Jun 6, 2025

É tudo da comprativa

A experiência política da Torre Bela ocorreu no contexto turbulento que se seguiu à Revolução dos Cravos, um período marcado por intensas transformações sociais e pela ocupação de terras no Alentejo e Ribatejo. Em 1975, trabalhadores rurais ocuparam esta grande herdade abandonada, organizando-a sob a forma de uma cooperativa agrícola. A gestão passou a ser colectiva, com decisões tomadas em assembleias, refletindo ideais de autogestão e reforma agrária que caracterizaram o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC). Esta experiência tornou-se um símbolo das tensões entre diferentes visões políticas — desde o socialismo revolucionário até ao regresso a formas mais tradicionais de propriedade privada.

O documentário Torre Bela, realizado pelo cineasta alemão Thomas Harlan, registou de forma directa e muitas vezes crua essa experiência colectiva. O filme acompanha os trabalhadores e os conflitos internos que surgem ao longo do processo, revelando tanto o entusiasmo revolucionário como as dificuldades práticas da autogestão. Mais do que um simples registo, Torre Bela tornou-se um documento histórico fundamental para compreender aquele momento único da história portuguesa, em que diferentes projectos de sociedade estavam em disputa e em construção.

 

Na Torre Bela, a polémica recente ficou marcada por uma montaria realizada em dezembro de 2020, durante a qual foram abatidos num só dia cerca de 540 animais, maioritariamente veados e javalis, num episódio amplamente descrito como uma carnificina. Este acontecimento levou mesmo à suspensão temporária do processo de avaliação ambiental de uma central fotovoltaica prevista para o local, levantando suspeitas e críticas públicas sobre a relação entre a gestão cinegética da herdade e a preparação do território para o projeto energético.

Posteriormente, a Agência Portuguesa do Ambiente aprovou o projeto com um parecer favorável condicionado, mas o estudo de impacto ambiental foi criticado por não considerar relevantes as populações de fauna existentes, classificando-as como espécies de caça “sem particular interesse de conservação” e não prevendo medidas específicas de proteção nesse âmbito. Além disso, nenhuma das obrigações impostas incidia diretamente sobre a zona de caça, apesar de toda a área da central se situar dentro dessa mesma zona, evidenciando uma abordagem que desvaloriza a proteção animal face à implementação da infraestrutura energética.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Filme Torre Bela: Thomas Harlan / Medeia FIlmes https://medeiafilmes.com/filmes/torre-bela

Animais mortos dispostos para exposição: https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/energia/detalhe/agencia-do-ambiente-aprova-central-fotovoltaica-na-herdade-da-torre-bela

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