Acredito que ninguém no meu lugar deixaria de pensar sobre as misteriosas companhias do Capitão Jackdaw. Primeiro o misantropo faroleiro e o extravagante capitão Ed, depois o nosso companheiro de viagem até à Horta, o aventuroso jornalista das *Voyages Extraordinaires*, e agora um futuro passageiro, o excêntrico Mr. Peu, o sócio de Verlin na agência de viagens “Grotesco e Arabesco”.

«Provavelmente, iremos encontrá-lo em Boston. Deverei ter a confirmação antes de atravessarmos o Atlântico», adiantou o Capitão, enquanto dobrávamos a ponta da ilha em direcção ao porto.

«A companhia de Monsieur Peu vão adorar», garantiu Verlin, com um daqueles sorrisos oblíquos que nunca se sabe se anunciam uma revelação ou uma mentira estética.

A agência de viagens dos dois parceiros está especializada em fornecer serviços àqueles que, sendo podres de ricos e estando enclausurados numa existência de tédio, procuram novas e cardíacas sensações para animar o corpo e o espírito. Pelo que Verlin explicou, não se trata de atividades radicais no sentido usual, mas de uma experiência psicológica mais profunda.

«Vivos nos faz sentir o sentimento de terror. Experiências que exploram os medos maiores nós oferecemos», disse com um brilho quase reverente nos olhos.

«Então, é uma espécie de Casa dos Horrores?», perguntei, talvez com mais ironia do que intencionava.

«Sair você pode sempre na Casa dos Horrores, a mesma certeza connosco não tem», retorquiu ele, com um tom entre o sedutor e o ameaçador, como quem descreve um filme de terror em tom de convite.

Não consegui impedir os ombros de tremerem com o calafrio que subiu pela espinha acima. Verlin virou-se para o Capitão e mudou de assunto, enquanto eu fiquei a pensar sobre o tipo de aventuras grotescas e arabescas que a agência poderá oferecer. Mas quem é que se vai meter numa coisa destas? Já sei o que vais responder: há malucos para tudo. E aqueles que têm a vida feita são, por vezes, os que mais a querem abanar.

Entretanto, falando de malucos, o Capitão convidou-me para o acompanhar amanhã num encontro com outros congéneres seus.

«É um almoço informal, uns conhecidos meus que se encontram na ilha», clarificou.

Isto foi depois de um estranho encontro à nossa chegada à Horta – sim, esqueci-me de mencionar isso. Quando  atracámos esta manhã, estava um indivíduo à nossa espera no cais. Calças de sarja escuras, camisa branca, um chapéu de aba curta e uma postura de quem pertence a outro tempo, não ao presente.

O homem aproximou-se, mas o Capitão não me apresentou. Falaram em voz baixa, afastaram-se do barco e, de vez em quando, lançavam olhares discretos para os edifícios do outro lado da marina, como se esperassem ver um sinal. Depois de menos de dois minutos, um aperto de mão, uma troca de olhares sérios e o homem desapareceu na primeira transversal depois da marina, tão silencioso como tinha surgido.

«Ficamos na casa de um amigo. Leve consigo apenas uma muda de roupa e os artigos de higiene, o resto fica no barco. Tente descansar um pouco e aproveite para passear e pôr a escrita em dia. Eu vou acertar a viagem e amanhã vamos até ao Peter Café Sport para o almoço com outros capitães.»

A casa onde estamos alojados fica numa travessa perpendicular à avenida marginal, onde o som das ondas nunca desaparece. O meu quarto é um cubículo minúsculo, mas tem uma pequena varanda onde cabe uma cadeira e uma pequena mesa de café — suficiente para escrever e ver a cidade passar em câmara lenta. A Horta é um lugar peculiar, a meio caminho entre pontos de chegada e outros de partida. Nas ruas calcetadas, há um murmúrio constante de línguas estrangeiras, viajantes de mochila ao ombro equipados para zarpar no próximo veleiro. A marina é uma tapeçaria viva, coberta de murais e assinaturas de navegadores que, como nós, por aqui passaram. É impossível não sentir que cada passo ecoa algo ancestral e maior do que nós.

Ah, e o Verlin lá foi à sua aventura. Disse que ia ao encontro de um capitão — um tal Antifer. Pisou terra firme como se estivesse a entrar numa ópera, atirou-me um adeus de braço inteiro e desapareceu rua acima com a sua boina francesa e a mochila às costas. Segundo ele, iria juntar-se ao capitão numa caça ao tesouro à escala planetária.

«Outra vez quem sabe neste nosso globo nos encontremos, Mademoiselle», disse-me com um ar solene que só foi quebrado quando tropeçou num cubo de granito do passeio e teve de recuperar a compostura como se fosse um passo de dança ensaiado.

E eu? Fico por cá. Por enquanto. A tentar ligar os pontos entre os encontros do Capitão Jackdaw, as suas peculiares amizades e os fios invisíveis que os unem. Amanhã, talvez descubra mais no Peter Café Sport. Ou talvez não. Mas uma coisa aprendi com o Verlin: nem sempre as respostas vêm em ordem direta.

Medo de cortar com a faca

Se há filmes em que a banda sonora é central para a narrativa, um deles é Psico, de Alfred Hitchcock. O compositor Bernard Herrman estebelece o tom da história desde os primeiros minutos da película e toma as rédeas na famosa cena do duche.

Faial

Mais o que um simples porto de paragem para quem atravessa o Atlântico, a ilha do Faial tem muito para oferecer a quem a visita, começando pelos lindos amanheceres enquadrados com a ilha do Pico, onde fica a montanha portuguesa mais alta.

Regresso ao progressivo

Uma banda descoberta por mero acaso a tocar no rádio do taxi quando regressávamos do farol a casa. O motorista contou-nos tratar-se de uma banda de rock progressivo regressivo. Por outras palavras, Chon foi uma banda de curta duração que explorou a fusão da herança do rock progressivo com influências do heavy metal.

Marina Horta Faial