O capitão não descansou nas primeiras horas após a nossa largada, sempre a tentar manter a máxima velocidade junto à costa, com a intenção de encontrar um refúgio para as despistarmos. O vento soprava húmido e frio vindo do mar e uma névoa envolvia o convés como uma constante ameaça de cair sobre nós um véu espesso a qualquer momento. O capitão, de olhos semicerrados e mãos firmes no leme, lançava olhares rápidos ao horizonte, como se esperasse ver silhuetas a emergirem da bruma.

«Aquilo é que são verdadeiras fãs.», ironizou o capitão.

Handy Lol, encolhido num dos bancos da popa, puxava nervosamente a gola do casaco, como se quisesse esconder-se dentro dele.

«Ela odeia-me.», repetiu várias vezes o novo tripulante, dividindo o olhar entre nós e o horizonte à popa do veleiro.

O seu rosto, pálido e tenso, parecia lutar contra algo mais do que o enjoo. Os olhos, inquietos, procuravam na névoa uma ameaça invisível.

«E ela tem razão para isso?»

«Ela diz que só sente desprezo por mim, por eu ter sido absorvido no capitalismo, por ter corrompido a arte de todos os meus colaboradores e por os ter manipulado e explorado.»

«E é verdade?»

«Eu sempre tive colaboradores e sempre procurei compensá-los financeiramente. Mas eu tenho muitas bocas para alimentar, é preciso pensar a arte como um negócio.»

O capitão soltou um riso seco, coçou a barba com a ponta dos dedos e olhou para o céu encoberto.

«Não podia estar mais de acordo. A arte é um negócio e há quem ganhe muito dinheiro com isso. O engraçado é que a arte não deveria ser um negócio, mas uma produção para a comunidade usufruir.», apontou o capitão.

«Não concordo. A verdadeira arte é o negócio da arte. Ser bom a fazer negócios é o mais fascinante tipo de arte possível. As pessoas desprezam a ideia do negócio e do comércio, mas fazer dinheiro é arte e trabalhar é arte e bons negócios são a melhor arte.»

Handy Lol falava com olhar fixo no vazio, como se recitasse de cor um manifesto. Os seus dedos tamborilavam no corrimão com ritmo acelerado.

«A arte do negócio… É assim que você orienta o seu… trabalho… como influencer?»

«Eu não faço mais do que acompanhar o espírito do tempo. Olho à minha volta, vejo o que se faz na sociedade, pego nas tecnologias disponíveis e dou um passo mais à frente.»

«Como a coleção de selfies com os famosos que lançou recentemente?»

«Isto funciona assim: a gente conhece as pessoas ricas, sai com elas e, uma noite depois de uns copos, uma delas diz “Eu pago para tirar uma selfie contigo” e depois elas contam aos amigos que eles têm de tirar uma selfie comigo. E começa-se a estabelecer um valor. É isso.»

Fez um esgar que parecia uma tentativa falhada de um sorriso.

«O valor é estabelecido com base nos famosos envolvidos, nada tem a ver com o valor estético intrínseco do retrato, pelo vejo.», contrapôs o capitão, num tom de provocação.

O veleiro deu um balanço rependino e e Handy Lol segurou-se com uma mão ao verdugo, a cara cada vez mais torcida, não tanto pelas objeções do capitão, que não pareciam surpreender o artista, mas mais pelo movimento das ondas e do nosso barco. Era como se o mundo girasse mais depressa do que ele conseguia acompanhar. Hand y Lol ainda tento os conceitos de fama e de valor artístico, mas as pausas para controlar a indisposição tornaram-se perigosamente frequentes e os sinais de enjoo muito evidentes.

«Leve-o para o camarote e assegure-se de ele toma um Vomidrine.», ordenou-me o capitão. « Não se preocupe, ao mínimo sinal das sua fãs, eu dou o alerta», acrescentou, dando duas suaves palmadas no ombro de Handy Lol, encaminhando-o para o interior. O capitão observou-o com um misto de pena e divertimento, cambaleando escada abaixo como um boneco de corda mal articulado, enquanto ajustava as velas com gestos precisos.

Na primeira noite, ancorámos numa pequena enseada a coberto da ondulação do mar por uma pequena ilhota. No dia seguinte, Handy Lol permaneceu refugiado no seu camarote, empurrado ocasionalmente até à casa de banho por enjoos. Estamos agora no terceiro dia de viagem ao longo da costa da Nova Escócia e só hoje, depois do capitão o convencer pessoalmente a tomar medicação para o enjoo, é que Handy Lol emergiu até ao convés.

O influencer surgiu como um náufrago renascido, uma nova peruca segura ao crânio e óculos escuros a esconder o olhar que se adivinhava ainda baço. Inspirou fundo o ar salgado, arrumou os óculos no bolso ao peito do casaco e abriu um sorriso hesitante. Eu e o capitão questionámo-lo sobre o que o teria levado a meter-se em mares agrestes. É que, ainda que curta, a jornada até Whycocomagh leva uns 5 dias e, apesar de estarmos à vista de terra, a ondulação é tão agressiva como a que apanhámos em mar alto ao cruzar o Atlântico.

«Nunca fiz uma selfie a bordo de um veleiro no mar.», explicou-nos.

E de imediato, como se uma vítima de hipnotismo que desata em comportamentos rocambolescos ao som de uma palavra-chave, começou a tentar tirar “selfies”, segurando-se na amurada como um equilibrista em corda bamba.

«É melhor deixar isso para mais tarde. Quando se habituar aos balanços do barco e reforçar o seu equilíbrio, então poderá aventurar-se a tirar os seus retratos.», aconselhou o capitão.

«Não são retratos, são “selfies”», especificou.

«Não compreendo a diferença. Um retrato não é uma representação de alguém numa pose consciente de estar a ser representado?»

«Há diferenças na motivação.», interpus. «Uma selfie pode servir para formar uma identidade, interagir socialmente, fazer promoção pessoal ou por puro entretenimento. Esta são, pelo menos, quatro razões para fazer uma selfie: a procura de atenção, comunicar com outros, fazer o registo de um momento, eventualmente num espaço específico, e, como disse, simples divertimento.»

«Ou todas», disse o Handy Lol com um sorriso.

O sorriso era forçadamente largo e os olhos ainda denunciavam um certo desconforto. Ele ajeitou a peruca e esticou o pescoço como quem procura o ângulo perfeito.

«É claro que a personalidade de cada pessoa afeta a frequência e o tipo de selfies também.», adiantou o artista.

«Por exemplo, há os narcisistas, que procuram manter a sua autoestima e a imagem de si próprios através da atenção e da aprovação dos outros», exemplifiquei.

«À procura dos “likes”, não é?», apontou o capitão.

«Os “likes” sempre existiram», ripostou Handy.

«Talvez, mas não creio que houvesse tanta gente a exibir a sua aparência física e os seus bens materiais.»

«Só porque a tecnologia não o permitia. Agora, com toda a gente de câmara fotográfica na mão, e porque é mais fácil a divulgação de fotos nas redes sociais, a selfie tornou-se tão natural como respirar.», explicou Handy.

«Não para todos, pelo menos para mim não. De qualquer forma, aquilo que está a dizer é que as redes sociais permitiram a quem não tinha acesso à comunicação social apresentar as suas formas de vivência e criar comunidades alargadas. E as selfies, como qualquer meio de comunicação, são passíveis de serem politizadas e de darem voz a identidades silenciadas.», observou o capitão.

Acenei em concordância com desconfiança. Sabia que o capitão tinha algum contrargumento fisgado.

«Até aí tudo bem, mas suspeito que a larga maioria das pessoas fazem selfies sem a consciência ou a reflexão a que vocês se referem. A minha impressão é que seguem os modelos de pessoas como você», disse o capitão, apontado para Handy Lol, «que tentam impor o que quer que seja como moda. A maioria delas tenta agradar e está disposta a exibir o que for necessário para obter atenção, visualizações ou likes. É como aquelas selfies com a Marylin.»

«Acho que está enganado», contrapôs Handy Lol. «As selfies com a Marylin, assim como outras, são ícones. À semelhança dos ícones da cristandade oriental, elas vão além das representações que encontramos nas fotos dispostas nas redes sociais. São selfies que se sustentam a si próprias como significações de qualidades associadas ao ícone apresentado, seja beleza, coragem, sabedoria, etc. Na verdade, aquilo que todos os influencers almejam, é criar uma selfie que seja icónica.»

«É essa verticalização da selfie que me assusta. Não me leve a mal, mas os influencers são meros comerciantes.»

«Sim, eu sou uma pessoa comercial, sou um produto, uma marca.», concordou Handy Lol com aparente orgulho.

«E promove os produtos daqueles que o contratam. E, para tal, cria imagens que depois são replicadas pelos seguidores, imagens essas que, em muitos casos, não são reais, embora sejam apresentadas como tal. As selfies de que fala procuram apresentar aquilo que a sociedade diz que nós devemos tentar ser. E para isso, apagamos aquilo de que não gostamos e editamos aquilo que nos parece imperfeito, pondo de parte a autenticidade. Mesmo naquelas selfies em que as pessoas não aparecem a fazer cara de pato, a incharem o peito ou a espetarem o rabo para fora, há uma pressão para se acomodarem aos ícones vigentes.»

 

Handy Lol cruzou os braços, como se tentasse proteger-se das palavras do capitão, desviando ao mesmo tempo o seu olhar para o mar, como se ignorasse o capitão, tenso.

«As palavras que usa e o modo como as apresenta denotam uma profunda repulsa, capitão.», intervim. Egui a mão, a sinalizar que ainda não terminara, quando o capitão fez intenção de abrir a boca. «Mas as selfies permitem democratizar o espaço de comunicação e a própria representação do ser humano, em particular das mulheres.», argumentei.

O capitão franziu o sobrolho, pensativo. Passou os dedos pela borda da caneca de café já frio, como se procurasse ali uma resposta. Ponderou por instantes.

«Sim, acho que concordo. Mas vocês acreditam que esse é o papel predominante da selfie no dia a dia?», perguntou o capitão. «Um meio tecnológico por si só não é revolucionário a não ser que seja usado para revolucionar algo. Talvez o Handy não se lembre e tu, possivelmente, não terás ouvido falar, mas na década de 70 várias artistas – vêm-me à cabeça nomes como Martha Rosler, Carolee Schneemann, Lynda Benglis – questionaram o espaço de comunicação e a representação das mulheres, como você diz, de um modo revolucionário. Infelizmente, cinquenta anos depois, a única revolução que vejo nas selfies femininas hoje em dia é a do silicone e a do botox.»

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo ranger das cordas e o bater das velas contra o mastro. Handy Lol encolheu-se, como se o frio tivesse finalmente vencido a sua pose. Os seus ombros desceram, e os olhos tornaram-se opacos. Aos poucos comecei a ver o Handy Lol a encolher-se assustado.

«O que foi, Handy? Pelo seu olhar, deve estar a pensar que eu estou feito com a sua fã, não é? Não se preocupe, eu não o vou atirar aos tubarões para o devorarem. Não somos piratas.», riu-se o capitão.

A gargalhada do capitão ecoou pelo convés, mas não encontrou resposta imediata. Handy Lol esboçou um sorriso tímido, mais por cortesia do que por convicção. O influencer não descontraiu de imediato, mas a conversa ao longo do dia permitiu tornar as ásperas divergências meras opiniões.

Ao final da tarde, desviada a névoa e tornados mais claros os contornos da costa e do horizonte, o sol começou a descer no horizonte. Largado o ferro, e com uns cocktails antes do jantar, não resistimos a tirar uma selfie todos juntos sob os tons laranja e púrpura do por do sol, envolvidos no manto quente da sua luz dourada. A imagem capturada mostrava três figuras contra o pano de fundo de um céu em chamas, o veleiro balançando suavemente como se embalasse uma reconciliação silenciosa entre mundos tão distintos. Handy Lol, com o braço estendido e o telemóvel em punho, sorria com genuína leveza. Pela primeira vez, parecia não estar a representar ninguém — nem sequer a si próprio.

V. Somanas

Líder do grupo feminista radical “Só Manas” (pejurativamente apelidado de “Só Mamas”), a mulher da boina de bico de pato não é uma desconhecida. Na verdade, ela ganhou os seus 15 minutos de fama ao balear um dos mais famosos artistas da Pop Art.

LOL LOL LOL

Inúmeros artistas passaram pela fábrica de Handy LOL, alguns por ele retratados, outros nem por isso. Bowie sempre teve uma grande admiração pelo artista PoP, mas não terá conseguido impressionar Handy com a canção que escreveu e que lhe apresentou pessoalmente na Factory, em Nova Iorque.

Handy LOL

Apelidado por outros artistas como “prostistuta da cultura”, Handy LOL é uma das maiores influências da arte contemporânea, a milhas de distâncias de outras figuras da internet que promovem champô para os piolhos e minissaias de sarapilheira.