
Dias passados

Pontos astronómicos

Lugares visitados

Sons escutados
14. Corvo madrugador
Uma noite a deambular por esta ilha e sente-se o seu isolamento. Não se escuta o som de ninguém a regressar de algum lado ou a escapulir para um outro sítio, nenhum ressoar mecânico noturno a espalhar-se rente ao chão, nenhum eco distante de veículos em movimento. Apenas o bater inalterável, incessante e impiedoso das ondas num cerco apertado. Ainda estou no processo de ambientação à banda sonora marinha e não conseguia dormir. O som do mar que conhecia era aquele murmurar pueril da ondulação feito pelas aplicações de smartphones para relaxar, mas a noite passada o meu quarto estava inundado pelo ressonar vibrante de um velho e gordo oceano. Saí para reduzir a tensão, distrair a mente e ver a paisagem noturna, a pensar que, se calhar, até me cruzava com alguém ou encontrava um estaminé aberto. Estava tudo fechado, mas perto do aeródromo, junto ao muro do cemitério, fui surpreendida pelo som de vozes numa conversa abafada. Ansiosa por perceber quem conversava em surdina e sobre o...
13. Sic.. et Non
«Os corações dos homens e das mulheres são movidos mais por exemplos do que por meras palavras e encontram consolo no testemunho do sofrimento daqueles que, quando comparadas as misérias de uns e outros, merecem mais a nossa compaixão. É por isso que conto sempre o trilho que me trouxe até aqui, para que quem me procura descubra a leveza das suas penas face às minhas tribulações e, dessa forma, possa enfrentar os seus obstáculos com maior facilidade». Parece tirado de um épico bíblico em technicolor, não parece? Foi com este sermão que o ermita do Corvo nos recebeu — depois de umas breves saudações protocolares, mãos apertadas com a solenidade dos que já não têm pressa e nomes trocados com aquele ar de quem não vai decorar nenhum. Chamam-lhe Abelardo. E tal como tinha anunciado, começou, sem que ninguém pedisse, a contar a história da sua queda, provavelmente relatada tantas vezes que se tornou prólogo para quem se junta ao retiro. «Não sou de cá. Nem do campo, nem do mar. Sou um...
12. Bisca sem trunfos
Não sei que espécie de feitiço sofri ou se alguém a bordo me deitou algo na comida, o certo é que dormi profundamente logo a seguir à última garfada do jantar. Acordei quando já estávamos a fazer a aproximação à ilha, a pouco mais de três milhas de distância. Mal tinha acabado de despregar as ramelas dos olhos com a ponta dos dedos vi imediatamente que tínhamos chegado a um enorme calhau batido pelas vagas do Atlântico no meio de nenhures… Qualquer resquício de sono liquefez-se corpo abaixo ao nos aproximarmos do Porto da Casa, nome dado ao ancoradouro da ilha do Corvo, encaixado no recanto mais doméstico da ilha, aos pés da vila, mas insuficientemente resguardado para proteger uma atracagem. Aos nos aproximarmos, parecia que as vagas ignoravam o comprimento reduzido da muralha e tomavam conta de toda a costa. Imagino que em dias de maior vendaval, com as vagas a empurrarem uma embarcação, seja possível entrar pelo Porto da Casa adentro e aterrar no aeroporto, a cerca de cem metros...
11. Cem olhos esgazeados
Esta foi uma semana de nervos para o Capitão Jackdaw. Notei-lhe o desconforto no andar e no olhar — ansioso por largar amarras, mas com o vento a troçar-lhe dos planos. Uma calmaria persistente manteve-nos em terra firme, quando o que ele mais queria era rumar ao Corvo. Pelo que fui percebendo, houve uma alteração no plano de viagem. Começo a suspeitar de que há outro mapa — invisível para mim — a traçar a rota do Nómada. Estava previsto seguirmos para as Caraíbas depois dos Açores, e agora vamos para a Nova Escócia. Eu sei... da frigideira para o frigorífico. O mais estranho é que essa mudança aconteceu depois do encontro no Farol dos Capelinhos. Ao longo da semana, ouvi o Capitão em várias chamadas telefónicas discretas. Não consegui apanhar grande coisa, mas anteontem dois dos outros capitães — o Nemo e o Corto Maltese — passaram pela casa e ficaram a conversar na rua, em voz baixa, quase sussurros. O que apanhei foi pouco, mas suficiente para deixar marca: ouvi o Capitão Nemo...
10. O encontro dos capitães
Lembras-te das aventuras dos Cinco? Os Cinco no Lago Negro e os Cinco e o Comboio Fantasma eram as minhas histórias favoritas por serem mais noturnas. Pois, não vais acreditar, mas esta noite vivi uma aventura do mesmo tipo, daquelas em que alguém diz «Se aparecer alguém, faça um sinal com as luzes». Como te tinha dito, fomos para o encontro de capitães no Peter Café Sport. Trata-se de um lugar mítico para a comunidade mundial de velejadores. Começou por ser uma loja, mas depois mudou de instalações para junto do porto e um dos filhos do proprietário decidiu ampliar o espaço e criar um bar vocacionado para os homens do mar. O nome Peter era uma espécie de alcunha do filho que explorava o bar; era assim chamado por um oficial da marinha inglesa que o achava parecido com o seu filho Peter, e o nome ficou. «Aproveito para levantar o correio que tenho aqui à minha espera», disse o capitão. «O bar é um posto de correios também?» «Antes dos e-mails e das mensagens instantâneas, os...
9. Viagens do horror
Acredito que ninguém no meu lugar deixaria de pensar sobre as misteriosas companhias do Capitão Jackdaw. Primeiro o misantropo faroleiro e o extravagante capitão Ed, depois o nosso companheiro de viagem até à Horta, o aventuroso jornalista das *Voyages Extraordinaires*, e agora um futuro passageiro, o excêntrico Mr. Peu, o sócio de Verlin na agência de viagens “Grotesco e Arabesco”. «Provavelmente, iremos encontrá-lo em Boston. Deverei ter a confirmação antes de atravessarmos o Atlântico», adiantou o Capitão, enquanto dobrávamos a ponta da ilha em direcção ao porto. «A companhia de Monsieur Peu vão adorar», garantiu Verlin, com um daqueles sorrisos oblíquos que nunca se sabe se anunciam uma revelação ou uma mentira estética. A agência de viagens dos dois parceiros está especializada em fornecer serviços àqueles que, sendo podres de ricos e estando enclausurados numa existência de tédio, procuram novas e cardíacas sensações para animar o corpo e o espírito. Pelo que Verlin explicou,...
8. Falar mareado
A jornada entre Santa Maria e o Faial está a ser tranquila como um passeio de fim de semana, e até agora temos tido vento calmo ao largo de cinco nós. As condições são as ideais para todos a bordo relaxarem e conversarem. Quando digo todos a bordo, refiro-me a mim própria, ao capitão e a mais um tripulante; mas é uma personagem que vale por muitas e cuja forma peculiar de organizar o discurso dá o mesmo trabalho que tentar entender duas ou três pessoas ao mesmo. O seu nome é Jules Verlan, intrépido explorador e jornalista da revista “Voyages Extraordinaires”. Só que para explorador, enjoa muito facilmente no mar e quanto aos seus dotes como jornalista espero que os artigos tenham uma ordem discursiva com uma coesão diferente e uma coerência mais fácil de apreender. É que não conseguiu produzir um único enunciado na ordem normal de constituintes frásicos. «San Michelle, este é o nome do meu barco, com dois mastros um veleiro que olhar demoradamente dá gosto.» «E é lá que escreve todos...
7. No farol do barbalhudo
Passámos o fim de semana a recuperar da ressaca do mar. No dia seguinte à chegada ainda estava com o corpo moído, mas saímos para esticar as pernas e visitar a vila. É uma localidade aninhada em comprimento ao longo de um estreito vale com três ou quatro ruas dispostas da zona habitacional cumeeira até ao pequeno porto acoitado numa apertada enseada sob a vigilância de um antigo forte. Se largasses um berlinde à porta da primeira casa do morro iria descer direitinho para o mar sem se desviar mais do que uma dezena de metros. Do lado poente do porto sai uma estrada que liga ao aeroporto, alinhado com a costa oeste da ilha de Santa Maria. Para leste ficam meia dúzia de lugarejos, vinte ou trinta casas em cada um deles, e o farol de Gonçalo Velho, onde tínhamos encontro marcado para um jantar em casa do faroleiro, um antigo amigo do capitão Jackdaw. O farol fica isolado no topo do extremo da ponta sudeste da ilha, acessível apenas por uma estreita estrada com escadas ao centro. É um...
6. Abduções e conspirações
Prepara-te para mais uma voltinha no carrossel da fantasia… A chegada a Santa Maria não teve nada de convencional. E não foi só por termos passado uma semana de monotonia no mar, sem mais nada para ver do que ondas, em conversa com as mesmas figuras. Se estás a ler as mensagens pela ordem correta, sabes que o capitão decidiu que eu ficaria ao leme durante a aproximação ao porto. Era madrugada ainda, o céu limpo a perder rapidamente o tom azul-escuro, com as primeiras luzes do dia a tentarem passar por cima das escarpas, vindas do lado leste da ilha. O mar, depois da longa travessia, parecia estar resignado, deixado sozinho sem uma única brisa como companhia. Com o motor a funcionar – as velas tinham sido recolhidas antes, quando nos pusemos aproados ao vento para as baixar sem pressas –, eu seguia as instruções do capitão com a concentração de uma estudante aplicada no seu primeiro exame de navegação noturna. «Mais para bombordo… assim… isso, mantenha o rumo», dizia ele, com a voz...
5. Heróis e heroínas
«A navegação marítima tem tanto de científica como de adivinhação». Este foi o meu desabafo ao avistarmos as luzes de Vila do Porto e, de imediato, fui repreendida. «Tudo o que fizemos no nosso percurso poderia ser previsto se tivéssemos todos os elementos necessários para o cálculo», argumentou o Carlos Sage. Já não posso ouvir tanta objetividade científica! Eu sei, é injusto porque ele até é um tipo impecável. Acho que este azedume é porque estou cansada e se estou a escrever a esta hora, ainda no mar, é porque sei que vou dormir muitas horas e não vou ter vontade de me sentar em frente de um computador tão cedo. Vou apenas ligar-me à internet e enviar-te as mensagens escritas a bordo nesta última semana. São quatro da manhã e finalmente estamos a chegar a Santa Maria. Passámos os dois últimos dias, mais de 120 milhas, a bolinar e a bolinar, com o vento a rondar e a trocar-nos as voltas. A temperatura não esteve desagradável, mas passámos boa parte do tempo sem sol e sem lua. Um...
4. Um kit para detetar balelas
Com tanta água à volta, parece estranho dizer que a viagem tem sido uma seca nos dois últimos dias. O problema é a falta de vento... Para tentar escapar à depressão – a mesma que, aparentemente, causou pequenos tornados aí em terra –, o capitão fez rumo ao Bancos de Gorringe, a 120 milhas de Sagres. Até aí fomos a voar. Depois, apontámos à Madeira e chegámos a pensar que iríamos até parar lá um dia, mas fomos apanhados pela calmaria que vinha a apanhar o restos do reboliço deixado pela depressão… Dois dias de mar completamente liso, a imaginar a Madeira mesmo ali ao lado. «Não estamos mesmo ao pé da Madeira! Estamos a mais de 200 milhas, isso é mais do que a distância entre Lisboa e Porto.», clarificou o capitão, como se isso nos fizesse mais felizes. Felizmente, o vento voltou. Só que agora estamos a ir mais para norte para evitar outra baixa pressão que vai passar ao largo dos açores em direção à Madeira e, nesta manobra, estamos a tentar escapar a outra calmaria!... Há uma certa...
3. A jornada da heroína
Sinto que agora a aventura verdadeiramente começa. Como no folhear das primeiras páginas de um romance, em que a mente analítica sustenta a leitura de cada frase a medir o potencial de interesse dos parágrafos e parágrafos que vêm a seguir, assim passei estes primeiros dias a tentar avaliar o sentido deste peculiar projeto. É um cálculo emotivo, se tal coisa existe, que procura estabelecer uma empatia com algo que não é mais do que expetativas baseadas em sensações construídas sobre alicerces de justificações amalgamadas. Não é para menos, pensando nos riscos inerentes a uma viagem com esta dimensão, mas a minha resistência a lançar-me neste desafio provinha do receio de um eventual divórcio após uma frustrante descoberta do esmorecimento da novidade dos espaços e dos elementos que os habitam, transformados numa rotina de gestos e palavras em dias sucessivamente indistintos. Sim, um longo intróito para te dizer: sinto agora que a aventura verdadeiramente começa porque abandonei os...
2. No bar do Ricky
Primeira semana após a partida e o plano da viagem já está em risco de ser alterado. Tudo correu bem até chegarmos ao porto da Baleeira, junto ao cabo de Sagres, a meio da manhã. Foram 93 milhas tranquilas que até deram para dormir profundamente. Quando o Nómada se aproximou do porto, aproámos ao vento e baixámos as velas. Ligámos o motor e pusemo-nos a rumar lentamente em direção aos pontões, o capitão ao leme e eu a preparar as defensas e os cabos de amarração. Nisto, o motor engasgou-se e morreu. Tentámos pô-lo a trabalhar — uma, duas, três vezes — nada. O vento, que ali sopra com obstinação, começou a empurrar-nos na direcção dos ilhotes do Martinhal. O capitão praguejou baixo e, com um movimento resoluto que não deixava perceber se era animado por raiva ou cálculo, correu para a proa para lançar o ferro na esperança de nos mantermos afastados das pedras. De súbito, surgiu uma moto de água a grande velocidade, vinda detrás dos ilhotes, como se alguém estivesse a filmar um anúncio...
1. Reviravolta ao mundo
Há uma calma hesitante quando a noite desce sobre o mar. Sinto-a como o resquício de uma memória da infância quando as luzes do quarto eram apagadas pelos meus pais e eu ficava no escuro atenta às ténues sombras formadas pela luminosidade a marejar pelas frinchas da porta. O coração começava a bater mais acelerado com os sentidos aguçados a tentarem detetar ruídos e flutuações na penumbra, mas depois acalmava, segura de que a altura da cama e a espessura dos cobertores eram uma proteção suficiente para qualquer ameaça a vaguear no quarto. O mar noturno é um quarto escuro cuja assustadora imensidão revela o isolamento do indivíduo. Não te quero assustar com estas palavras, apenas expressar como é intenso estar sozinha ao leme do barco rodeada pelo vazio de referentes visuais. O constante movimento das ondas torna impossível situar-me no espaço e, apesar de estar rodeada de matéria, nunca senti deste modo a possibilidade do nada. O capitão entregou-me o primeiro turno de vigia até às...
Prólogo 5. Uma conversa peripatética
Cheguei agora a casa depois do encontro com o Silva. Ele estava à minha espera na Adega dos Frades, sentado na mesa habitual, junto à parede de azulejos gastos, com a bengala encostada ao tampo da mesa de madeira. Não te acontece sentires que estás a regressar a um sonho quando vais a um sítio familiar cheio de memórias acumuladas como pó que escapa ao pano de limpeza? É esse estranhamento que sinto sempre que vou à Adega. Naturalmente, o facto de ser no andar térreo do edifício da pensão é motivo suficiente para me perturbar. A Adega continua a ser um espaço onde o tempo passa lentamente, detendo-se numa mesa a tomar um trago, noutra a discutir as notícias, mais adiante a atrasar-se numa partida de sueca e a adiar a saída para mais um copo e uma história. As paredes são guardiãs de memórias fotográficas – clientes de outras eras alinhados em poses de brinde, a vizinhança em procissões festivas nas marchas dos Santos Populares, uns quantos galhardetes e as respetivas equipas de...
Prólogo 4. Regresso do passado
Tenho mais novidades, mas vou acabar a história antes que me escape qualquer detalhe. Já percebeste: foi uma noite que não pertence a este mundo. E o mais estranho ainda não tinha acontecido. Estava a tentar perceber como tinha ido parar ao meio da Rua dos Mareantes, afastada da entrada do “La Bohème”, quando ouvi uma voz atrás de mim, familiar, mas distorcida como numa gravação antiga. «Olha quem está aqui, estás boa?» Virei-me e dei de caras com um estranho quadro: a minha velha guarda, os meus amigos de infância, que já não via todos juntos há imenso tempo, desde a adolescência, talvez. O Manel dos Frades, com olheiras na pele fina do rosto, cavadas por longas horas de trabalho e muitas de borga também; o Mac, sempre perfumado para tentar mascarar da sua memória o cheiro gorduroso da fast-food; o Barão, magro e pálido na sua elegância de aristocrata falido; e o Mr. T “himself”, chegado de Cebolas de Cima, a exibir a caveira desbotada na t-shirt da última tourné da sua banda de...
Prólogo 3. Mareantes submergidos
Desculpa a nova interrupção, era o administrador do condomínio, veio deixar-me o regulamento do prédio, um texto denso e repleto de pequenos preceitos. Só mesmo o típico apreço das formalidades exibido pelos titulares de cargos menores explica a sua insistência em me entregar um exemplar em papel pessoalmente, acompanhado de longas platitudes. Estou a considerar deixar a cidade e precisarei de um inquilino responsável que tome conta do apartamento por uma longa temporada. Tudo isto parece muito súbito, talvez até maníaco, mas as razões para o meu desassossego estão ligadas à história que me esforço por narrar-te com fidelidade. Como deves suspeitar, acabei por ir com o casal francês à “La Bohème”. Não te sei explicar porquê. Por um lado, queria fugir dali antes que a Ms. Lortz ou alguém da biblioteca me detetasse. Por outro lado, senti aquela espécie de fascinação que os espíritos livres exercem sobre as almas cansadas da rotina. Ou ainda, a esperança de ver um concerto de jazz ao...
Prólogo 2. Contingências na esplanada
Desculpa a interrupção, era uma chamada da minha chefe. Diz que quer falar comigo pessoalmente, provavelmente para me despedir. É que ontem, depois de ela me mandar a mensagem, acabei mesmo por não lhe enviar o trabalho. Eu explico, deixa-me tentar retomar o fio à meada. Depois de me passar a multa, o fiscal foi-se embora e eu fiquei ali, especada defronte da biblioteca, com a multa na mão e a pensar no que se tinha passado. Aquela história dos pedidos de desculpa estava a incomodar-me, uma espécie de comichãozinha na cabeça. Que trio de personagens intolerantes eram aqueles para ficarem tão enxofrados? E quem era Ms. Lortz, a nova bibliotecária? «Será possível uma personagem ser transposta do papel e tornada carne e osso… e sabe-se lá que mais?», perguntei-me. Foi nessa altura que me apercebi, em puro terror, que tinha trazido ao ombro, na minha sacola de linho, os livros que tinha tirado das prateleiras para levar para casa como empréstimo. Se aqueles que danificam um livro sofrem...
Prólogo 1. O início já vai a meio
Já te aconteceu quereres contar algo que te sucedeu e teres de voltar muito atrás para lhe conseguires dar sentido? É por isso que te peço paciência ao leres o meu e-mail, este longo testamento. As últimas 24 horas foram tão surreais que ainda me questiono se tudo não passou de um sonho. Lembras-te das aulas do Professor Ribeiro, daquelas em que ele nos servia mitologia às 8 da matina como se fossem torradas quentes? A história de Teseu, do Minotauro e do novelo que salvou a pele ao herói? Na altura rimo-nos quando o Calhotas comentou que tinha sido demasiado ingénuo ninguém levar um GPS – mais uma daquelas bocas anacrónicas com que ele escangalhava as aulas. Depois, o Professor Ribeiro explicou que seguir o novelo era, ao mesmo tempo, seguir a memória do trilho e o fio da narrativa que dá sentido à aventura do herói. Não sei porquê, mas isto ficou-me colado à memória, talvez porque explicava uma coisa tão simples que passa despercebida: contamos histórias para não nos...
Termos e Condições
