelo que percebi, o caminho a direito não é necessariamente o mais rápido, sobretudo por causa do vento. Estamos agora a navegar mais rapidamente, com vento da alheta. O nome desta mareação deve ter dado origem à expressão “pôr-se na alheta”, visto ser a que permite velocidades mais elevadas. O capitão diz que, se tivermos sorte, vamos conseguir passar antes de uma nova acalmia chegar à nossa rota. De todo o modo, está a ser muito agradável, a temperatura não desce abaixo dos 15 graus e durante o dia estão 17 graus. Mais umas semanas e, quando chegarmos finalmente chegarmos às Caraíbas, vai dar para andar de biquini! É Santo António e...
17 – Marinheiro cósmico
Estamos bem longe do triângulo das Bermudas, mas tivemos um estranho encontro em alto-mar. Talvez esta zona do atlântico norte seja a porta das traseiras do triângulo. Tentei memorizar as coordenadas – 41.70 e qualquer coisa norte e 41.40 qualquer coisa oeste – quando o capitão as anotou no diário de bordo. A embarcação que avistámos não era nada de especial, à primeira vista, apenas mais um veleiro na travessia do Atlântico. Fez rumo na nossa direção e nós na direção dele, o nosso motor ligado porque estávamos numa estranha zona de calmaria no oceano. Era um trimarã com um casco branco muito coçado, provavelmente há muito tempo a navegar sem manutenção, a julgar pelo apagamento de algumas das letras do nome, inscrito num rosa que já fora vermelho em tempos. Apenas se conseguia ler “mouth”. «Ponham as defensas, acho que eles querem acostar.», ordenou o capitão. Um calafrio percorreu a minha espinha a pensar que estávamos completamente sozinhos e que não teríamos ajuda de ninguém caso...
16. Nomes possessivos
Ninguém poderá dizer que atravessar o Atlântico na companhia dos nossos três tripulantes é aborrecido. Quando o tempo é menos agressivo e permite relaxar a atenção, há sempre uma conversa interessante e, nos raros momentos de silêncio, o capitão lança a discussão. «No ano passado, ao passar por Antuérpia no caminho de regresso a Portugal, cruzei-me com um outro português chamado Rafael, que nos entreteve quase toda a noite com o relato de uma ilha onde não há propriedade privada e as sanitas são de ouro!» «Sanitas de ouro!? Onde é que fica essa ilha?», perguntei com espanto. «No Atlântico Sul, perto de», Locke tossiu sonoramente sobre a voz do capitão, «fora das rotas marítimas. Mais extraordinário do que o material das suas casas de banho é toda a organização daquela sociedade. Fiquei a pensar que ou aquela gente passou por um processo social evolutivo diferente do nosso ou a sua forma de governo modificou a natureza humana que partilharíamos há muito tempo.» Podia ver no semblante...
15. Um contrato para a vida
Desta vez, a preparação da partida foi feita num ritmo tranquilo, sem a pressão da maré ou das horas de chegada a cumprir. Isso não significou, porém, que o Capitão ficasse a roncar até tarde. Levantou-se com o nascer do sol e começou a ultimar os preparativos para a viagem, que já tinham sido iniciados uns dias antes. Não era para menos: uma travessia do Atlântico Norte, possivelmente durante 15 dias ou mais, com 5 pessoas a bordo, tinha de ter tudo planeado ao mais ínfimo detalhe. Quando cheguei ao cais, boa parte do trabalho já tinha sido adiado e ajudei só na conclusão das últimas tarefas. Depois, fomos aos Metralhas para o último almoço em terra das próximas semanas, e rever a lista dos preparativos, da palamenta e dos mantimentos. Passámos pelos nossos aposentos para um derradeiro duche sem balanços, uma troca de roupa e a recolha dos restantes artigos pessoais. Na caminhada de regresso ao cais, não resisti a inquirir sobre o perfil dos conselheiros políticos que teríamos de...
14. Corvo madrugador
Uma noite a deambular por esta ilha e sente-se o seu isolamento. Não se escuta o som de ninguém a regressar de algum lado ou a escapulir para um outro sítio, nenhum ressoar mecânico noturno a espalhar-se rente ao chão, nenhum eco distante de veículos em movimento. Apenas o bater inalterável, incessante e impiedoso das ondas num cerco apertado. Ainda estou no processo de ambientação à banda sonora marinha e não conseguia dormir. O som do mar que conhecia era aquele murmurar pueril da ondulação feito pelas aplicações de smartphones para relaxar, mas a noite passada o meu quarto estava inundado pelo ressonar vibrante de um velho e gordo oceano. Saí para reduzir a tensão, distrair a mente e ver a paisagem noturna, a pensar que, se calhar, até me cruzava com alguém ou encontrava um estaminé aberto. Estava tudo fechado, mas perto do aeródromo, junto ao muro do cemitério, fui surpreendida pelo som de vozes numa conversa abafada. Ansiosa por perceber quem conversava em surdina e sobre o...
13. Sic.. et Non
«Os corações dos homens e das mulheres são movidos mais por exemplos do que por meras palavras e encontram consolo no testemunho do sofrimento daqueles que, quando comparadas as misérias de uns e outros, merecem mais a nossa compaixão. É por isso que conto sempre o trilho que me trouxe até aqui, para que quem me procura descubra a leveza das suas penas face às minhas tribulações e, dessa forma, possa enfrentar os seus obstáculos com maior facilidade». Parece tirado de um épico bíblico em technicolor, não parece? Foi com este sermão que o ermita do Corvo nos recebeu — depois de umas breves saudações protocolares, mãos apertadas com a solenidade dos que já não têm pressa e nomes trocados com aquele ar de quem não vai decorar nenhum. Chamam-lhe Abelardo. E tal como tinha anunciado, começou, sem que ninguém pedisse, a contar a história da sua queda, provavelmente relatada tantas vezes que se tornou prólogo para quem se junta ao retiro. «Não sou de cá. Nem do campo, nem do mar. Sou um...
12. Bisca sem trunfos
Não sei que espécie de feitiço sofri ou se alguém a bordo me deitou algo na comida, o certo é que dormi profundamente logo a seguir à última garfada do jantar. Acordei quando já estávamos a fazer a aproximação à ilha, a pouco mais de três milhas de distância. Mal tinha acabado de despregar as ramelas dos olhos com a ponta dos dedos vi imediatamente que tínhamos chegado a um enorme calhau batido pelas vagas do Atlântico no meio de nenhures… Qualquer resquício de sono liquefez-se corpo abaixo ao nos aproximarmos do Porto da Casa, nome dado ao ancoradouro da ilha do Corvo, encaixado no recanto mais doméstico da ilha, aos pés da vila, mas insuficientemente resguardado para proteger uma atracagem. Aos nos aproximarmos, parecia que as vagas ignoravam o comprimento reduzido da muralha e tomavam conta de toda a costa. Imagino que em dias de maior vendaval, com as vagas a empurrarem uma embarcação, seja possível entrar pelo Porto da Casa adentro e aterrar no aeroporto, a cerca de cem metros...
11. Cem olhos esgazeados
Esta foi uma semana de nervos para o Capitão Jackdaw. Notei-lhe o desconforto no andar e no olhar — ansioso por largar amarras, mas com o vento a troçar-lhe dos planos. Uma calmaria persistente manteve-nos em terra firme, quando o que ele mais queria era rumar ao Corvo. Pelo que fui percebendo, houve uma alteração no plano de viagem. Começo a suspeitar de que há outro mapa — invisível para mim — a traçar a rota do Nómada. Estava previsto seguirmos para as Caraíbas depois dos Açores, e agora vamos para a Nova Escócia. Eu sei... da frigideira para o frigorífico. O mais estranho é que essa mudança aconteceu depois do encontro no Farol dos Capelinhos. Ao longo da semana, ouvi o Capitão em várias chamadas telefónicas discretas. Não consegui apanhar grande coisa, mas anteontem dois dos outros capitães — o Nemo e o Corto Maltese — passaram pela casa e ficaram a conversar na rua, em voz baixa, quase sussurros. O que apanhei foi pouco, mas suficiente para deixar marca: ouvi o Capitão Nemo...
10. O encontro dos capitães
Lembras-te das aventuras dos Cinco? Os Cinco no Lago Negro e os Cinco e o Comboio Fantasma eram as minhas histórias favoritas por serem mais noturnas. Pois, não vais acreditar, mas esta noite vivi uma aventura do mesmo tipo, daquelas em que alguém diz «Se aparecer alguém, faça um sinal com as luzes». Como te tinha dito, fomos para o encontro de capitães no Peter Café Sport. Trata-se de um lugar mítico para a comunidade mundial de velejadores. Começou por ser uma loja, mas depois mudou de instalações para junto do porto e um dos filhos do proprietário decidiu ampliar o espaço e criar um bar vocacionado para os homens do mar. O nome Peter era uma espécie de alcunha do filho que explorava o bar; era assim chamado por um oficial da marinha inglesa que o achava parecido com o seu filho Peter, e o nome ficou. «Aproveito para levantar o correio que tenho aqui à minha espera», disse o capitão. «O bar é um posto de correios também?» «Antes dos e-mails e das mensagens instantâneas, os...
9. Viagens do horror
Acredito que ninguém no meu lugar deixaria de pensar sobre as misteriosas companhias do Capitão Jackdaw. Primeiro o misantropo faroleiro e o extravagante capitão Ed, depois o nosso companheiro de viagem até à Horta, o aventuroso jornalista das *Voyages Extraordinaires*, e agora um futuro passageiro, o excêntrico Mr. Peu, o sócio de Verlin na agência de viagens “Grotesco e Arabesco”. «Provavelmente, iremos encontrá-lo em Boston. Deverei ter a confirmação antes de atravessarmos o Atlântico», adiantou o Capitão, enquanto dobrávamos a ponta da ilha em direcção ao porto. «A companhia de Monsieur Peu vão adorar», garantiu Verlin, com um daqueles sorrisos oblíquos que nunca se sabe se anunciam uma revelação ou uma mentira estética. A agência de viagens dos dois parceiros está especializada em fornecer serviços àqueles que, sendo podres de ricos e estando enclausurados numa existência de tédio, procuram novas e cardíacas sensações para animar o corpo e o espírito. Pelo que Verlin explicou,...
8. Falar mareado
A jornada entre Santa Maria e o Faial está a ser tranquila como um passeio de fim de semana, e até agora temos tido vento calmo ao largo de cinco nós. As condições são as ideais para todos a bordo relaxarem e conversarem. Quando digo todos a bordo, refiro-me a mim própria, ao capitão e a mais um tripulante; mas é uma personagem que vale por muitas e cuja forma peculiar de organizar o discurso dá o mesmo trabalho que tentar entender duas ou três pessoas ao mesmo. O seu nome é Jules Verlan, intrépido explorador e jornalista da revista “Voyages Extraordinaires”. Só que para explorador, enjoa muito facilmente no mar e quanto aos seus dotes como jornalista espero que os artigos tenham uma ordem discursiva com uma coesão diferente e uma coerência mais fácil de apreender. É que não conseguiu produzir um único enunciado na ordem normal de constituintes frásicos. «San Michelle, este é o nome do meu barco, com dois mastros um veleiro que olhar demoradamente dá gosto.» «E é lá que escreve todos...
7. No farol do barbalhudo
Passámos o fim de semana a recuperar da ressaca do mar. No dia seguinte à chegada ainda estava com o corpo moído, mas saímos para esticar as pernas e visitar a vila. É uma localidade aninhada em comprimento ao longo de um estreito vale com três ou quatro ruas dispostas da zona habitacional cumeeira até ao pequeno porto acoitado numa apertada enseada sob a vigilância de um antigo forte. Se largasses um berlinde à porta da primeira casa do morro iria descer direitinho para o mar sem se desviar mais do que uma dezena de metros. Do lado poente do porto sai uma estrada que liga ao aeroporto, alinhado com a costa oeste da ilha de Santa Maria. Para leste ficam meia dúzia de lugarejos, vinte ou trinta casas em cada um deles, e o farol de Gonçalo Velho, onde tínhamos encontro marcado para um jantar em casa do faroleiro, um antigo amigo do capitão Jackdaw. O farol fica isolado no topo do extremo da ponta sudeste da ilha, acessível apenas por uma estreita estrada com escadas ao centro. É um...
6. Abduções e conspirações
Prepara-te para mais uma voltinha no carrossel da fantasia… A chegada a Santa Maria não teve nada de convencional. E não foi só por termos passado uma semana de monotonia no mar, sem mais nada para ver do que ondas, em conversa com as mesmas figuras. Se estás a ler as mensagens pela ordem correta, sabes que o capitão decidiu que eu ficaria ao leme durante a aproximação ao porto. Era madrugada ainda, o céu limpo a perder rapidamente o tom azul-escuro, com as primeiras luzes do dia a tentarem passar por cima das escarpas, vindas do lado leste da ilha. O mar, depois da longa travessia, parecia estar resignado, deixado sozinho sem uma única brisa como companhia. Com o motor a funcionar – as velas tinham sido recolhidas antes, quando nos pusemos aproados ao vento para as baixar sem pressas – e eu seguia as instruções do capitão com a concentração de uma estudante aplicada no seu primeiro exame de navegação noturna. «Mais para bombordo… assim… isso, mantenha o rumo», dizia ele, com a voz...
5. Heróis e heroínas
«A navegação marítima tem tanto de científica como de adivinhação». Este foi o meu desabafo ao avistarmos as luzes de Vila do Porto e, de imediato, fui repreendida. «Tudo o que fizemos no nosso percurso poderia ser previsto se tivéssemos todos os elementos necessários para o cálculo», argumentou o Carlos Sage. Já não posso ouvir tanta objetividade científica! Eu sei, é injusto porque ele até é um tipo impecável. Acho que este azedume é porque estou cansada e se estou a escrever a esta hora, ainda no mar, é porque sei que vou dormir muitas horas e não vou ter vontade de me sentar em frente de um computador tão cedo. Vou apenas ligar-me à internet e enviar-te as mensagens escritas a bordo nesta última semana. São quatro da manhã e finalmente estamos a chegar a Santa Maria. Passámos os dois últimos dias, mais de 120 milhas, a bolinar e a bolinar, com o vento a rondar e a trocar-nos as voltas. A temperatura não esteve desagradável, mas passámos boa parte do tempo sem sol e sem lua. Um...
4. Um kit para detetar balelas
Com tanta água à volta, parece estranho dizer que a viagem tem sido uma seca nos dois últimos dias. O problema é a falta de vento... Para tentar escapar à depressão – a mesma que, aparentemente, causou pequenos tornados aí em terra –, o capitão fez rumo ao Bancos de Gorringe, a 120 milhas de Sagres. Até aí fomos a voar. Depois, apontámos à Madeira e chegámos a pensar que iríamos até parar lá um dia, mas fomos apanhados pela calmaria que vinha a apanhar o restos do reboliço deixado pela depressão… Dois dias de mar completamente liso, a imaginar a Madeira mesmo ali ao lado. «Não estamos mesmo ao pé da Madeira! Estamos a mais de 200 milhas, isso é mais do que a distância entre Lisboa e Porto.», clarificou o capitão, como se isso nos fizesse mais felizes. Felizmente, o vento voltou. Só que agora estamos a ir mais para norte para evitar outra baixa pressão que vai passar ao largo dos açores em direção à Madeira e, nesta manobra, estamos a tentar escapar a outra calmaria!... Há uma certa...
3. A jornada da heroína
Sinto que agora a aventura verdadeiramente começa. Como no folhear das primeiras páginas de um romance, em que a mente analítica sustenta a leitura de cada frase a medir o potencial de interesse dos parágrafos e parágrafos que vêm a seguir, assim passei estes primeiros dias a tentar avaliar o sentido deste peculiar projeto. É um cálculo emotivo, se tal coisa existe, que procura estabelecer uma empatia com algo que não é mais do que expetativas baseadas em sensações construídas sobre alicerces de justificações amalgamadas. Não é para menos, pensando nos riscos inerentes a uma viagem com esta dimensão, mas a minha resistência a lançar-me neste desafio provinha do receio de um eventual divórcio após uma frustrante descoberta do esmorecimento da novidade dos espaços e dos elementos que os habitam, transformados numa rotina de gestos e palavras em dias sucessivamente indistintos. Como te disse, sinto que agora a aventura verdadeiramente começa porque abandonei os estorvos que limitavam o...
2. No bar do Ricky
Primeira semana após a partida e o plano da viagem já está em risco de ser alterado. Tudo correu bem até chegarmos ao porto da Baleeira, junto ao cabo de Sagres, a meio da manhã. Foram 93 milhas tranquilas que até deram para dormir profundamente. Quando o Nómada se aproximou do porto, aproámos ao vento e baixámos as velas. Ligámos o motor e pusemo-nos a rumar lentamente em direção aos pontões, o capitão ao leme e eu a preparar as defensas e os cabos de amarração. Nisto, o motor engasgou-se e morreu. Tentámos pô-lo a trabalhar — uma, duas, três vezes — nada. O vento, que ali sopra com obstinação, começou a empurrar-nos na direcção dos ilhotes do Martinhal. O capitão praguejou baixo e, com um movimento resoluto que não deixava perceber se era animado por raiva ou cálculo, correu para a proa para lançar o ferro na esperança de nos mantermos afastados das pedras. De súbito, surgiu uma moto de água a grande velocidade, vinda detrás dos ilhotes, como se alguém estivesse a filmar um anúncio...
1. Reviravolta ao mundo
Há uma calma hesitante quando a noite desce sobre o mar, o resquício de uma memória da infância quando as luzes do quarto eram apagadas pelos meus pais e eu ficava no escuro atenta às ténues sombras formadas pela luminosidade a marejar pelas frinchas da porta. O coração começava a bater mais acelerado com os sentidos aguçados a tentarem detetar ruídos e flutuações na penumbra, mas depois acalmava, segura de que a altura da cama e a espessura dos cobertores eram uma proteção suficiente para qualquer ameaça a vaguear no quarto. O mar noturno é um quarto escuro cuja assustadora imensidão revela o isolamento do indivíduo. Não te quero assustar com estas palavras, apenas expressar como é intenso estar sozinha ao leme do barco rodeada pelo vazio de referentes visuais. O constante movimento das ondas torna impossível situar-me no espaço e, apesar de estar rodeada de matéria, nunca senti deste modo a possibilidade do nada. O capitão entregou-me o primeiro turno de vigia até às 3h00 e está a...
Prólogo 5. Uma conversa peripatética
Voltei agora a casa depois do encontro com o Silva. Ele estava à minha espera na Adega dos Frades, sentado na mesa habitual, junto à parede de azulejos gastos, com a bengala encostada ao tampo da mesa de madeira. Não te acontece sentires que estás a regressar à verdadeira realidade vinda de um sonho no futuro quando chegas a um sítio familiar cheio de memórias acumuladas como pó nas estantes que escapam ao pano da limpeza? É esse estranhamento que sinto cada vez que vou à Adega. Naturalmente, o facto de ser no andar térreo do edifício da pensão é motivo suficiente para me perturbar. A Adega continua a ser um espaço onde o tempo passa lentamente, demorando-se em cada mesa a tomar um trago, noutra mesa a discutir as notícias, a atrasar-se numa partida de sueca e a adiar a saída para mais um copo e uma história. As paredes são guardiãs de memórias fotográficas – clientes de outras eras alinhados em poses de brinde, a vizinhança em festiva procissão nas marchas dos Santos Populares, uns...
Prólogo 4. Regresso do passado
Tenho mais novidades, mas deixa-me acabar esta história antes que me escape qualquer detalhe. Já percebeste: foi uma noite que não pertence a este mundo. E o mais estranho ainda não tinha acontecido. Estava a tentar perceber como tinha ido parar ao meio da Rua dos Mareantes, afastada da entrada do “La Bohème”, quando ouvi uma voz atrás de mim, familiar, mas distorcida como numa gravação antiga. «Olha quem está aqui, estás boa?» Virei-me e dei de caras com um estranho quadro: a minha velha guarda, os meus amigos de infância, que já não via todos juntos há imenso tempo, desde a adolescência, talvez. O Manel dos Frades, com olheiras na pele fina do rosto, cavadas por longas horas de trabalho e muitas de borga também; o Mac, sempre perfumado para tentar mascarar da sua memória o cheiro gorduroso da fast-food; o Barão, magro e pálido na sua elegância de aristocrata falido; e o Mr. T “himself”, chegado de Cebolas de Cima, a exibir a caveira desbotada na t-shirt da última tourné da sua...
Prólogo 3. Mareantes submergidos
Desculpa a nova interrupção, era o administrador do condomínio, veio deixar-me o regulamento do prédio – um texto denso e repleto de preceitos menores em papel. Só mesmo o típico apreço das formalidades exibido pelos titulares de cargos menores explica a sua insistência em me entregar um exemplar pessoalmente, acompanhado de longas platitudes. Estou a considerar deixar a cidade e precisarei de um inquilino responsável a tomar conta do apartamento por uma longa temporada. Tudo isto parece muito súbito, talvez até maníaco, mas as razões para o meu desassossego estão ligadas à história que me esforço por te narrar com fidelidade. Como deves imaginar, acabei por ir com o casal francês ao “La Bohème”. Não te sei explicar porquê, talvez aquela espécie de fascinação que os espíritos livres exercem sobre as almas cansadas da rotina ou talvez a vontade de um concerto de jazz. Como dizia a minha avó Maria, o trabalho é cavalo manso que não foge — e lá fomos. Num pulo saímos da esplanada,...
Prólogo 2. Contingências na esplanada
Desculpa a interrupção, recebi uma chamada da minha chefe. Quer falar comigo, provavelmente para me despedir. É que ontem, depois de ela me mandar a mensagem, acabei mesmo por não lhe enviar o trabalho. Eu explico, deixa-me tentar retomar o fio à meada. Depois de ter apanhado com a multa, fiquei ali, especada defronte da biblioteca, a pensar no que se tinha passado. Aquela história dos pedidos de desculpa estava a incomodar-me, uma espécie de comichãozinha na cabeça. Que trio de personagens intolerantes eram aqueles para ficarem tão enxofrados? Além disso, tinh a Ms Lortz lá dentro, à espera de me dar uma coça... Não conseguia pensar se havia de entrar na biblioteca ou regressar a casa para terminar o relatório se molengava há semanas como uma preguiça no calorzinho do monitor do meu computador. «Que se lixe! Se enviar o trabalho antes ou depois da meia-noite, não faz diferença.» Decidi sentar-me preguiçosamente na esplanada que fica mesmo ao lado da biblioteca e deixar todas as...
Prólogo 1. O início já vai a meio
Já te aconteceu quereres contar algo que te sucedeu e teres de voltar muito atrás para lhe conseguires dar um sentido? É por isso que te peço paciência ao leres o meu e-mail, este longo testamento. As últimas 24 horas foram tão surreais que ainda me questiono se não sonhei tudo. Tenho a certeza de que te lembras das aulas do Professor Ribeiro, daquelas em que ele nos servia mitologia às 8 da matina como se fossem torradas quentes. A história de Teseu, do Minotauro e do novelo que salvou a pele ao herói? Na altura, rimo-nos quando o Calhotas considerou ter sido demasiado ingénuo ninguém levar um GPS; foi mais uma daquelas bocas anacrónicas com que ele escangalhava as aulas. E depois, o professor Ribeiro apontou que rastrear o novelo de volta era seguir a memória do trilho e, ao mesmo tempo, seguir o fio da narrativa que dá sentido à aventura do herói e que é isso que fazemos quando contamos uma história. Não sei porquê, mas isto ficou-me colado na memória porque explicou uma...
Termos e Condições
